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A Poética Urbana de Campo Grande

  • 5 de jul.
  • 7 min de leitura

De grafiteiros que pintam lendas indígenas a poetas que tomam terminais de ônibus: como Campo Grande constrói sua identidade cultural nas ruas


A dama da viola, Helena Meirelles, se impõe com as pinceladas do artista plástico Marcos Rezende. (Foto: Henrique Kawaminami)
A dama da viola, Helena Meirelles, se impõe com as pinceladas do artista plástico Marcos Rezende. (Foto: Henrique Kawaminami)

Por Vinícius Guarani


Às seis da manhã, quando o sol ainda hesita sobre os ipês amarelos da Avenida Afonso Pena, Campo Grande já está escrevendo. Não com caneta nem teclado, escreve com tinta spray na parede de um armazém no centro, com os passos cadenciados de quem atravessa a Praça Ary Coelho carregando um caderno surrado, com o sussurro de uma letra de rap que brota dos fones de ouvido de um jovem esperando o ônibus no terminal. A Cidade Morena tem uma literatura própria, dispersa nos muros, nas esquinas e nos encontros, e, quem sabe, onde procurar, a encontra em toda parte.

Campo Grande é uma cidade que não se explica por uma herança cultural só. É um caldeirão — e isso não é uma metáfora fácil; é um dado de existência. A tradição paraguaia misturada ao sotaque mineiro, a culinária japonesa dividindo a calçada com o sobá do Centro de Tradições Indígenas, o cerrado e o pantanal disputando espaço na imaginação dos artistas. Como observou o jornalista e poeta Victor Barone, a capital sul-mato-grossense é “um caldeirão que ferveu com ingredientes da tradição paraguaia, sulista, do centro-oeste, mineira, japonesa, libanesa”, e essa fusão cria um caldo cultural com sabor próprio, ainda que nem sempre reconhecido por quem vive dentro dele.


Os Muros Falam

Lendas do Pantanal pintadas em spray

Na Vila Almeida, um mural recém-concluído para o Campão Cultural 2025 mostra um casal indígena rodeado de tuiuiús, aves que simbolizam o Pantanal. O artista Diego Zori, conhecido como Verme, embutiu na obra um QR Code: quem aponta o celular acessa a lenda do Tuiuiú contada em vídeo, unindo grafite, folclore e tecnologia num único gesto. É o tipo de síntese que Campo Grande produz quase sem querer.

A poucos quilômetros, no Aero Rancho, Michael Douglas Gomes dos Santos, o Gaara, pinta letras coloridas com profundidade e sombra, em homenagem à palavra Tekoha, que, em guarani, significa “o lugar onde somos o que somos”. Para Gaara, que chegou ao grafite pelo hip-hop em 2008, cada intervenção de rua é um ato de transformação: “O grafite muda bastante a visão da gente. Deixa tudo mais colorido, mais alegre.”

Willian da Silva Santos, 29 anos, nascido em Campo Grande, assina como Naipe. Desde 2013, percorre a cidade com latinhas de spray e tinta látex, criando personagens cartoon com cores vibrantes, rostos indígenas que convidam à reflexão sobre as origens e fauna representada com ludicidade. Para ele, o grafite pantaneiro não é decoração: é transmitir “a grandiosidade da natureza e nossa dependência dela para existir”.

Na Rua Joaquim Murtinho, saindo da Praça dos Imigrantes em direção a Pedro Celestino, os muros explodem em cores que fazem o pedestre abrir um sorriso involuntário. Na Rua Paraíba, uma iniciativa privada chamou o coletivo do artista Curumex para cobrir a esquina com a General Odorico Quadros. E o resultado é uma profusão de mãos, estilos e vozes visuais que nenhum arquiteto planejou, mas que a rua reconhece como sua.


🗺️ Roteiro de arte urbana em Campo Grande:

  • 🎨 Rua 26 de Agosto — Muro pintado a várias mãos no Campão Cultural. Colorido visível de longe, entre a 13 de Maio e a Rui Barbosa.

  • 🌿 Rua Anhanduí — Muros de vários estilos descendo da Fernando Correa. Perto do SESC Horto e do Monumento aos Imigrantes.

  • 🦜 Rua Joaquim Murtinho — Profusão de cores a partir da Praça dos Imigrantes. Um dos trechos mais generosos da cidade.

  • 🏙️ Av. Mato Grosso – MuAU — Painéis do Museu Aberto Urbano, galeria a céu aberto com grafiteiros locais e convidados.

  • 🌊 Orla Morena — Na Av. América e no Palco São Francisco, muros dialogam com o lazer dos fins de semana.

  • 🦚 Painéis Étnicos — Conceição dos Bugres, Kadiwéu Grávida e Tia Eva: retratos de identidade sul-mato-grossense espalhados pela cidade.


A Palavra que Bate

O Slam é a reinvenção da praça pública

Na Praça Aquidauana, no centro da capital, toda última semana do mês, algo acontece que os transeuntes confundem, à primeira vista, com uma discussão acalorada. Não é. É o Slam, a batalha de poesia falada em que cada poeta enfrenta o público munido apenas da própria voz e do próprio corpo, sem microfone, sem palco, sem iluminação teatral. Só a palavra, amplificada pelo desejo de ser ouvido.

“A rua é o lugar disso tudo. A arte tem que ser feita em qualquer lugar — na calçada, na feira, onde tem gente.” — Luciano Risalde, poeta do Slam Campão

O Slam Campão nasceu em 2017 e fez da Praça Aquidauana seu primeiro endereço. Com o lema “Foco na missão”, o coletivo de homens e mulheres foi além das praças: invadiu terminais de ônibus, feiras literárias, eventos nos bairros. Em uma das incursões pelos terminais, a estudante de Letras Alessandra Coelho ergueu a voz e declamou: “Queria não precisar gritar / Marielle presente nas praças, ruas, terminais. / Queria não precisar gritar / para sermos ouvidos.” Os passageiros que não tinham ido ver foram obrigados a ouvir de longe, e ouvir, às vezes, é o primeiro passo.

Paralelamente ao Campão, nasceu o Slam Manoel de Barros — nome escolhido em homenagem ao “maior” poeta que o Mato Grosso do Sul gerou. A escolha é precisa: Manoel de Barros passou a vida inteira ensinando que a poesia mora no “desimportante”, no ordinário, no que a cidade deixa de lado. Os jovens que hoje declamam na Praça Aquidauana herdam essa visão, encontram poesia no busão, no meio-fio, no catador de lixo que para para ouvir e diz que “alegra e acalma”. Já o Slam Camélias, formado por mulheres, adiciona outra camada: não só fazer poesia, mas também incentivar que mais meninas e mulheres encontrem na palavra o seu instrumento de existência.



A Cidade como Palco

Campão Cultural: quando o asfalto vira tablado


Cada edição do Campão Cultural é uma prova de que Campo Grande sabe o que tem e precisa mostrar. Em 2025, o festival retornou entre 27 de março e 6 de abril com o conceito “Cidade como Palco Vivo”, ocupando criativamente espaços que costumam ser apenas de passagem: bairros periféricos como Moreninhas, Tarsila do Amaral, Vila Almeida e Aero Rancho viraram destino. A Rua 14 de Julho, tradicional corredor cultural no centro, foi declarada o hub cultural que sempre deveria ter sido.

A programação reuniu cerca de 150 atrações, das quais 90% eram artistas sul-mato-grossenses selecionados por edital público, um gesto político importante em uma cena que, historicamente, precisou brigar por reconhecimento. O Campão inclui não só grafite e rap, mas também batalhas de Breaking e Ballroom Kiki Ball, skate, Pantanal Film Festival, cosplay, teatro, circo e contação de histórias nos bairros. A rua como organismo vivo, como disse o festival em seu manifesto: “muros ganham cores, esquinas se tornam palcos”.

O grafiteiro Kleyton Soares, que cresceu no Lar dos Trabalhadores e ganhou o apelido que virou assinatura artística: Amarelo, recorda que em 2002, quando começou, encontrar material e referências em Campo Grande era quase uma aventura de sobrevivência. “Não tinha internet; não tinha como saber se a gente estava fazendo certo”, conta. Hoje, Amarelo mora em São Paulo, mas volta para o Campão Cultura, porque foi aqui que tudo começou, e a “alera se reunia e passava a tarde ou a noite pintando” numa solidariedade de tinta e afeto que o sucesso não apagou.

Alguns artistas do grafite campo-grandense: Amarelo · Naipe · Diego Zori / Verme · Gaara · Curumex · João Ravnos · Tita Vilalba · San Martinez · Hero · Mareco MRCO

Praças e Monumentos

O museu que não tem paredes

A cidade guarda, nos seus espaços abertos, um museu não oficial que poucos catálogos registram. Na Praça Cuiabá, a Cabeça de Boi de Humberto Espíndola, artista plástico campo-grandense de projeção nacional, dialoga com motoristas e pedestres há décadas sem que muitos saibam o nome de quem a criou. No Parque das Nações Indígenas, um dos maiores parques urbanos do mundo, com 119 hectares, o Guerreiro Guaicuru de Anor Pereira Mendes ergue o braço diante de quem passa de bike ou caminha às tardes de domingo. Na Feira Central, o Monumento ao Sobá de Cleir Ávila homenageia o prato que simboliza a presença japonesa na cidade, uma memória comestível que a arte fixou em bronze.

O Bairro Vilas Boas tem sua própria praça-galeria: a Praça do Peixe, assim chamada por seu traçado que lembra o animal, foi revitalizada pelos próprios moradores e tornou-se ponto de convergência de artistas plásticos, artesãos e músicos. No SESC Cultura, os ipês de Isaac de Oliveira, árvore-símbolo do estado, transformam a entrada em uma antecâmara poética para shows e exposições. Lá fora começa a preparação; o museu já começou.

“Campo Grande tem uma identidade cultural estabelecida. Necessita de um ou outro tempero para firmar-se como receita original.” — Victor Barone, jornalista e poeta

O Verso que Persiste

Manoel de Barros nas ruas de hoje

Não é possível falar em poética urbana de Campo Grande sem invocar o nome de Manoel de Barros. Barros morreu em 2014, mas continua circulando pela cidade. Seu nome batiza o Slam; seus versos aparecem em muros; seus livros ainda saem das prateleiras das poucas livrarias que resistem.

A produção literária contemporânea da cidade segue nessa esteira. O poeta Fábio Gondim e o jornalista Victor Barone criaram, durante a pandemia, o projeto Poema na Quarentena, no qual um poeta declamava o poema de outro, em ciclos que semeavam as redes sociais de versos, um formato democrático, sem hierarquia, em que a curadoria era o afeto. A rua havia migrado para as telas, mas o espírito da praça pública permanecia intacto.

Pesquisadores que estudaram as formas de ocupação das ruas de Campo Grande concluíram que os artistas do lambe-lambe, do grafite e do teatro compartilham uma relação com a rua que vai além da apresentação: é uma relação de pertencimento. A rua não é apenas um palco; é um diagnóstico da qualidade de vida urbana. E, em Campo Grande, a rua tem veredicto generoso: a cidade, quando escuta, sabe que seus artistas a amam.

Campo Grande acorda toda manhã escrevendo em tinta, em voz alta, de pé no chão. O ipê amarelo. O muro sangra cor. A praça recebe quem não tem salão. A cidade é o poema que não acabo; cada mão que pinta é mais uma estrofe. Cada voz que grita na Aquidauana é uma rima que a rua nunca devolve.

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