Enquanto as cigarras cantam: notas sobre controle, solidão e arte
- há 7 dias
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Por Zóia Münchow*

1. Adão e a vida controlada
A dramaturgia da peça Enquanto as cigarras cantam, assinada por Beto Mônaco, é bem conduzida numa viagem que vai do nada ao lugar nenhum, da distopia à utopia que pode ser forjada em seu interior. Produzida pelo NUTIS, com a colaboração de Guilherme Godoy, a peça estreou no Casulo em 27 de março de 2026. Essa constatação de que a peça vai em direção ao lugar nenhum é um elogio: tudo aquilo que é colocado em cena fala do vazio da nossa condição existencial no tempo presente. A peça trata da solidão, do vazio e da falta de sentido na vida gestionada pelo capitalismo. Trata-se de alguém que viaja por vários lugares diferentes, mas parece que sempre encontra o mesmo. Adão, personagem principal, belamente interpretado por Beto Mônaco, viaja pelo universo sem contato imediato com humanos e sem sair dos limites terráqueos e antropomórficos de seu próprio modo de percepção.
Adão não deseja reproduzir uma vida marcada pela repetição de tarefas: cuidar dos peixes, das formigas e do corvo; dormir, comer, urinar e defecar. Tudo é controlado em seu comportamento; tudo passa pelo controle maquínico. O foguete espacial de Adão é o estúdio-apartamento de 23 m² dos grandes centros urbanos. Geridos, controlados e reduzidos a áreas pequenas e altamente vigiadas, nós, como Adão, viajamos sem sair de casa: ele, em seu foguete; nós, por meio de nossas tecnologias domésticas, ambos atravessados pelas tecnologias de controle.
2. Figuras da condição de Adão: Hefner, Sweet Home, Carlitos, O Pequeno Príncipe e Godot
Adão é o trabalhador horizontal de que nos fala Paul B. Preciado em Pornotopia. Trata-se de um modo de vida reduzido ao espaço privado da cama, hiperconectado e suplementado, obedecendo e emitindo comandos, horizontalmente situado em seu leito. Em suas análises sobre a Playboy, Paul B. Preciado comparou Hefner trabalhando em sua cama, na Mansão Playboy, em Chicago, em 1976, à obra inflável Sweet Home, de David Greene, apresentada em 1968. Trata-se de um traje inflado e habitado como uma casa. As afirmações de Preciado a respeito da cama giratória de Hefner e do inflável Sweet Home podem ser dirigidas ao foguete de Adão. Todos eles falam da condição de existir na arquitetura da sociedade contemporânea e das condições de exploração; ou melhor, servem para pensarmos a nossa própria situação. As cozinhas estão desaparecendo nas novas construções imobiliárias; os espaços em que vivemos estão cada vez menores e mais conectados; a rua, cada vez mais, transforma-se em um lugar de risco, perigo, poluição e violência: uma fatalidade que ainda necessitamos enfrentar, mas que, com sorte, logo superaremos. Não há mais espaço público.
Adão e Hefner: Adão está submetido àquela situação enquanto membro da classe trabalhadora. Seu campo de ação não existe: ele não age, opera; ele está reduzido a obedecer a comandos. O controle de sua existência atinge até mesmo sua fisiologia. Como bem observou Foucault, onde há poder, há resistência. Adão resiste aos comandos à medida que usa as pílulas destinadas a produzir sua calma para acalmar o corvo cujo barulho o irrita. Há, portanto, uma dimensão incontrolável; é ela que cresce ao longo da peça. Ele vai se construindo com pequenas desobediências, conscientes e inconscientes. É o isso!
A peça pode ser vista por pessoas de todas as idades, pois Adão se encontra infantilizado, reduzido em sua autonomia e em seu sexo, sem nada daquilo que costuma entrar na categoria “coisas de adulto”. E aqui está o ponto: a peça é bela como um sonho; a iluminação e o cenário fazem Adão parecer uma criança. O fato de a base do material ser o papelão, por si só, nos coloca num ambiente lúdico; entramos num foguete espacial metalizado. Quando entendemos que estamos diante da questão da condição humana, o cenário, sem se modificar, assume outro sentido, e compreendemos o peso de toda aquela ludicidade, o horror de tudo aquilo. Enquanto as cigarras cantam tem esse duplo sentido, que talvez escape aos olhos de muitos que verão somente a beleza da coisa bem-feita. Quem parar para pensar perceberá o real trabalho da peça nos pontos difíceis que ela toca.
A referência é a Charlie Chaplin. Adão é o Carlitos do século XXI e além. O foguete espacial de Adão é a fábrica reduzida a cápsula móvel. Adão é Carlitos, mas o vagabundo vivia a realidade de uma sociedade disciplinar e, por sua vez, Adão vive na era farmacopornopolítica. Ele vive numa fábrica móvel cuja função, no limite, é fabricar o próprio Adão em sua vida cotidiana, produzir e reproduzir a sua própria vida como objeto de seu rendimento e instrumento do saber científico, tecnológico e comercial.
Adão é O Pequeno Príncipe sem planeta ao qual retornar. Observo que, quando Adão encontra as condições planetárias para a sua existência e a concretização da experiência, ele deixa o peixe, o corvo e a formiga e parte em direção ao desconhecido. Adão está, assim, se libertando das suas limitações planetárias? Seria a consciência de que ser humano é ser estúpido que o faz partir? A partida seria também o momento em que ele deixa de esperar e passa a agir? Ou a partida o coloca numa eterna espera de Godot?
3. A cigarra, a formiga e a arte
Impossível pensar em Enquanto as cigarras cantam sem pensar em farmacopornografia, sociedade de controle e sociedade disciplinar. O foguete espacial de Adão é a célula da sociedade disciplinar movimentando-se na velocidade da sociedade de controle, no interior de um regime farmacopornográfico intergaláctico. A fábula de Esopo, a da cigarra e a da formiga, como transparece pelo título, encontra mais que um eco no trabalho de Mônaco. A peça, de algum modo, é um manifesto contra a fábula de Esopo, uma contrafábula, um teatro fabular que fala da situação do artista e dos preconceitos e controles que enfrenta para criar. Isso é o subtexto. O ato de contar e fabular comporta a ideia de uma espécie de lição que carregaria em si a contradição da crueldade e do amor.
A fuga é a criação do artista, a aposta num mundo desconhecido e vital, o mergulho no caos do qual se obtém, depois de rasgar o véu das opiniões, um percepto, uma aposta no desejo, uma bússola que aponta para cima. A fábula é terrível; o fim da cigarra se anuncia. Ela aprende a lição por não se preparar para os momentos de necessidade. Adão, ao que parece, rompe com a necessidade quando escolhe o ato de criação como modo de vida. A fome da cigarra e a fome do artista; a fome de quem não tem seu trabalho reconhecido e precisa bater à porta da formiga, que frui seu canto e, no momento da partilha, finge ignorar o benefício que obteve do trabalho musical da cigarra. Além de tudo, a cigarra é obrigada a se defrontar com o moralismo da lição fabular: “é melhor se preparar para os momentos de necessidade” (Esopo, p. 48).
Enquanto as cigarras cantam, o que acontece? Todo mundo sabe: as formigas trabalham. Será mesmo? Essa é uma das questões importantes que a peça de Beto Mônaco denuncia e nos faz novamente fabular. A beleza da crueldade sem moralismo. A crueldade que encara o destino da finitude de peito aberto, porque sabe que é preciso realizar o trabalho vital que beneficia a todos, mesmo que as formigas insistam em negar sua contribuição relativamente aos benefícios recebidos. Talvez a resposta à distopia do tempo presente seja a utopia: a criação de um espaço que não existe como dado bruto, mas como lugar que existe enquanto as cigarras cantam.
*Zóia Münchow é professor de Filosofia no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul e doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
Referências, ficha técnica e links
Enquanto as cigarras cantam é uma produção do NUTIS — Núcleo Teatral Isadora Ribeiro, em colaboração com Guilherme Godoy, apresentada em março de 2026 no Casulo — Espaço de Cultura e Arte, em Dourados/MS.
Perfil do espetáculo Enquanto as cigarras cantam no Instagram: https://www.instagram.com/enquanto.cigarras/.
Ficha técnica de Enquanto as cigarras cantam: dramaturgia e atuação de Beto Mônaco; direção e vozes gravadas de Gina Tocchetto e Guilherme Godoy; visualidades da cena de Gil Esper, Rodrigo Bento, Larissa Catonho e Guilherme Ziben; trilha sonora de Mateus Mapa e Gilberto Ribeiro Jr.; apoio do Fundo de Investimentos à Produção Artística e Cultural de Dourados — FIP 2026.
Página do espetáculo Enquanto as cigarras cantam na Sympla: https://www.sympla.com.br/evento/enquanto-as-cigarras-cantam/3343594?referrer=www.google.com&referrer=www.google.com.
ESOPO. A cigarra e a formiga. Tradução de Lucas Medeiros. São Paulo: Beluga Editorial, 2020.



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