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O mundo antes da legenda

18 de jul.
3 min de leitura

Há uma cena que se repete todos os dias, em todos os lugares, com a regularidade de um ritual sem sacerdote: alguém chega diante de algo, um pôr do sol sobre o Pantanal, uma xícara de café, o rosto de quem se ama depois de muito tempo, e a primeira coisa que faz não é olhar. É buscar o aparelho que vai registrar o olhar. Só depois, com a imagem já capturada, arquivada, é que os olhos se voltam, por um instante breve, para o que estava ali. Foi pensando nessa inversão que a equipe do MS Poetar decidiu organizar essa reflexão que o leitor tem agora diante das vistas.

Vivemos uma época em que os signos passaram a valer mais do que a experiência que deveriam apenas indicar. Fotografamos antes de olhar. Comentamos antes de compreender. Acumulamos opiniões antes de termos vivências que as sustentem. E, com uma naturalidade que deveria nos preocupar mais do que preocupa, confundimos a representação do mundo com o próprio mundo, como se um mapa, por ser mais fácil de carregar, pudesse substituir o território sem perda alguma.

Aqui nasce uma pergunta simples, mas incômoda: o que se perde quando a vida é vivida em função de sua futura narrativa? A resposta não é única, e os textos que seguem a exploram por ângulos diferentes, a literatura diante da lógica do algoritmo, o excesso de informação que produziu uma escassez de contemplação, a diferença entre conhecer um lugar e apenas vê-lo através de imagens, a memória que vem sendo lentamente substituída pela documentação permanente.

Não se trata, aqui, de condenar a fotografia, as redes ou a tecnologia, ferramentas legítimas, muitas vezes belas, de registro e de encontro. Trata-se de notar que, quando o registro se torna compulsivo, ele deixa de documentar a experiência e passa a substituí-la. Documenta-se tudo, mas vive-se cada vez menos o que se documenta. E é justamente por isso que a literatura, que exige presença, silêncio, lentidão, disponibilidade para experimentar o mundo de outra maneira, recupera hoje uma função que vai além do entretenimento: torna-se prática de resistência silenciosa contra a pressa de tudo transformar em conteúdo.

Também parte de um compromisso editorial que nos é caro: o de pensar essas questões a partir do chão que pisamos. Ailton Krenak nos lembra que a separação entre humanidade e natureza é escolha civilizacional, não destino universal. Davi Kopenawa aponta que existem outras formas legítimas de perceber a realidade, que passam pelo corpo e pela relação direta com o território. Manoel de Barros, poeta do Pantanal, ensinou uma vida inteira que a atenção plena não precisa de motivo espetacular para se justificar, que um pedaço de lata enferrujada pode conter tanto mundo quanto qualquer panorama grandioso, desde que alguém se disponha a parar diante dele.

O Cerrado e o Pantanal que cercam Mato Grosso do Sul raramente cabem inteiros nas imagens que circulam sobre eles. As fronteiras culturais do nosso estado, tantas vezes reduzidas a estereótipo de interior, guardam formas de vida, de trabalho e de linguagem que os grandes centros urbanos brasileiros seguem tratando como periferia simbólica, quando, na verdade, é ali que se sustentam experiências de mundo que a metrópole já perdeu, em boa parte, a capacidade de ter.

Não propomos, nesta edição, uma fuga da tecnologia nem um elogio ingênuo do passado. Propomos apenas um convite simples, quase antigo: olhar antes de fotografar. Ficar em silêncio antes de comentar. Ler até o fim, mesmo quando é difícil, mesmo quando exige um tempo que o algoritmo consideraria desperdiçado. Que este dia dias seja para nós do MS Poetar e para você nosso leitor, um desses intervalos, um convite a voltar a habitar o mundo antes de, apenas, traduzi-lo em linguagem.

A Redação

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