top of page

O papel dos jornais antigos na história do teatro em MS

19 de jul.
6 min de leitura

Os arquivos oficiais decidiram que o teatro do Centro-Oeste era um intervalo entre a colônia e o silêncio. Foram os jornais de província, ao noticiar espetáculos como qualquer outro fato do dia, que discordaram.


Gazeta Cuyabana [Periódico]
Ano: 1847-1848
Gazeta Cuyabana [Periódico] Ano: 1847-1848

Há um problema anterior a qualquer levantamento de datas ou nomes de companhias: a historiografia teatral brasileira, quando trata do Centro-Oeste, trata de um vazio. Não por acaso, por operação. O pesquisador Fabricio Goulart Moser, que desde 2007 investiga o teatro no antigo Mato Grosso (o território que reunia Mato Grosso e Mato Grosso do Sul antes da divisão de 1979) e hoje conduz um doutorado sobre o tema na USP, mostrou em sua dissertação de mestrado (UNIRIO, 2011) que os registros teatrais da região aparecem na bibliografia nacional quase só para ilustrar o período colonial, o hiato entre os séculos XVI e XVIII, e depois desaparecem. Quando reaparecem, é sob o signo do atraso: enquadrados como "teatro popular" ou "teatro regional", categorias que funcionam menos como descrição do que como despacho um, modo de tirar de cena o que não cabe no relato nacional.

Esse relato nacional tem endereço. Moser recorre à tese de Tania Brandão, historiadora do teatro brasileiro, para quem a historiografia se organiza a partir de um "sistema teatral brasileiro" cujo poder cultural nasceu no Rio de Janeiro com a inauguração do Teatro São João em 1813 e migrou para São Paulo a partir do fim dos anos 1940. Nesse desenho, o resto do país, e nele o antigo Mato Grosso ,permanece durante dois séculos em ritmo amador, subordinado ao eixo Rio–São Paulo, sem lugar de fala sobre o teatro nacional. É essa geografia hegemônica, e não a ausência real de atividade cênica na fronteira Oeste, que produz o silêncio nos livros de referência.

O jornal como contra-arquivo

Diante da ausência de arquivos institucionais, companhias amadoras raramente deixaram estatutos, atas ou acervos fotográficos organizados, o periódico impresso se tornou, por necessidade metodológica, a fonte primária mais confiável para reconstituir essa história. Não é acaso que praticamente toda pesquisa recente sobre teatro no antigo Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul recorra a hemerotecas digitalizadas como método declarado, e não como ilustração.

Um exemplo concreto: é a partir da edição de 22 de setembro de 1864 do jornal A Imprensa de Cuyabá que se sabe que, antes mesmo da Guerra do Paraguai, companhias equestres, ginásticas, circenses e dramáticas, nacionais e estrangeiras, circulavam com regularidade pela capital da então província, e que a Sociedade Dramática Cuiabana 7 de Setembro se apresentava no que a própria imprensa da época chamava de "estylo da escola moderna". É também por meio de notas de jornal que se pode datar a construção do Teatro de Cuyabá, iniciada em 1827 e concluída só nas décadas seguintes, inaugurado sob a Companhia Emprezaria com o drama português Dous Renegados. Sem esse tipo de registro, esses eventos simplesmente não existiriam para a pesquisa, não há outro suporte documental que os preserve.

O mesmo padrão se repete na virada do século XX: pesquisa baseada em jornais digitalizados na hemeroteca da Biblioteca Nacional mapeou o funcionamento do teatro no antigo Mato Grosso entre 1877 e 1928, período em que a sociedade "Amor à Arte" ocupou o Teatro São João de Cuiabá, depois rebatizado Teatro Minerva, e em que o jornal O Pharol registrou, em 1917, sua indignação com o arrendamento do Minerva para funcionar como cinema, deixando a cidade, nas palavras da própria imprensa da época, condenada a barracões escuros e desabrigados. O estudo é explícito quanto ao método: a ausência de espaços físicos permanentes e a curta duração das agremiações teatrais só puderam ser reconstituídas porque a imprensa, ao noticiar espetáculos como entretenimento urbano, involuntariamente arquivou o que as próprias instituições teatrais não tiveram condição de preservar.

Um contra-arquivo que também tem ideologia

Tratar o jornal como fonte não é o mesmo que tratá-lo como registro neutro, e é aqui que a reflexão precisa ir além do gesto de "resgate". Pesquisa produzida no âmbito da pós-graduação da UFMS sobre o Correio do Estado, jornal campo-grandense fundado em 1954, analisou a cobertura do periódico durante o golpe civil-militar de 1964 a partir da hermenêutica de profundidade proposta por John Thompson, concluindo que a imprensa do interior se posicionou ideologicamente e ajudou a construir consenso em torno da intervenção militar. O dado importa para quem pesquisa teatro porque o mesmo jornal que noticiava estreias e circuitos de espetáculos amadores operava, simultaneamente, como agente político, selecionando o que merecia nota, que companhias mereciam elogio, que práticas cênicas eram dignas de cobertura cultural e quais ficavam de fora. Usar o jornal como fonte histórica do teatro, portanto, exige tratá-lo também como objeto de crítica: perguntar não só o que ele registrou, mas o que optou por não registrar, e a partir de que lugar falava.

Mato Grosso do Sul depois de 1979: registros dispersos, historiografia ainda por fazer

Com a divisão do Estado, o problema documental não desaparece, muda de escala. Relatos reunidos sobre a cena amadora sul-mato-grossense (boa parte deles publicados originalmente como depoimentos avulsos, não como pesquisa sistematizada) permitem recompor um mapa fragmentado: em Três Lagoas, Nestor Guimarães encenava musicais já nos anos 1930, sucedido nos anos 1960 por um grupo dirigido pelo jornalista Vicente Leão, outro caso, como em Cuiabá no século XIX, de imprensa e teatro caminhando pela mesma pessoa. Em Campo Grande, o fomento a festivais amadores sustentou o Gutac e o Gutic; em Aquidauana, o Grupo Bataclã reuniu 18 profissionais liberais entre 1976 e 1981. A Federação Sul-mato-grossense de Teatro, criada em 1979, foi a primeira tentativa de dar organicidade institucional a esse conjunto disperso de iniciativas, e é sintomático que a maior parte do que se sabe sobre ela também dependa de menções incidentais em jornais e depoimentos posteriores, não de documentação de arquivo.

Essa fragilidade documental tem consequência direta sobre como a própria classe teatral do Estado se pensa. Em texto de 2015 sobre a Mostra Boca de Cena, a crítica e pesquisadora Luciana Eastwood Romagnolli observou que a produção sul-mato-grossense circula muito pouco fora do Estado, não integra circuitos nacionais e carece de uma "zona de troca" mais intensa com a cena teatral do restante do país. Romagnolli também identificou, entre os grupos observados, uma recorrência de resgates do passado tratados com reverência e sem apropriação crítica a partir do presente, o que ela chama de risco de "museificação" da história teatral, uma repetição do ontem sem comentário ou posicionamento a partir do agora. Não é difícil relacionar essa observação à ausência de historiografia consolidada: quando um Estado não dispõe de um relato crítico e sistematizado sobre sua própria trajetória cênica, a tendência é que o passado apareça na cena contemporânea como citação solta, não como debate.

O que fica para quem pesquisa e para quem faz teatro

A pergunta que interessa a pesquisadores e artistas não é apenas "o que os jornais antigos revelam sobre o teatro em MS", mas por que ainda hoje, quase cinquenta anos depois da criação do Estado, a reconstituição dessa história depende quase inteiramente de fontes produzidas para outro fim, a notícia diária, não o registro artístico. Moser chega a testar, em sua pesquisa, se a chave de leitura antropológica usada para valorizar o "acento local" em historiografias regionais da Bahia e do Nordeste, a busca por raízes profundas de identidade cultural, se aplicaria ao antigo Mato Grosso. Sua conclusão é que não: os dados disponíveis sobre o teatro na região relacionam-se muito mais aos mesmos fenômenos de modernização e circulação internacional de companhias que ocorriam simultaneamente no Rio de Janeiro e em São Paulo do que a uma tradição popular autóctone. Ou seja: não se trata de uma cena "regional" isolada esperando ser descoberta em sua singularidade folclórica, mas de uma cena que sempre esteve conectada aos circuitos teatrais nacionais e internacionais, e que a historiografia hegemônica simplesmente optou por não narrar.

Isso reposiciona o problema. Preservar e digitalizar hemerotecas, financiar pesquisa em programas de pós-graduação da UFMS e da UFGD, e sustentar publicações de crítica teatral especializada, como o Horizonte da Cena, que documentou a Boca de Cena em 2015, não são gestos de conservação de memória num sentido passivo. São a única forma disponível de disputar, com dados, um lugar na historiografia nacional do teatro que, até aqui, tratou o Centro-Oeste como nota de rodapé. O jornal antigo não é curiosidade de arquivo: é, para o teatro sul-mato-grossense, a evidência de que ele sempre existiu, e a prova de que sua ausência dos livros é uma escolha editorial de outros, não um vazio real.

Referências citadas: MOSER, Fabricio G. Aspectos do teatro no Oeste do Brasil: Notas para a história do teatro sul-mato-grossense. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – UNIRIO, 2011; MOSER, Fabricio G. "O lugar do antigo Mato Grosso na história do teatro no Brasil nos séculos XIX e XX". Anais ABRACE, v. 21, 2021; BRANDÃO, Tania. "Ora direis ouvir estrelas: historiografia e história do teatro brasileiro". Latin American Theatre Review, 2002; GUINSBURG, J.; PATRIOTA, Rosangela. Teatro Brasileiro: Ideias de uma História. São Paulo: Perspectiva, 2012; ROMAGNOLLI, Luciana Eastwood. "Primeira visada ao teatro sul-mato-grossense". Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, 2015; dissertação de pós-graduação da UFMS sobre o Correio do Estado e a cobertura do golpe de 1964; A Imprensa de Cuyabá (22/09/1864); O Pharol (Cuiabá, 1908–1917); pesquisa sobre o teatro em Mato Grosso (1877–1928) com base em hemeroteca digital.

1 comentário


Zóia Münchow
Zóia Münchow
30 de jul.

Deixo aqui meus agradecimentos. O texto toca num ponto importante, a história do teatro e a necessidade de repensá-la e não reduzi-la à historiografia dos jornais.

Curtir
bottom of page