"Antes de existir uma campeã, existe uma menina": Ane Gabriely Loza e a vaga sul-americana que pode levar Dourados ao Mundial
- Vinícius Guarani

- 26 de ago.
- 22 min de leitura
Aos 17 anos, a caratista de Kyokushin soma 11 títulos estaduais, dois nacionais, dois sul-americanos e dois cinturões, sem patrocínio fixo. Em Assunção, no Paraguai, ela disputa a vaga mais nova do Brasil para o Mundial, no Japão, sustentada por rifa, vaquinha e pela rede que ela chama de "todo mundo que sustenta a minha trajetória".

Antes dos títulos, a palavra é dela
Antes de qualquer pergunta, Ane Gabriely Loza fez questão de dizer por onde queria começar. Em mensagem enviada à reportagem, resumiu o que a levou a aceitar esta entrevista:
"Sou a atleta mais nova do Brasil a disputar, nesse Sul-Americano, a vaga para o Mundial, e enfrento muitas dificuldades ao longo dessa trajetória, principalmente pela falta de patrocínio, incentivo e visibilidade. Ao longo da minha carreira, já conquistei alguns títulos importantes, como 11x Campeã do Mato Grosso do Sul, 2x Campeã do Brasil, 2x Campeã da América do Sul, além de ser dona de 2 cinturões e ter sido eleita 3x Melhor Atleta do Ano. Mesmo com essas conquistas, ainda tenho pouquíssima visibilidade e apoio, contando principalmente com a ajuda da minha família e dos meus amigos."
O currículo se confirma linha a linha ao longo desta entrevista: 11 vezes campeã de Mato Grosso do Sul, duas vezes campeã brasileira, duas vezes campeã sul-americana, dona de dois cinturões, três vezes eleita Melhor Atleta do Ano. Atleta de Dourados, cidade que não figura no imaginário nacional como polo de karatê, Ane treina Kyokushin desde os 11 para 12 anos e hoje concilia os treinos com o cursinho pré-vestibular, mirando uma faculdade que ela já nomeia no plural de sonhos: continuar competindo e, um dia, exercer uma profissão fora do tatame.
O que a move agora é uma data no calendário: o Campeonato Sul-Americano deste ano, em Assunção, no Paraguai. Vencer ali significa, além de um terceiro título continental, a vaga de disputa para o Mundial, no Japão, como a atleta mais nova do Brasil na competição. Para chegar até lá, ela e a família recorrem a rifa e vaquinha, porque, como ela mesma diz mais adiante nesta entrevista, a falta de patrocínio "muda praticamente tudo": passagem, hospedagem, alimentação, suplementação, fisioterapia, acompanhamento nutricional e psicológico.
O que segue reúne as respostas de Ane, organizadas nos blocos temáticos propostos no roteiro original, com transcrição revisada gramaticalmente a partir dos áudios enviados pela atleta.
1. Abertura — quem é a atleta antes do tatame
Antes de contar os títulos, conta pra gente: como começou essa história? Que idade você tinha quando pisou num tatame pela primeira vez, e o que te fez continuar depois daquele primeiro treino?
Eu comecei no karatê quando tinha 11 para 12 anos, e lembro que no meu primeiro treino estava muito ansiosa e com vergonha de fazer as coisas erradas. Ficava pensando: "E se eu fizer algum exercício errado? E se eu cair? E se eu passar vergonha?" Eu já queria chegar sabendo fazer tudo, entender tudo, e não tinha como.
Quando cheguei, vi um monte de gente treinando, batendo no aparador muito forte, e olhei para a minha mãe e falei: "Nossa, eu quero estar desse jeito daqui a algum tempo." Minha mãe respondeu que era só eu treinar, que eu ia chegar naquele nível. Naquele primeiro treino teve luta, mas eu não pude lutar porque não tinha conhecimento suficiente. Fiquei só assistindo, e foi como se eu estivesse dentro de um filme, vendo ao vivo aquilo que eu mais admirava. Eu ficava pensando: "Será que algum dia eu vou chegar nesse nível? Será que algum dia eu vou bater forte? Vou conseguir dar um chute sem me desequilibrar e quase cair?"
Eu já tinha praticado outra arte marcial, o judô, mas foi no karatê que eu realmente me encontrei. Olhava para as pessoas mais graduadas e pensava: "Será que vai demorar para eu chegar na faixa marrom, na faixa preta?" Eu nem tinha faixa ainda naquela época, nem branca, em teoria. E eu era muito influenciada por um filme conhecido, o Karatê Kid, que nem se trata de karatê, é sobre kung fu, mas eu trazia aqueles golpes para dentro do meu treino e ficava pensando: "Será que alguém consegue fazer aquilo de verdade? Dar aquele chute giratório? Quebrar telha, quebrar tábua, quebrar barra de gelo?"
Hoje é muito estranho olhar para trás, mas é uma sensação boa, porque eu consigo responder às perguntas daquela menina do primeiro treino. E eu responderia que sim, é possível. Hoje eu sei dar aqueles chutes que eu tanto admirava, sei lutar, aprendi a quebrar tábua e telha. Barra de gelo eu ainda não quebrei, inclusive é uma meta da minha vida. Cheguei a lugares que naquele primeiro treino eu nem imaginava alcançar.
Lembro que saí daquele primeiro treino chorando, mas não foi por tristeza, nem porque me machuquei ou não tinha gostado. Comecei a chorar porque pensei: "Eu realmente quero aquilo para mim. Quero competir, quero lutar, quero estar nesse ambiente." Minha mãe olhou para mim e repetiu a frase de antes do treino: "Você só precisa treinar." Eu ficava pensando: "Será que algum dia eu vou ser faixa preta? Será que algum dia eu vou disputar esse Mundial de que tanto falam, o ponto mais alto que um atleta pode chegar antes das Olimpíadas?" Só que, na época, eu nem sabia que o karatê não é olímpico. E foi isso, eu acho, que me fez continuar: mesmo sem saber, eu conseguia enxergar, inconscientemente, a atleta que eu queria me tornar no futuro. Se a Ane daquela idade, dos 11, 12 anos, olhasse para mim hoje, ela provavelmente choraria o triplo, porque diria: "Nossa, nunca imaginei que a gente conseguiria chegar onde a gente chegou."
Dourados não é conhecida nacionalmente como polo de karatê. Como é treinar para competir em nível sul-americano numa cidade que não tem, historicamente, a estrutura esportiva de grandes centros?
Competir em nível sul-americano estando em Dourados é muito desafiador, porque Dourados é a minha casa: foi aqui onde eu construí praticamente toda a minha trajetória, e tenho muito orgulho de representar a cidade, o estado e o país quando a gente viaja para competir fora. Mas também sei que a realidade daqui é muito diferente da dos grandes centros. Não precisa ir muito longe: se a gente comparar o esporte doradense com o esporte paulista, já dá para ver a diferença, porque lá existem grandes centros, no Rio de Janeiro também, e a própria Campo Grande tem uma estrutura melhor, pode ser considerada um centro maior. Principalmente quando a gente fala de estrutura e oportunidade no esporte, Dourados não tem isso do mesmo jeito, e muitas vezes, para a gente conseguir competir em alto nível, sul-americano ou brasileiro, precisa correr atrás de coisas que deveriam ser mais acessíveis ao atleta.
Ao mesmo tempo, aprendi que isso fez parte da atleta que eu me tornei: aprendi a não esperar pelas condições perfeitas para continuar. Eu treino, me preparo e entro no tatame sabendo de onde eu vim, e de certa forma, cada vez que viajo para competir e levo o nome de Dourados comigo, sinto que estou mostrando que é possível sair daqui e chegar em lugares que às vezes parecem muito distantes.
Quem foram as pessoas que sustentaram essa trajetória até aqui, dentro e fora do tatame?
Eu não consigo falar da minha trajetória como se ela fosse uma construção individual, porque tenho a minha família, que sempre me ajuda, as minhas treinadoras, minhas senseis, minhas shihans, e todas as pessoas que acreditaram e acreditam em mim ao longo desses anos. Elas sustentam a minha trajetória.
Tem gente que me ajuda dentro do tatame, dentro do dojo: minhas treinadoras, a Sensei Karol e a Shihan Elaine, corrigindo um golpe, me ensinando algo novo, me passando um exercício de fortalecimento, de velocidade, de resistência, de força. Isso sustenta a minha trajetória, e a própria preparação para uma competição também sustenta. E tem gente que me ajuda fora dos tatames, nos momentos em que eu penso que não vou conseguir: minha mãe, quando eu estou insegura, com algum pensamento de "será que eu vou conseguir esse campeonato tão importante, será que eu vou ganhar", e minha psicóloga, que estão ali me dando todo esse apoio, falando que sim, é possível, porque eu treinei, porque eu sei que sou capaz.
Cada uma dessas pessoas faz parte dos meus resultados, porque, se estivesse faltando uma, já não daria certo. O troféu pode até ter o meu nome, posso ser eu que subi lá para pegar, mas a trajetória e a vitória não são só minhas. Lutar, subir no tatame, é só eu e a pessoa que está lá comigo, a outra menina. Mas quem me faz chegar até lá são muitas pessoas. Então a vitória não é só minha, ela é de todo mundo que sustenta a minha trajetória, de todo mundo que está me apoiando, que está junto comigo, que faz isso ser possível.
2. O ofício — o que os títulos não mostram
Você já soma 11 títulos estaduais, 2 nacionais e 2 sul-americanos, além de dois cinturões. Qual desses títulos custou mais caro, não em dinheiro, mas em sacrifício pessoal?
Para mim, são todos aqueles títulos que eu conquistei quando eu não tive apoio, quando as pessoas não acreditaram em mim, e principalmente quando nem eu acreditava que conseguiria. Esses foram os que custaram mais caro, porque eu precisei ir até lá mesmo com todas as dúvidas, com pessoas dizendo que eu não iria conseguir. E eu não conquistei só por mim: conquistei também por todas as pessoas que estão comigo, que acreditaram em mim, que me apoiam. E, de certa forma, conquistei também para mostrar a quem não acreditou que é possível sim, e que mesmo quando você não consegue enxergar onde pode chegar, ainda pode chegar muito mais longe do que imaginava.
Mas se eu tivesse que escolher um título que me marcou de uma forma diferente, seria o terceiro lugar que eu conquistei num campeonato em Campo Grande. Não lembro certinho o ano, mas lembro que naquela época eu ainda era faixa azul, e aquela foi a primeira luta que eu ganhei na minha vida. Antes, eu ficava pensando: "Será que algum dia eu vou ganhar uma luta?" Em todas as outras que eu disputava, eu perdia, não conseguia ganhar, e não me deixava abalar: continuava treinando, e no campeonato seguinte estava lá de novo. Naquele campeonato em Campo Grande eu finalmente ganhei. Não ganhei a categoria, ganhei uma luta; não fui campeã, mas fiquei em terceiro lugar. E para mim aquilo foi enorme. Saí comemorando, feliz da vida, como se tivesse ganhado o mundo, porque foi a primeira vez que eu tinha conseguido vencer uma luta.
Hoje eu olho para trás e isso pode parecer uma coisa pequena, um troféu de terceiro lugar. Mas para mim, naquele momento, significou muito, e aquela primeira vitória foi uma das coisas que me fizeram acreditar que eu realmente poderia ganhar. Depois daquele campeonato, fui para os outros com mais gás, pensando: "Ganhei uma luta, já ganhei minha vida, está tudo certo." E continuei indo. Olhando de fora, comparado a tudo que eu conquistei hoje, pode parecer uma coisa pequena, mas para mim tem uma importância gigantesca.
Existe uma competição, vencida ou perdida, que mudou a forma como você treina ou como você pensa o karatê?
A competição que mudou meu modo de pensar foi a última que eu disputei em Três Barras. Eu estava esperando para receber a premiação junto com as outras duas meninas da minha categoria, e uma delas é uma menina que luta comigo desde quando eu comecei no karatê. A gente já teve várias lutas na mesma categoria ao longo dos anos, uma espécie de vai e volta, às vezes eu ganho, às vezes ela ganha, mas apesar disso a gente sempre teve uma relação boa, mesmo que eu achasse, antes, que ela não gostava de mim.
Enquanto eu esperava a premiação, ela chegou até mim e falou que gostava muito de lutar comigo, justamente pela forma como eu tratava as adversárias. Eu não gosto de usar a palavra "adversária" ou "rival": prefiro dizer "pessoa da mesma categoria", porque não acho bom colocar como se, entre nós duas, alguém tivesse que ser vencedora e a outra, perdedora. Dentro de uma luta, no campeonato, claro que precisa haver uma vencedora, mas eu não acho que isso defina quem eu sou. A minha experiência em Campo Grande, por exemplo, foi a primeira luta que eu ganhei, e eu me senti vencedora com um terceiro lugar.
Ela me disse que me considerava uma pessoa muito humilde, porque eu não fico desmerecendo quem eu venço, nem me acho superior, e quando perco não procuro diminuir a outra pessoa, colocar a culpa nela ou inventar desculpa para a derrota. Eu reconheço a derrota, reconheço quando alguma coisa faltou em mim, quando cansei, quando não fiz algo que deveria ter feito. Ouvir aquilo me fez perceber uma coisa muito importante: que o karatê não é só ganhar, não é só estar em primeiro lugar ou ter uma medalha no peito. A imagem que você constrói e a pessoa que você é também fazem parte da sua trajetória. E foi especialmente importante para mim porque, muitas vezes, antes de entrar no tatame, a minha própria cabeça me sabota, fico pensando que não vou conseguir, que não sou capaz.
Então essa foi uma das maiores lições daquela competição: eu posso perder uma luta, posso não ficar em primeiro lugar, posso errar, mas isso não define o que eu sou. A forma como trato as pessoas e a pessoa que eu escolho ser também são parte da minha vitória. Eu sempre digo à minha mãe e já disse a outras pessoas do meu círculo de amizade, de quem acabei me afastando: eu não entro para lutar pensando em machucar ninguém. Entro pensando que, se a outra pessoa não está num bom dia, tudo bem, o problema não é meu, e eu não vou entrar para machucá-la. Quem entra numa luta pensando em bater para machucar já perdeu, porque esse não é um pensamento que um atleta deveria ter: antes de ser atleta, você é um ser humano.
Como é a rotina de treino de uma atleta que também está no cursinho pré-vestibular? O que você abre mão para sustentar as duas coisas ao mesmo tempo?
Hoje eu concilio o karatê com os estudos, e isso não é uma coisa simples. Minha rotina precisa ser muito organizada, porque eu tenho treino, musculação, preparação física, aula, e preciso estudar, muitas vezes, quando outras pessoas estão descansando. Abri mão de várias coisas para conseguir cumprir tudo. Tenho dois pilares muito grandes na minha vida, o esporte e os estudos, e nada pode atrapalhar nenhum dos dois.
Vejo outras pessoas, amigos da faculdade, que não treinam, que vão para festa, para algum rolê, e eu, entre eles, sou tida como a mais certinha do grupo, porque prefiro ficar em casa descansando do treino, revisando uma matéria, tirando dúvidas, tentando diminuir as dificuldades que eu tenha em alguma disciplina, do que ir para um lugar que vai me desgastar. Acho que isso foi uma coisa que o esporte me ensinou, essa disciplina de que as pessoas sempre falam: "Ah, a Ane é uma pessoa muito disciplinada." Precisa ser, porque senão eu não consigo treinar, não consigo estudar, e fica tudo desregulado, sem bom rendimento em nada.
Eu não espero estar motivada todos os dias, porque você não precisa estar motivado para fazer algo, precisa fazer aquilo que tem para fazer mesmo nos dias difíceis. Às vezes eu não tenho motivação nenhuma para ir para a faculdade, mas vou do mesmo jeito, porque é uma obrigação minha, uma necessidade. Não é questão de querer, é questão de precisar. E acho que isso é muito importante para mim, porque eu preciso fazer o que tenho que fazer mesmo nos dias difíceis.
O que Kyokushin, especificamente esse estilo de karatê, te ensinou que você não teria aprendido de outro jeito?
Acho que o Kyokushin me ensinou uma coisa que eu dificilmente teria aprendido da mesma forma fora do tatame: que você não precisa depender das circunstâncias para continuar. O Kyokushin é um estilo muito exigente, cobra do seu corpo, da sua mente, da sua capacidade de permanecer quando você já chegou no seu limite. No treino, na competição, chega um momento em que você está cansado, seu braço não consegue dar mais nenhum soco, sua perna não levanta para um chute, parece que o pulmão não tem oxigênio, você está com dor, querendo parar, mas mesmo assim precisa continuar. E, com o tempo, você percebe que o seu limite não é necessariamente onde você achava que ele estava.
Desde quando comecei no karatê, minha treinadora falava assim: "Se você está no seu limite, ainda tem mais 30% de gás para dar." Esse 30% fica na nossa reserva, e por isso tem gente que sai do treino em extrema exaustão, porque usou esse gás que ainda tinha guardado. Você precisa dar esses 30% até o final da luta, do treino, precisa ultrapassar os seus limites. E acho que a maior lição não foi simplesmente suportar a dor, foi entender a diferença entre sentir dor, sentir que você não consegue, e realmente não conseguir. Aprendi a conviver com desconforto, com medo, com a pressão e com a possibilidade de perder, sem deixar que essas coisas decidam por mim.
Também aprendi que força não é só bater forte ou aguentar mais que o outro. Força é ter disciplina para continuar treinando quando ninguém está vendo, é aceitar que você ainda não está bom o suficiente e voltar no dia seguinte para tentar melhorar, é reconhecer uma derrota sem deixar que ela defina quem você é. E isso ultrapassou completamente o karatê: a faculdade, minha rotina, os momentos difíceis, até as situações em que acabei duvidando de mim mesma, tudo isso acabou sendo influenciado pelo que aprendi no tatame. O Kyokushin me ensinou que eu posso estar cansada, com medo, insegura, e ainda assim dar o próximo passo. Talvez essa seja a coisa mais valiosa que esse estilo me deu: ele não me ensinou a nunca cair, me ensinou a levantar e continuar. Mesmo que eu caia mil vezes, preciso levantar mil e uma. Ficar caída não muda nada: você caiu, tudo bem, agora vai levantar, limpar o joelho, limpar a mão, e continuar.
3. A engrenagem que falta
Você tem um currículo que, em qualquer outro esporte com mais visibilidade midiática, provavelmente já teria patrocinador fixo. Por que você acha que isso não aconteceu ainda?
Eu tenho um único patrocínio, que é da academia Eurofit, onde não pago mensalidade para treinar. Tirando isso, acho que existe uma diferença muito grande entre resultado esportivo e visibilidade. O karatê tem atletas extremamente talentosos, mas ainda recebe pouco espaço, principalmente quando a gente fala de modalidades fora dos grandes centros. Eu construí uma trajetória com títulos estaduais, nacionais e sul-americanos, mas isso ainda não significa que exista uma estrutura profissional ao redor do atleta. Muitas vezes, a empresa olha apenas para o tamanho da audiência, não para o potencial daquela história, e acho que isso tem muito a ver com a falta de visibilidade que o esporte feminino ainda tem, principalmente numa modalidade individual.
Muitas vezes as pessoas olham para o atleta apenas pelos títulos: veem que você tem muitos, mas não conhecem, não querem ver a história por trás deles, tudo o que foi necessário para chegar até ali, os treinos, as viagens, os sacrifícios, todas as dificuldades. E, querendo ou não, quando a gente fala de patrocínio existe também uma questão financeira: as empresas precisam enxergar um retorno, e modalidades individuais femininas ainda não têm a mesma visibilidade e o mesmo incentivo que outros esportes. Não acredito que seja simplesmente uma questão de eu não ter resultado, eu tenho resultado. O que ainda falta é que mais pessoas conheçam a minha história e enxerguem o potencial que existe por trás desses títulos. Ainda existe uma falta de incentivo muito grande dentro do esporte feminino, principalmente para atletas de modalidade individual, e isso acaba fazendo com que o próprio atleta precise correr atrás dos recursos para continuar competindo.
O que muda na prática, no dia a dia de treino e de viagem para competição, quando não existe patrocínio? O que fica mais difícil do que deveria?
A falta de patrocínio muda praticamente tudo. Uma competição internacional não envolve só a inscrição: envolve passagem, hospedagem, alimentação, transporte, equipamento, preparação. Não é só treinar, subir no tatame e lutar. Tem o físico: eu preciso fazer a liberação dos músculos antes de lutar, para não ficar travada, e depois, para não ter dor pós-luta, preciso fazer a liberação miofacial, para evitar lesão. Preciso de suplementação, não no sentido de doping, mas de whey e creatina, para conseguir força e bater os níveis de proteína que uma alimentação saudável exige. É necessário acompanhamento nutricional com nutricionista, e o acompanhamento psicológico também é fundamental. Sem patrocínio, essas coisas não são automaticamente possíveis: quem banca são minha família, minhas treinadoras, meus amigos, as pessoas que estão comigo, porque auxílio empresarial de outras empresas, de algumas, não tem. Isso acaba enfraquecendo essas frentes todas.
Quando não existe patrocínio, grande parte disso precisa ser resolvida pelo próprio atleta: a família, os amigos, os treinadores. Isso acaba fazendo com que uma parte da energia que deveria estar concentrada na preparação esportiva, na preparação para o campeonato, seja direcionada para conseguir viabilizar a própria participação.
Se você pudesse explicar para um possível patrocinador, em uma frase, por que investir em você não é caridade, é aposta certa, o que você diria?
Não estou pedindo que alguém aposte num sonho sem saber aonde ele pode chegar. Já construí uma trajetória, tenho resultados concretos, e continuo trabalhando para alcançar objetivos maiores. Investir em mim é investir numa atleta que já provou que consegue chegar longe e que ainda tem muito espaço para crescer: uma atleta que, com apenas 17 anos, já conquistou 11 títulos em Mato Grosso do Sul, dois títulos brasileiros, dois títulos sul-americanos e dois cinturões. Eu não quero que alguém pague para eu tentar. Quero que alguém aposte para eu conseguir, e para que eu consiga continuar fazendo aquilo que já estou fazendo.
4. Assunção — a meta do ano
O que representa, tecnicamente e emocionalmente, o Campeonato Sul-Americano deste ano? Por que ele pesa mais que os títulos sul-americanos que você já tem?
Assunção representa um passo diferente de tudo o que eu já vivi. É um passo que eu sonho desde quando tinha 11 e 12 anos: disputar a vaga para o Mundial, no Japão. Antes era um sonho muito distante, que eu não imaginava que estaria tão perto de realizar, e agora estou na semifinal dessa disputa, que vai acontecer em Assunção. Já fui duas vezes campeã sul-americana, então dessa vez não é simplesmente buscar mais um título: tem uma vaga para o Mundial em jogo, que é o sonho de todo mundo, o meu sonho. É uma competição que pode mudar o próximo capítulo da minha carreira, da minha história.
Tecnicamente, significa provar que todo o trabalho que estou fazendo está me colocando no nível necessário. É algo que você sonha desde pequena e que está ali, na porta: não vai ser fácil ganhar essa vaga, mas estou disposta a dar até a última gota do meu sangue para conseguir. Emocionalmente, significa estar diante de uma oportunidade que venho construindo há anos.
Você seria a atleta mais nova do Brasil disputando essa vaga para o Mundial. O que isso significa pra você: pressão extra, ou motivo a mais para acreditar que está no caminho certo?
Sinceramente, é um pouco dos dois. Ser mais nova traz uma responsabilidade enorme, porque sei que estou competindo com atletas muito experientes, inclusive uma das pessoas que eu mais admiro: a Eugenia, uma atleta uruguaia da mesma categoria que a minha, que também vai disputar essa vaga. É um nível de responsabilidade absurdo, porque vou competir com atletas muito fortes. Mas também vejo isso como uma baita oportunidade: se eu estou ali, é porque conquistei aquilo, porque fui eu que lutei para conseguir essa vaga. Então tenho o direito de estar lá.
Em vez de pensar que a minha idade vai me diminuir, tento lembrar que ela também mostra o quanto ainda posso construir. Tenho 17 anos e já conquistei o sul-americano que vai definir a disputa da vaga do Mundial, algo que eu nem imaginava que conseguiria fazer com essa idade. Pretendo ter muitas outras disputas, conquistar outras vagas, conquistar o Mundial. Isso só me dá mais gás, porque, com 17 anos, já estou na semifinal do meu sonho. Então imagina mais para frente, quando eu tiver mais experiência.
Como está sendo a preparação técnica para Assunção? Tem algo específico que você e suas treinadoras estão trabalhando para essa competição, que não era prioridade em campeonatos anteriores?
A preparação está muito mais completa. Não estou pensando apenas na técnica, mas também na força, na resistência, no condicionamento, na velocidade, na explosão e na recuperação física. Estou fazendo musculação intensa, seis vezes por semana, todos os dias; o karatê é três vezes por semana; e a preparação física específica para os campeonatos, feita também no karatê, é duas vezes por semana, na terça e na quinta. Treino não é algo que está faltando, está muito completo, e minha rotina precisa estar alinhada com a alimentação para ter eficácia, então minha alimentação também está completa para eu conseguir os resultados que espero.
A ideia é chegar a Assunção não apenas sabendo lutar, mas preparada fisicamente e emocionalmente para sustentar a intensidade da luta até o final. Eu e minhas treinadoras estamos trabalhando para que o meu corpo consiga acompanhar aquilo que eu quero executar tecnicamente.
5. Pedir ajuda em praça pública
Rifa e vaquinha não são, normalmente, palavras que a gente associa a uma atleta duas vezes campeã sul-americana. Como foi a decisão de recorrer a esse tipo de campanha?
No começo foi estranho. Eu nunca imaginei que chegaria ao ponto de precisar pedir publicamente ajuda para disputar uma competição. Desde o primeiro sul-americano que eu disputei, na Bolívia, em Santa Cruz de la Sierra, a gente já fazia vaquinha e rifa, e em outras competições importantes também. Acho que isso tem muita ligação com a falta de incentivo, com a falta de patrocínio que a gente tem, mas chega um momento em que você precisa escolher entre deixar uma oportunidade passar ou encontrar uma maneira de viabilizá-la. Decidi fazer a rifa e a vaquinha porque quero estar em Assunção e quero representar o Brasil da melhor forma possível.
O que você sente ao ter que pedir publicamente por algo que, na sua avaliação, deveria vir de investimento esportivo estruturado?
Sinto que existe um certo constrangimento, porque eu gostaria que o esporte tivesse uma estrutura em que o atleta pudesse se preocupar só em treinar e competir. Ao mesmo tempo, tento não enxergar isso como uma vergonha, porque estou trabalhando para realizar algo que não é importante só para mim, mas que também pode representar Mato Grosso do Sul. Prefiro transformar esse pedido de ajuda numa oportunidade para as pessoas acompanharem e fazerem parte dessa trajetória, dessa história, junto comigo.
Para quem está lendo esta entrevista agora e pode contribuir com a rifa ou a vaquinha: o que exatamente esse dinheiro paga, e o que muda concretamente na sua preparação com cada parte do valor arrecadado?
O dinheiro arrecadado é destinado principalmente aos custos necessários para tornar a participação em Assunção possível: passagem, hospedagem, inscrição, alimentação, transporte, suplementação, e a parte física, como falei antes, a liberação muscular antes e depois da luta. Cada contribuição ajuda a diminuir uma dessas despesas e, consequentemente, me permite concentrar mais energia na minha preparação.
6. Depois de Assunção — o Japão e o que vem depois
O karatê ainda negocia seu lugar no cenário olímpico internacional, depois de ter estreado em Tóquio 2020 e ficado fora dos Jogos seguintes. Isso muda alguma coisa em como você projeta sua carreira daqui pra frente?
Acho que muda um pouco a forma como eu penso o futuro, mas não muda a minha vontade de continuar. Claro que, como atleta, você sonha com os maiores palcos possíveis, e as Olimpíadas são uma referência muito grande dentro do esporte. O karatê ter estado em Tóquio e depois não estar no jogo seguinte mostra justamente como esse caminho ainda é incerto, porque o karatê ainda não é olímpico. Mas eu também não quero colocar toda a minha trajetória dependendo de uma única porta: não quero que a minha carreira exista somente se o karatê estiver ou não nas Olimpíadas.
Quero construir uma história dentro da modalidade, buscar títulos nacionais, sul-americanos, mundial, pan-americano, representar o Brasil nas maiores competições que estiverem ao meu alcance. Hoje o meu objetivo mais próximo é Assunção e, se Deus quiser, o Japão, e depois disso quero continuar crescendo. Quero olhar para trás daqui a anos e saber que aproveitei todas as oportunidades que apareceram, mesmo quando o caminho não era fácil. Se um dia o caminho olímpico voltar a se abrir para o karatê, eu vou querer estar preparada para tentar, mas até lá não quero ficar esperando essa possibilidade para começar a construir o meu futuro. Quero continuar fazendo história dentro do tatame que existe hoje.
7. Fronteira, juventude, ser mulher no tatame
O que você diria para uma menina de Dourados que está começando agora no karatê e não tem ideia de que uma atleta da própria cidade está a um passo do Mundial?
Eu diria para ela não ter medo de começar pequena. Talvez hoje ela esteja entrando no tatame sem imaginar que aquilo pode mudar a vida dela, talvez ache que está apenas aprendendo a lutar, fazendo uma atividade física, participando de uma aula. Eu também comecei sem saber exatamente onde o karatê ia me levar. Diria para ela continuar: continuar mesmo quando perder, mesmo quando tiver uma competição em que o resultado não sai como ela quer, continuar quando olhar para uma adversária, uma pessoa da mesma categoria, e achar que ela é melhor, continuar quando parecer que outras pessoas têm mais estrutura ou mais oportunidade do que ela. Eu diria isso porque aprendi que o esporte não é feito só dos dias em que a gente ganha: na verdade, muitas vezes são os dias em que a gente perde que ensinam quem a gente realmente é.
Diria também para ela não achar que precisa deixar de ser menina para ser forte: ela pode ser feminina, pode ter seus sonhos, pode estudar, pode ter uma profissão, pode ter outros interesses, e ainda assim ser uma atleta forte. Eu queria que ela soubesse que existe uma menina de Dourados que começou num tatame e hoje está buscando uma vaga para representar o Brasil no Mundial, e que, se eu puder ser para ela uma prova de que é possível ir além do lugar onde começou, então toda a minha caminhada já terá valido a pena. Não sei aonde ela vai chegar, mas gostaria muito que ela não desistisse antes de descobrir.
8. Fechamento
Se este texto for a primeira vez que muita gente ouve falar de você, o que você quer que fique gravado, além dos títulos?
Eu gostaria que as pessoas entendessem que, antes de existir uma campeã, existe uma menina. Os títulos são só uma parte, muito importante, da minha história, e tenho muito orgulho de tudo o que conquistei e de cada vez que subi ao pódio. Mas nenhum troféu conta sozinho tudo o que existe por trás dele: por trás de cada medalha existe treino, viagem, cansaço, muitas renúncias, momentos em que duvidei de mim mesma, momentos em que precisei respirar fundo e continuar. Existem pessoas que acreditaram e acreditam em mim quando eu não tinha nenhum título para mostrar, existem dias bons e dias muito ruins.
Não quero que as pessoas olhem para mim e enxerguem apenas a atleta que ganhou. Quero que enxerguem alguém que está construindo uma história, uma menina que começou em Dourados e que, mesmo vindo de um lugar que não é considerado um grande centro esportivo, decidiu levar o próprio sonho a sério. Quero que fique gravado que eu não cheguei aqui porque foi fácil: cheguei porque, mesmo quando foi difícil, eu consegui, e continuei encontrando motivos para voltar ao tatame. Talvez seja isso que eu mais gostaria que alguém levasse da minha história: que você não precisa ter todas as condições perfeitas para começar, precisa começar com aquilo que tem e continuar trabalhando até chegar onde quer. Então, se algum dia alguém lembrar de mim, que não seja só pelos títulos, mas pela pessoa que existiu por trás deles, e pela vontade que eu tive de ir cada vez mais longe.
Depois de Assunção e do Japão, o que vem depois? Onde você se vê daqui a cinco anos, dentro e fora do tatame?
Daqui a cinco anos quero estar formada na faculdade, com a OAB no bolso, se Deus quiser aprovada num concurso público, e espero olhar para a Ane de hoje e sentir orgulho dela. Dentro do tatame, quero ter ido muito além de onde estou agora, quero ter disputado o Mundial e as maiores competições que estiverem ao meu alcance, continuar representando o Brasil e, principalmente, continuar evoluindo como atleta. Não quero que o Japão seja o ponto final da minha história, quero que ele seja uma porta. Quero continuar treinando, continuar conquistando títulos e descobrindo até onde consigo chegar. Ainda tenho muita coisa para aprender, e um objetivo que hoje parece grande demais, mas quero ter coragem de continuar.
Fora do tatame, quero continuar construindo a minha vida, crescer profissionalmente, encontrar uma forma de conciliar minha carreira com o esporte. Não quero acreditar que preciso escolher entre ser atleta e ter uma profissão: quero provar para mim mesma que posso construir os dois. Também quero poder olhar para trás e perceber que tudo o que vivi teve algum propósito, que os momentos difíceis não me fizeram parar, que as dificuldades financeiras não impediram meu caminho, que a falta de estrutura não foi maior do que a minha vontade, que cada treino, cada competição, cada viagem e cada pessoa que esteve comigo fizeram parte de alguma coisa maior. Daqui a cinco anos eu não sei exatamente onde vou estar, porque aprendi que a vida muda rápido, mas quero estar orgulhosa da pessoa e da atleta que eu me tornei. E, se eu puder escolher, quero continuar levando o nome da minha cidade e do meu estado comigo, porque não quero chegar a um lugar grande e esquecer de onde vim. Quero chegar o mais longe que eu puder, justamente para mostrar de onde uma menina de Dourados pode sair.
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