O Silêncio Como Instituição
- 5 de jul.
- 9 min de leitura
Machado de Assis escreveu sobre uma sociedade que transformava a violência em rotina e a crueldade em administração. Mais de um século depois, uma leitura de literatura, propriedade e conflitos.

Por Vinícius Guarani
Em “Pai contra Mãe”, Machado de Assis para a história por um instante. Ele quer descrever um objeto. Não é uma arma. Não é um papel. É uma máscara.
Era feita de folha de flandres. Tinha três buracos: dois para ver, um para respirar. Era fechada na nuca com um cadeado. Servia para impedir que os escravizados bebessem. E Machado, sem se abalar, escreve: “A ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e, alguma vez, o cruel.”
Li essa frase pela primeira vez já adulto. Não foi na escola. Foi num livro emprestado que cheirava a mofo e a um Rio de Janeiro que eu nunca visitei. E pensei: este homem sabia exatamente o que estava fazendo. Ele não estava apenas contando uma história sobre escravidão. Estava mostrando como uma sociedade inteira achava aquilo normal.
Eu me chamo Vinícius Guarani. Sou indígena, urbano, nascido e vivo em Mato Grosso do Sul. Trabalho com palavras: leio, escrevo, edito, investigo. E, há meses, faço a mim mesmo uma pergunta que não me deixa em paz.
Precisamos superar o cinismo de Machado de Assis para que a nossa literatura, aqui no MS, finalmente quebre alguma coisa? Ou será que Machado já nos deu a ferramenta certa e o que falta é só coragem de usá-la no lugar certo?
Fui procurar essa resposta devagar. Fui ao texto de Machado. Fui aos números do meu estado. Porque o cinismo, o de Machado e o nosso, nunca aparece de uma vez só. Ele aparece em detalhes pequenos.
O trabalho de Cândido Neves
Machado começa o conto com uma frase que parece tranquila, mas não é: “A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais.”
Reparem na calma dessa frase. Não há revolta nela. Há apenas um inventário, como o que lista os móveis após uma mudança. E nessa lista, ao lado do ferro de pescoço e do ferro de pé, está a máscara. Machado completa, ainda mais frio: “Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas.” Um instrumento de tortura, exposto numa vitrine, do lado de panelas e candeeiros, como mercadoria comum.
Esse é o cinismo de Machado em sua forma mais pura. Não é o defeito de um personagem. É a normalidade de toda uma sociedade.
Cândido Neves, o personagem principal do conto, não é um vilão de filme. É um homem desempregado. O próprio Machado o descreve assim: “Tinha um defeito grave esse homem; não aguentava emprego nem ofício.” Casado com Clara, costureira. Tem um filho recém-nascido que a família não consegue sustentar. Vive de favor num quarto que não é dele.
Para sobreviver, não para enriquecer, ele torna-se caçador de escravos fugidos. Era um trabalho como outro qualquer naquele tempo. Os jornais publicavam anúncios com o nome do fugitivo, a roupa que usava, algum defeito físico e o valor da recompensa.
Machado resume toda essa engrenagem numa única frase, afiada como bisturi: “sentimento de propriedade aí moderava a ação, porque o dinheiro também dói.” Ou seja, o dinheiro dói mais do que o açoite. Esse é o cinismo machadiano dito sem alarde, quase em voz baixa.
É esse trabalho que leva Cândido Neves a um beco perto da Rua da Ajuda, no fim da tarde. Ele está com o próprio filho recém-nascido no colo, indo deixá-lo na Roda dos Enjeitados, porque a família não tem como criar a criança. No caminho, ele vê, do outro lado da rua, “um vulto de mulher: era a mulata fugida.” Deixa o filho com um farmacêutico, pede a ele “a fineza de guardar a criança por um instante” — e atravessa a rua.
— Arminda! — grita, usando o nome do anúncio.
Ela se volta sem desconfiar de nada. Só entende o que está acontecendo quando ele tira “o pedaço de corda da algibeira” e amarra os pulsos. Ela tenta gritar. Mas sabe que ninguém vai ajudá-la. Então muda de estratégia. E aqui Machado dá à Arminda a única súplica direta de todo o conto:
— Estou grávida, meu senhor! [...] Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe,por amor dele, que me solte; eu serei sua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser.
Cândido Neves tinha um filho, sim. Estava com ele minutos antes, na farmácia. Mesmo assim, arrasta Arminda pela rua. Ela resiste. “Põe os pés à parede.” Grita que o senhor “era muito mau” e que ele iria castigá-la com açoites, “coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir.” Cândido responde com a fala mais fria do conto:
— Você é que tem culpa. Quem lhe manda ter filhos e fugir depois?
Ele entrega a escrava ao senhor dela. Recebe cem mil-réis de recompensa. E então acontece o desfecho. Machado não dramatiza. Apenas relata, como quem lê um boletim de ocorrência: “o fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono.” Arminda perde o filho ali mesmo, por causa da violência da captura.
E qual é a reação da família de Cândido quando ele volta com o dinheiro e finalmente pode ficar com o próprio filho? Tia Mônica, que cuidava do neto, disse: “É verdade: algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.” Não disse nada contra Cândido. Disse contra Arminda. A vítima é quem recebe a última repreensão do conto.
Esse é o enredo real. Sem o exagero que às vezes acrescentamos depois. Sem herói. Sem vilão de novela. Só a engrenagem girando, com gente pobre e desesperada dentro dela — fazendo o que faz para que o próprio filho sobreviva, à custa do filho de uma mulher que a sociedade já tinha decidido que não importava.
O verniz tem nome, em Mato Grosso do Sul
Eu queria saber onde essa engrenagem ainda gira aqui. Não como metáfora. Como fato. E os números que encontrei já chegam cínicos por conta própria, sem precisar de nenhum adorno meu.
Em 2024, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, Mato Grosso do Sul figurou entre os seis estados brasileiros com mais trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão. Cento e cinco pessoas, no nosso estado, em um único ano. Ficamos atrás só de Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Goiás e Pernambuco.
Isso não é uma comparação forçada entre Machado e o presente. É o próprio Estado brasileiro reconhecendo, em relatório oficial, que aquilo que chamamos de “alma escravocrata” não é apenas uma imagem bonita de texto. É uma categoria que ainda existe na lei, com artigo no Código Penal, e que precisa de fiscalização federal anual para ser combatida.
E a terra? Em “Pai contra Mãe”, a terra é apenas pano de fundo, pois Machado tinha outras prioridades na história. Aqui, em Mato Grosso do Sul, a terra é o próprio enredo.
Segundo o Atlas da Agropecuária Brasileira, mais de 90% do território do nosso estado está em mãos privadas. A maior parte está concentrada em grandes propriedades. As terras indígenas oficialmente reconhecidas ocupam apenas uma fração mínima desse total. Em alguns municípios, estudos mostraram que a maioria dos títulos de terra tem origem em grilagem, ou seja, em fraude documental sobre terra que nunca foi, de direito, de quem hoje a cerca e a explora.
Em 2024 aconteceu um episódio que li e reli várias vezes. Parecia escrito por alguém que também tivesse lido Machado e repetido a cena, sem ironia, como uma farsa real. Em Douradina, o povo Guarani e Kaiowá retomou uma área que considera seu território ancestral. Fazendeiros locais entraram na Justiça para pedir a retirada dos indígenas. Numa audiência de conciliação no Ministério Público Federal, os fazendeiros ofereceram cento e cinquenta hectares de terra degradada, em troca de mais de doze mil hectares que os indígenas reivindicavam. A comunidade recusou.
E esses mesmos cento e cinquenta hectares, oferecidos como “negociação”? Pouco depois, foram alvo de uma ordem judicial de reintegração de posse, a favor dos próprios fazendeiros. Não inventei essa repetição. Ela está registrada no conflito da Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica.
O Conselho Indigenista Missionário registrou, só em 2024, mais de 30 ataques armados contra comunidades indígenas no Brasil. Muitos concentrados aqui em Mato Grosso do Sul. Pessoas baleadas durante retomadas de terra. A Comissão Pastoral da Terra registrou mais de duas mil ocorrências de conflito agrário no país naquele ano, e o nosso estado ficou entre os cinco estados com mais casos de violência contra ocupações. A maior parte das tentativas de assassinato no campo, em todo o Brasil, ocorreu justamente aqui.
Essa é a “alma” de que tanto se fala, não como figura de linguagem, mas como algo que, na prática, continua até hoje: a terra tratada como propriedade a ser defendida a tiro, e o corpo do outro tratado como obstáculo que pode ser removido. Cândido Neves caçava Arminda por cem mil-réis. Hoje, segundo os relatórios da Comissão Pastoral da Terra e do Cimi, seguranças armados perseguem famílias Guarani e Kaiowá por causa de hectares de terra. A moeda mudou. Mas a lógica continua a mesma: quem é tratado como mercadoria, quem é tratado como dono e quem tem direito de gritar e ser ouvido.
A máscara nova
Não escrevo isso para condenar o agronegócio como atividade. Seria simplificar demais, e simplificar nunca foi o estilo de Machado. Escrevo porque existe, em Mato Grosso do Sul, um slogan que vejo em outdoor, em patrocínio de evento, em discurso de abertura de feira agropecuária: “agro é pop, agro é tech, agro é tudo.”
É uma frase de marketing nacional. Mas aqui ela ganha um peso quase de dogma. E essa frase faz, hoje, o mesmo trabalho que a “polidez” e a “boa conduta” faziam na sociedade que Machado descreveu: ela cobre.
Cobre o quê? Cobre a desigualdade na posse da terra que mostrei acima. Cobre os ataques às retomadas indígenas. Cobre o fato de que, segundo um professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul que estuda o tema, uma família Guarani e Kaiowá de quatro pessoas precisaria de trinta hectares para garantir sua sobrevivência, mas não os tem, porque o espaço já está ocupado, cercado, plantado e vigiado.
A máscara de folha-de-flandres calava a boca de quem a usava. O slogan do progresso cala a notícia. Os dois funcionam pela mesma lógica: deixam alguns buracos para ver, mas nenhum para falar.
O que os povos indígenas sabem, e que Machado nunca chegou a perguntar
Aqui minha leitura sai do terreno puramente literário e entra em outro território. É o que Daniel Munduruku chama de reexistência. É o que Ailton Krenak e Davi Kopenawa nos ensinam ao tratarem a terra como um organismo vivo, e não como uma mercadoria.
Machado nunca precisou responder a essa pergunta. O lugar de onde ele escrevia, de homem letrado, urbano, do Rio de Janeiro, não exigia esse olhar. Ele desnudou o cinismo da elite do seu tempo. Mas não lhe coube, e talvez nem lhe interessasse, perguntar o que a terra significa para quem não a possui, mas é parte dela.
E é aqui que a “quebra” de que tanto se fala não significa destruir Machado. Significa colocar, ao lado dele, vozes que ele nunca chamou para a mesa. Não para corrigi-lo, corrigir um autor morto no século XIX por não pensar como um indígena do século XXI seria um erro de raciocínio. Mas para completar, com outras visões de mundo, a pergunta que ele deixou em aberto: o que diz a terra, o que diz o corpo de quem nem era considerado “pessoa” pela lei daquele tempo, quando finalmente lhe damos a palavra que Cândido Neves nunca precisou disputar?
A oralidade quilombola e indígena é circular. Não conta a história em linha reta, como Machado contava, com ironia calculada e final preciso. Ela volta sobre o mesmo ponto, repete, até que esse ponto se abra de verdade. Talvez essa seja a verdadeira superação: não jogar fora a precisão cirúrgica de Machado, mas somar a ela essa circularidade, de quem sabe que a história de Arminda nunca terminou. Só trocou de século, de estado e de instrumento.
O que fica, depois da máscara
Volto à máscara de folha-de-flandres. Três buracos: dois para ver, um para respirar. Nenhum para falar. Essa é, talvez, a imagem mais exata que tenho para descrever o lugar reservado, ainda hoje, aos povos indígenas e às comunidades quilombolas na narrativa oficial do “progresso” em Mato Grosso do Sul. Pode-se ver a fumaça de um incêndio. Pode-se respirar o ar com agrotóxico. Mas a palavra, o relato de quem está debaixo da máscara, contado por quem mesmo, quase nunca atravessa o cadeado.
Não quero, com este texto, dizer que superamos Machado. Seria pretensão demais, e ele mesmo teria rido dessa pretensão com mais elegância do que eu jamais conseguiria. O que talvez tenhamos, nós que escrevemos a partir do Pantanal, do cerrado, das aldeias e das periferias de Mato Grosso do Sul, é a chance de devorá-lo, no sentido mais generoso da palavra: pegar sua lâmina, sua frieza precisa, sua capacidade de nomear o absurdo sem precisar gritar, e apontar essa mesma lâmina para os hectares, para as milícias do campo, para os slogans de outdoor que hoje fazem o trabalho que a máscara de folha-de-flandres fazia em 1906.
Cândido Neves não morreu na Rua da Ajuda. Ele só trocou de roupa, de século, de recompensa. Arminda também não morreu. Ela só trocou de nome várias vezes e ainda está gritando, em algum lugar entre Douradina e Caarapó, por um microfone que a “ordem e o progresso” continuem, com a mesma cortesia de sempre, recusando-se a estender-lhe.
Vinicius Guarani é escritor, poeta, multiartista e pensador indígena, nascido e residente em Mato Grosso do Sul.
Citações de Machado de Assis extraídas do conto “Pai contra Mãe” (1906), de domínio público. Dados sobre trabalho análogo à escravidão: Ministério do Trabalho e Emprego, relatório de 2024. Dados sobre a estrutura fundiária e conflitos territoriais em MS: Atlas da Agropecuária Brasileira, Comissão Pastoral da Terra (relatório de 2024) e Conselho Indigenista Missionário (relatório sobre violência contra povos indígenas, 2024).



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