Por que o torcedor fanático e o crente fundamentalista pensam exatamente da mesma forma?
- 3 de jul.
- 5 min de leitura
A vitória é mérito, a derrota é conspiração. A doença é ataque espiritual, o desemprego é prova de fé. Sob a superfície, o torcedor fanático e o fiel fundamentalista são vítimas do mesmo fenômeno.

O processo pelo qual indivíduos se tornam intelectual e moralmente mais limitados ao interior de um grupo coeso é um dos fenômenos mais bem documentados da psicologia social. Ele não depende da inteligência dos membros, nem da qualidade dos valores que o grupo alega defender. Depende de mecanismos cognitivos e sociais que se repetem, com variações de superfície, em diferentes contextos. O rebanho cristão fundamentalista e o torcedor fanático de futebol oferecem dois exemplos contemporâneos particularmente claros dessa dinâmica, ainda que operem com símbolos distintos.
Em ambos os casos, a identidade grupal se sobrepõe à capacidade de pensar de forma autônoma. O que Solomon Asch demonstrou em laboratório, que indivíduos conformam-se à opinião majoritária mesmo quando esta contradiz a evidência dos sentidos, manifesta-se, fora do laboratório, como adesão coletiva a interpretações da realidade que não resistem a exame mínimo. No contexto brasileiro, essa adesão é especialmente visível em dois campos: a cultura cristã pentecostal e neopentecostal, que cresceu de forma acelerada nas últimas três décadas, e a cultura futebolística, que se organiza em torno de rivalidades que transcendem o esporte e se tornam identidades sociais completas.
No caso do torcedor fanático, a pesquisa de Irving Janis sobre groupthink encontra correspondência direta. O torcedor não avalia o desempenho de seu time com base em critérios técnicos ou táticos quando o grupo exige lealdade incondicional. A vitória é atribuída ao mérito; a derrota, sempre a fatores externos, arbitragem, conspiração, má sorte, traição interna. O mesmo movimento de interpretação monopolista ocorre dentro de grupos religiosos que se organizam em torno da ideia de que o mundo opera por mecanismos espirituais ocultos. A doença, o desemprego, o fracasso afetivo ou o adiamento de um projeto são reinterpretados como ataques espirituais ou como sinais de que o grupo deve intervir ainda mais intensamente na vida do fiel. Em ambos os casos, a realidade é filtrada pela identidade coletiva.
A diluição da responsabilidade, descrita por Stanley Milgram, também se repete. O torcedor que comete violência dentro ou fora do estádio raramente a compreende como decisão individual. Ele age como parte de um coletivo que já definiu que o adversário merece hostilidade. Da mesma forma, o membro de um grupo religioso que interfere de forma sistemática na vida de outro fiel — adiando relacionamentos, fiscalizando movimentos, interpretando comportamentos, raramente se percebe como agente individual. Ele entende sua ação como extensão de um consenso coletivo. A responsabilidade moral se transfere para o grupo, e o grupo, por ser difuso, não presta contas.
Philip Zimbardo demonstrou, no experimento da prisão de Stanford, como papéis disponíveis moldam a conduta mais rapidamente do que o caráter prévio dos indivíduos. No Brasil, a cultura futebolística oferece uma quantidade generosa desses papéis: o torcedor leal, o ultra, o dirigente, o narrador que repete a versão oficial do clube. Cada papel carrega expectativas de comportamento. Quem assume o papel de “torcedor de verdade” passa a ser cobrado por demonstrar lealdade por meio de ataques verbais, isolamento de rivais ou desqualificação de qualquer crítica. O mesmo mecanismo opera no interior de grupos religiosos quando o membro é convidado a ocupar a posição de “guardião da família” ou “intercessor”. A posição oferece prestígio interno e, ao mesmo tempo, exige a manutenção da coerência do grupo, ainda que à custa da autonomia de outros.
A teoria da identidade social de Henri Tajfel ajuda a compreender por que essas identidades se tornam tão resistentes à revisão. Uma vez estabelecida a distinção entre “nós” e “eles”, os membros tendem a atribuir qualidades positivas ao grupo de pertencimento e qualidades negativas ao grupo externo, mesmo quando os critérios de diferenciação são arbitrários. No futebol brasileiro, a rivalidade entre torcedores de times da mesma cidade ou região frequentemente ultrapassa qualquer justificativa esportiva. No contexto religioso, a distinção entre “crente” e “do mundo” cumpre função análoga: define quem merece proteção e quem pode ser objeto de intervenção. Em ambos os casos, a categorização social autoriza tratamento diferenciado.
A necessidade de pertencimento, identificada por Roy Baumeister e Mark Leary como motivação humana fundamental, explica a força desses agrupamentos. No Brasil, tanto o futebol quanto certas expressões do cristianismo oferecem identidades fortes em contextos de fragilidade social e econômica. O torcedor que pertence a uma organizada ou a uma torcida jovem encontra reconhecimento, proteção e sentido de propósito que, muitas vezes, não encontra em outras esferas da vida. O fiel que participa de uma igreja com forte coesão grupal recebe estrutura, regras claras e sensação de pertencimento num país marcado por instabilidade. O custo de abandonar essas identidades é alto. Por isso, a divergência interna é custosa e, frequentemente, punida com exclusão simbólica ou real.
Esses mecanismos não dependem da inteligência individual dos participantes. Pessoas com capacidade analítica em outros domínios da vida se tornam, dentro desses grupos, incapazes de aplicar a mesma capacidade à própria condição. O groupthink de Janis não exige burrice prévia. Ele a produz como resultado da coesão. Quanto mais forte for o sentimento de pertencimento, maior o custo psicológico da divergência, e maior a probabilidade de que os membros suprimam suas próprias objeções.
A cultura brasileira oferece exemplos abundantes dessa convergência entre torcida e religião. A Copa do Mundo de 2014 e a de 2018, por exemplo, produziram episódios em que a lealdade ao time nacional se sobrepôs a qualquer avaliação crítica das estruturas que cercavam o evento, corrupção, gastos públicos, repressão policial. Da mesma forma, o crescimento de igrejas pentecostais em periferias urbanas se deu, em parte, pela capacidade desses grupos de oferecer explicações e pertencimento em contextos de precariedade. Em ambos os casos, o grupo se apresenta como portador de uma verdade que dispensa exame externo.
O que muda entre um e outro não é a estrutura cognitiva. São os símbolos. No futebol, a bandeira, o hino, a camisa e a rivalidade ocupam o lugar que, no grupo religioso, é ocupado pelo versículo, pela doutrina e pela figura do inimigo espiritual. A função psicológica é equivalente. O torcedor fanático e o fiel fundamentalista operam sob o mesmo conjunto de mecanismos: conformidade com a maioria, diluição da responsabilidade, supressão da crítica interna, categorização social e necessidade de pertencimento. A única diferença relevante é o conteúdo simbólico que cada grupo utiliza para justificar sua existência e suas intervenções.
A pesquisa psicológica não indica que esses fenômenos sejam exclusivos de contextos religiosos ou esportivos. Eles podem emergir em qualquer agrupamento humano que atinja alta coesão e se sinta autorizado a administrar a vida de quem considera vulnerável ou desviante. No Brasil, o futebol e o pentecostalismo apenas oferecem dois dos exemplos mais visíveis e persistentes dessa dinâmica.



Comentários