Curar-se de Deus: Neurose, Medo e Temor
- Vinícius Guarani

- há 5 dias
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Do desamparo teológico ao pânico administrado: sobre o pai que se promete no céu, a economia que herdou seu lugar e a receita nahua que tentou curar o medo sem esperar por nenhum dos dois

I.
Em 1907, num consultório de Viena, um médico observou que seus pacientes obsessivos repetiam gestos minúsculos (contar, verificar, lavar, recomeçar) como quem paga um pedágio a um credor invisível. No mesmo texto em que descreve esse ritual privado, Sigmund Freud arrisca a frase que se tornaria uma das mais provocadoras da história das ideias sobre religião: seria possível, escreve ele em "Atos Obsessivos e Práticas Religiosas", tratar a neurose obsessiva como uma religiosidade individual, e a religião como uma neurose obsessiva universal. Quatro séculos antes, num colégio franciscano erguido sobre as ruínas de Tlatelolco, dois homens nahuas, um médico chamado Martín de la Cruz e um tradutor chamado Juan Badiano, fecharam um manuscrito com uma receita para quem tem medo. Não há registro de que um soubesse do outro. Não precisava haver. Os dois lidavam com o mesmo problema: o que fazer com um corpo que treme diante do que não controla.
Este ensaio parte dessas duas cenas para seguir um fio mais longo do que parece à primeira vista: da ansiedade teológica à ansiedade econômica, e desta ao pânico moral que hoje se organiza, com eficiência preocupante, em torno de corpos trans, populações negras e migrantes. A tentação óbvia, em cada uma dessas paradas, é transformar a análise em veredicto: o Ocidente neurótico contra o saber indígena são; a fé como ilusão contra a ciência como verdade; o mercado como novo deus contra a religião como resíduo do passado. As três versões dessa simplificação são baratas. A pergunta mais difícil, e mais honesta, é outra: por que toda formação social parece precisar de um objeto contra o qual dirigir o medo, e o que muda, e o que não muda, quando esse objeto troca de nome ao longo da história.
II.
A tese freudiana sobre a religião não nasce pronta em 1907; acumula-se em movimentos que vale separar, porque o slogan que sobrou dela costuma achatá-los. Em "Atos Obsessivos e Práticas Religiosas", o argumento é estrutural: o cerimonial obsessivo e o rito religioso compartilham a mesma gramática, feita de repetição minuciosa, culpa que a justifica, ansiedade desproporcional ao risco real e crença em que o gesto correto neutraliza um perigo que, racionalmente, nada tem a ver com ele. Em "Totem e Tabu" (1913), Freud tenta uma origem histórica: um parricídio ancestral cuja culpa recalcada teria fundado, ao mesmo tempo, o totem, o tabu do incesto e o embrião de toda religião futura, reconstrução que a antropologia profissional, quase unanimemente desde então, rejeita como acontecimento histórico verificável, e que sobrevive apenas como mito filosófico sobre a origem da obrigação moral, não como etnografia. É só em "O Futuro de uma Ilusão" (1927) que a peça central aparece: o desamparo (Hilflosigkeit) da criança pequena diante de um mundo que não domina é, para Freud, o protótipo de todo desamparo adulto diante do acaso e da morte, e a religião responderia a essa continuidade projetando sobre o universo um "pai glorificado", a mesma figura ambivalente do pai real, agora depurada de hostilidade e investida de onipotência. Chamar isso de ilusão não é chamá-lo de mentira: para Freud, ilusão é a crença motivada pelo desejo, verdadeira ou falsa; o que a torna suspeita não é a evidência contra ela, mas a evidência a favor de que gostaríamos muito que fosse verdade.
Há um problema nessa arquitetura que não é teológico, é metodológico. O material clínico de Freud é vienense, judaico-cristão, patriarcal e monoteísta; a família de pai ambivalente e filho culpado de que ele extrai o modelo é uma estrutura histórica específica, não uma constante da espécie. Quando ele generaliza essa arquitetura para "a religião" como categoria universal, comete o mesmo deslize que qualquer comparatista hoje trataria com desconfiança: aplicar, sem mediação, um modelo desenhado para um contexto a cosmologias construídas sobre pressupostos inteiramente distintos. É por isso que este ensaio, mais adiante, vai testar a tese contra um caso que não passou pelo Édipo vienense: a medicina nahua registrada no Códice De la Cruz-Badiano. Mas antes é preciso resolver uma confusão terminológica que o próprio título deste texto carrega, e que nenhum freudiano costuma separar.
III.
O medo e o temor não são sinônimos, e a diferença importa mais do que parece. Foi Kierkegaard, em "O Conceito de Angústia" (1844), mais de sessenta anos antes de Freud, quem primeiro formalizou a distinção que este ensaio precisa: o medo é sempre medo de algo determinado (uma cobra, uma dívida, a condenação concebida como pena específica), e por ser determinado é administrável, pode-se fugir dele, negociar com ele, tratá-lo com um remédio ou uma prece dirigida. A angústia é outra coisa: o que Kierkegaard chama de "vertigem da liberdade", o estado diante do nada, sem objeto que se possa neutralizar, porque a ameaça não vem de fora, é a própria condição de existir como sujeito livre e sem garantias. Heidegger retoma a distinção em "Ser e Tempo" (1927, por coincidência o mesmo ano de "O Futuro de uma Ilusão") em termos ainda mais nítidos: o medo tem sempre um objeto dentro do mundo; a angústia não tem objeto nenhum, angustia-se diante do próprio "ser-no-mundo" como tal, e por isso, longe de ser um estado a evitar, é o único momento em que o véu das ocupações cotidianas se rasga e alguém se confronta, sem disfarce, com a própria finitude.
Essa distinção é a chave que este ensaio propõe para ler tudo o que vem a seguir: o que os dispositivos históricos sucessivos (a religião, a disciplina econômica, o pânico moral contemporâneo) parecem fazer, em cada registro, é converter angústia em medo. Uma população que teme a condenação de um Deus específico, ou o fracasso num mercado específico, ou uma minoria específica apresentada como ameaça concreta, está numa posição psiquicamente mais suportável do que uma população deixada a sós com a angústia sem nome diante da própria contingência da existência, porque o medo, ao contrário da angústia, tem um objeto contra o qual se pode agir, orar, trabalhar ou votar. A própria língua portuguesa preserva um resíduo dessa diferença: o "temor a Deus" da tradição cristã, que a escolástica medieval já distinguia do medo servil do castigo (timor servilis) chamando-o de temor filial (timor filialis), o receio de desapontar quem se ama e não de sofrer uma pena, é mais próximo da angústia reverencial diante do que excede toda administração possível do que do medo administrável de que Freud, quase exclusivamente, trata.
IV.
Max Weber oferece a este ensaio a ponte histórica mais bem documentada entre a religião e o que vem depois dela: não metáfora, mecanismo datável. A doutrina calvinista da predestinação sustentava que Deus já havia decidido, antes da criação do mundo, quem seria salvo e quem seria condenado, sem que nenhum ato humano pudesse alterar essa sentença. Em vez de fatalismo, a doutrina produziu, segundo "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" (1904-1905), uma ansiedade sem precedentes: já que a salvação não podia ser alcançada por atos, talvez pudesse ao menos ser indiciada por eles. Uma vida disciplinada, sóbria, dedicada ao trabalho constante, e sobretudo o sucesso material honestamente obtido, passaram a ser lidos não como causa da graça, mas como sinal probabilístico dela: nasce assim o ascetismo intramundano, a disciplina do convento migrada para dentro da vida econômica ordinária.
A parte da tese de Weber que mais interessa aqui é a segunda: uma vez consolidada como hábito social e estrutura institucional (bancos, contabilidade racional, rotina de trabalho), essa disciplina deixa de depender da crença que a originou. As gerações seguintes continuam ansiosas com desempenho e produtividade, mas já não sabem, e em grande parte não se importam, que essa ansiedade tem genealogia calvinista. O crente desaparece; a disciplina fica, sob a forma do que Weber chamou de stahlhartes Gehäuse, a "gaiola de aço": uma estrutura racional-econômica que continua a organizar a vida cotidiana com a força de uma obrigação quase religiosa, mas sem nenhum sentido transcendente que a justifique. É esse deslocamento, do medo da condenação eterna para o medo do fracasso econômico, mantendo intacta a estrutura formal da ansiedade, que permite dizer, com precisão histórica e não apenas com efeito retórico, que o medo de Deus se tornou o medo da economia.
Michel Foucault dá a esse argumento um segundo andar. Ele descreve o "poder pastoral" cristão, o pastor que conhece cada ovelha individualmente e que extrai pela confissão a verdade interior de cada fiel para melhor conduzi-lo, como tecnologia de poder singular, separada do poder político até o século XVIII. A tese central, para os fins deste ensaio, é que essa tecnologia não desaparece com a secularização: transfere-se. O Estado moderno assume, na "governamentalidade", uma função estruturalmente pastoral (gerir a vida da população com o mesmo cuidado individualizante que antes cabia ao clero, agora em nome da eficiência, não da salvação), e quando essa governamentalidade se torna neoliberal, o mercado ocupa o lugar da Igreja: um espaço onde o indivíduo se submete voluntariamente, acreditando exercer ali sua liberdade máxima, a uma disciplina externa (competitividade, desempenho, crédito, reputação) que molda seus desejos tão profundamente quanto qualquer confessionário. A confissão do pecado vira transparência do currículo e do histórico de crédito; a direção espiritual vira coach e aplicativo de produtividade. Byung-Chul Han atualiza esse diagnóstico para o presente: a sociedade disciplinar de fábrica e escola, que dizia "você deve", cede lugar à sociedade do desempenho, que diz "você pode", e quando a obrigação deixa de vir de fora e se torna potencial ilimitado do próprio eu, o fracasso deixa de ser atribuível a um sistema e vira fracasso pessoal, sem ninguém, fora do próprio sujeito, a quem se opor. Zygmunt Bauman fecha essa linhagem com uma observação complementar: o medo contemporâneo tende a ficar "líquido", desancorado de um objeto fixo, disponível para migrar para qualquer ameaça que apareça no horizonte, sem que sua intensidade dependa da probabilidade real do perigo. É essa mobilidade, a capacidade do medo de trocar de endereço sem perder força, que conduz este ensaio à sua parte mais delicada.
V.
É preciso fixar, antes de qualquer coisa, o que esta parte não afirma: não afirma que pessoas trans, negras, feministas, migrantes ou LGBTQIA+ sejam, elas próprias, objeto de neurose ou produto de manipulação. São sujeitos de direitos cujas lutas por reconhecimento respondem a desigualdades reais, mensuráveis, documentadas, e não a fantasia de terceiros. O que se examina aqui é outra coisa, mais estreita: o mecanismo pelo qual certos atores políticos transformam essas pautas em objeto de pânico fabricado, e a que interesses esse pânico serve.
O sociólogo Stanley Cohen descreveu, em "Folk Devils and Moral Panics" (1972), a anatomia geral de qualquer pânico moral: um grupo passa a ser definido, por empreendedores morais e pela mídia, como ameaça aos valores fundamentais de uma sociedade, de forma estilizada e desproporcional ao risco real que representa. É esse aparato que Judith Butler mobiliza, de forma direta e atual, em "Who's Afraid of Gender?" (2024), para descrever o que chama de "ideologia de gênero": não um fenômeno real a explicar, mas um significante fantasmático fabricado por setores da direita e da extrema direita para reunir, sob um único rótulo hostil, fenômenos na verdade heterogêneos: direitos de pessoas trans, educação sexual, autonomia reprodutiva, movimentos feministas e LGBTQIA+. O amálgama funciona, no argumento de Butler, precisamente por ser impreciso: sua vagueza permite absorver qualquer ansiedade social difusa (sobre a família, a nação, a perda de certezas tradicionais sob o neoliberalismo) e redirecioná-la contra um alvo identificável e politicamente vulnerável. Uma vez no poder, escreve Butler, esses mesmos atores convertem o fantasma em política de Estado concreta: cortes de financiamento a políticas antidiscriminatórias, revogação de proteções legais, criminalização de currículos e de tratamentos de saúde, de modo que a construção retórica produz efeitos muito reais sobre pessoas muito reais.
Wendy Brown explica por que esse tipo de pânico ganhou força justamente agora, e não antes: décadas de racionalidade neoliberal corroeram os laços de solidariedade social e as certezas identitárias tradicionais sem oferecer, em troca, nenhum sentido coletivo substituto, produzindo um ressentimento difuso que não encontra, na própria linguagem econômica que o gerou, vocabulário para se expressar, e que se torna, por isso, disponível para discursos que oferecem um culpado concreto e humano em vez de uma causa estrutural abstrata. É a mesma lógica formal do ascetismo weberiano buscando sinais de salvação num objeto que não pode realmente aliviá-lo, só que agora o objeto da busca não é mais o próprio trabalho disciplinado: é a humilhação pública de um grupo minoritário.
Este ensaio chegaria a uma conclusão falsa e eticamente inaceitável se deslizasse, neste ponto, de "o pânico em torno do gênero e da raça é fabricado" para "as próprias pautas de gênero e raça são a neurose". As duas afirmações não têm relação lógica necessária. Tratar a demanda por igualdade como disfunção psíquica equivalente à neurose obsessiva religiosa repetiria, com sinal trocado, o mesmo erro categorial que a Parte II deste ensaio apontou em Freud quando ele universalizou, sem mediação, um modelo específico, e repetiria, além disso, um gesto historicamente concreto: os movimentos de direitos civis já foram patologizados dessa forma antes (a homossexualidade como doença mental nos manuais diagnósticos até 1973 é o exemplo mais conhecido), e reabilitar essa operação sob linguagem teórica nova seria retrocesso, não crítica. O que sobra, feita essa separação, é uma tese mais estreita: existe um mecanismo de administração do medo, estruturalmente contínuo da ansiedade calvinista ao pânico moral contemporâneo, que muda de conteúdo e de alvo ao longo do tempo, e que encontrou, em sua fase mais recente, nas pautas de gênero e raça um objeto de deslocamento especialmente eficaz não porque essas pautas sejam ansiogênicas em si, mas porque a vulnerabilidade política de quem as sustenta as torna alvo de baixo custo e alto rendimento simbólico para quem precisa nomear um inimigo. A neurose, se a palavra ainda serve aqui, está no mecanismo de deslocamento e na angústia econômica não elaborada que o alimenta; nunca nas pessoas que esse mecanismo escolhe como alvo.
VI.
É contra esse pano de fundo inteiramente europeu que vale colocar, lado a lado, um objeto histórico concreto, anterior a Freud em mais de três séculos e meio: o Códice De la Cruz-Badiano, o mais antigo tratado de medicina composto no continente americano. Nasceu em 1552 no Colégio de Santa Cruz de Tlatelolco, instituição franciscana criada para formar, em latim e doutrina cristã, uma elite nahua letrada que servisse de ponte entre a Coroa espanhola, a Igreja e a população indígena recém-subjugada, um projeto de conversão, não de preservação de saber indígena. E foi, ainda assim, dentro dessa máquina de conversão que Martín de la Cruz, médico nahua (a tradição nomeia esse ofício com a palavra ticitl), compôs em náuatle um herbário organizado da cabeça aos pés, descrevendo plantas, dosagens e finalidades terapêuticas de um sistema médico mesoamericano que a conquista, em outras regiões, estava simultaneamente incendiando. Juan Badiano, nahua de Xochimilco e aluno do próprio colégio, verteu o texto ao latim em 1552, sob encomenda do frei Jacobo de Grado, destinada a Francisco de Mendoza (filho do vice-rei) com propósito diplomático explícito: presentear o imperador Carlos V. O título latino que recebeu, Libellus de Medicinalibus Indorum Herbis, já registra a operação colonial completa: o saber nahua só se torna legível e valioso para a Coroa quando traduzido, batizado em latim e embrulhado como presente.
A trajetória posterior do manuscrito é uma pequena história da circulação colonial do conhecimento. Da Nova Espanha à Espanha; dali a Diego de Cortavila y Sanabria, boticário de Felipe IV; deste à biblioteca do cardeal Francesco Barberini; e, quando a coleção Barberini foi incorporada à Biblioteca Vaticana em 1902, à condição de Codex Barberini Latino 241, catalogado, esquecido, redescoberto em 1929 pelo pesquisador Charles Upson Clark. Levaria ainda mais sessenta anos para que o documento deixasse Roma. A devolução, em maio de 1990, pelo papa João Paulo II, não foi gesto isolado de boa vontade: inseriu-se no movimento internacional de restituição de bens culturais que ganhou corpo jurídico no pós-guerra e na era da descolonização, com a Convenção da UNESCO de 1970 e o Comitê Intergovernamental para a Promoção do Retorno de Bens Culturais, ativo desde meados dos anos 1970, mecanismo cuja própria composição regional, é bom registrar, reproduziu parte do desequilíbrio de poder que pretendia corrigir. Foi nesse ambiente que o historiador e nahuatlato mexicano Miguel León-Portilla atuou junto ao Vaticano para viabilizar o retorno específico do Libellus, que depois de 438 anos fora de seu território passou a ser custodiado pela Biblioteca Nacional de Antropologia e História, na Cidade do México, onde, em 2022, um novo acordo entre a UNAM e o Vaticano reabriu, sem concluir, a conversa sobre o que ainda falta devolver.
VII.
É no encerramento do Libellus, não em ponto intermediário qualquer, que está a receita mais relevante para este ensaio. O herbário segue capítulos dedicados às afecções da cabeça, dos olhos, dos ouvidos, dos dentes, do peito, do estômago, dos joelhos e dos pés, e termina com remédios "contra o medo e a pequenez de ânimo". A posição não é acidente de composição: um sistema médico que fecha o mapa do corpo humano justamente no medo está dizendo, na própria arquitetura do texto, que trata o medo como parte contígua do corpo: uma aflição do mesmo plano que a dor de cabeça, não uma categoria à parte que exigiria salvação. O fólio 53r descreve o tratamento para "o medroso": uma poção com a erva tonatiuh ixiuh ("erva do sol", nome que já inscreve no remédio a presença de Tonatiuh, divindade solar) dissolvida em água com flores de cacaloxochitl, cacahuaxochitl e tzacouhxochitl, e um emplasto tópico de sangue de raposa e excremento de ave. Uma dessas plantas, identificada hoje como Plumeria rubra, segue em uso na medicina tradicional mexicana contra o que se chama popularmente de "susto": continuidade de quase cinco séculos que não prova eficácia clínica segundo critérios contemporâneos, mas prova que não se trata de crendice isolada, e sim de sistema terapêutico transmitido e mantido vivo por gerações de praticantes.
Podemos ler essa receita, sem forçar a analogia, como uma tecnologia indígena de cura do desamparo, não menos sistemática, em sua lógica de diagnóstico e dosagem, do que a arquitetura psíquica que Freud descreveria quatro séculos depois. Mas a comparação exige a mesma correção que a Parte II deste ensaio já preparou: não seria justo chamar essa medicina de "puramente empírica" e secular contra uma religião cristã "puramente irracional". O nome da erva central (erva do sol) inscreve o remédio numa cosmologia em que o astro é sagrado; o sagrado não está ausente do sistema nahua, está presente de outra forma. O que de fato distingue os dois sistemas não é a presença ou ausência do sagrado, mas a estrutura da mediação: no modelo europeu que Freud descreve, o desamparo se resolve por submissão de fé a um pai único, onipotente e distante, cuja intervenção ninguém pode verificar; no sistema nahua, o medo se resolve por intervenção direta, material e reprodutível de um especialista treinado sobre um corpo específico, usando substância e técnica transmissíveis a outros praticantes. Duas gramáticas de relação entre o humano e o sagrado diante do mesmo problema: não uma racional contra uma ilusória, mas duas arquiteturas distintas de mediação entre corpo, cosmos e cura.
VIII.
Isso não deveria funcionar como absolvição de nenhum lado. Se levarmos Freud a sério (e o convite deste ensaio é justamente não descartá-lo pela porta dos fundos assim que se torna inconveniente), a receita contra o medo também é ritual: gesto prescrito, repetido, investido de eficácia simbólica que excede qualquer justificativa puramente farmacológica reconstituível hoje. Sangue de raposa e excremento de ave aplicados sobre a pele não operam apenas como química; operam como economia simbólica de substâncias carregadas de sentido, tal como o gesto obsessivo do paciente vienense opera menos pela lógica da higiene do que pela lógica do sacrifício em miniatura. A honestidade intelectual exige abandonar a operação que transformaria este ensaio em versão invertida do mesmo esquema colonial que descreve: substituir "o Ocidente cristão é neurótico, o saber indígena é racional" por "o saber indígena é neurótico, a ciência ocidental é racional" seria apenas trocar o lado que se romantiza.
O que os casos revisados aqui parecem indicar, lidos em conjunto, é mais incômodo do que qualquer veredicto: toda cultura documentada produziu alguma tecnologia (ritual, farmacológica, econômica, discursiva) para converter a angústia sem nome diante da contingência em medo administrável, com objeto, com gesto de resposta, com promessa de alívio. Nenhuma dessas tecnologias escapa inteiramente à lógica que Freud chamou de obsessiva (repetição, símbolo, proteção desproporcional ao gesto que a invoca), e a diferença entre uma prece, uma poção e um pânico moral fabricado por interesse eleitoral pode ser menor, formalmente, do que a diferença entre quem tem poder para escrever sua cura em latim e guardá-la numa biblioteca com nome de cardeal, e quem precisa esperar 438 anos, ou ainda espera, para que a sua volte para casa, ou para que a sua deixe, sequer, de ser tratada como ameaça.
Fica, ao final, uma imagem mais útil que qualquer conclusão fechada: por quase noventa anos, entre 1902 e 1990, a receita nahua contra o medo esteve arquivada dentro da mesma instituição que, na leitura freudiana, seria a matriz histórica mais influente do dispositivo psíquico de proteção paterna projetada sobre o universo: a Igreja, em sua sede romana. Duas respostas radicalmente distintas ao desamparo humano dividiram, sem que ninguém as tenha lido lado a lado, a mesma prateleira, no mesmo edifício. O título deste ensaio funciona melhor sem se resolver: "curar-se de Deus" pode ser a cura que essa Deus oferece (a proteção que Freud diagnostica como ilusão necessária), ou pode ser a cura de Deus, o tratamento de que a própria crença, como sintoma social, ainda precisaria; e no intervalo entre as duas leituras cabe também o mercado que herdou o lugar de Deus, e o pânico que hoje herda o lugar do mercado, cada um prometendo administrar um medo que, na origem, nunca teve nome nem rosto.



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