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Sobre a literatura que o mundo está esperando

  • 5 de jul.
  • 10 min de leitura

Literatura, saúde mental e os caminhos que a juventude do estado encontrou, e ainda não encontrou, para transformar dor em arte publicada.



A Dor Que Escreve

por Vinícius Guarani | Campo Grande, MS


Ela estuda Direito numa universidade pública. Escreve desde os quinze anos. Tem um caderno de capa preta que não mostra para ninguém e uma pasta no computador chamada simplesmente “textos”. Quando alguém finalmente pediu para ler o que ela escrevia — o que fora uma proposta de publicação, uma mão estendida —, ela respondeu com a exatidão cortante de quem já ensaiou a frase antes: “Meus textos são depressivos demais. Não publicaria, não.”

E foi embora. Mandou beijos e não respondeu mais.

Essa cena acontece todos os dias no Brasil. Acontece em Campo Grande, em Dourados, em Corumbá, em cidades do interior de Mato Grosso do Sul onde jovens escrevem às madrugadas, inventam mundos paralelos ao mundo que dói, e depois fecham o arquivo, viram as costas e se convencem de que o que fizeram não é digno de existir publicamente. Não porque seja ruim. O que é ruim e o que é bom? Mas porque é verdadeiro demais.

O caso dessa jovem escritora não é isolado. É um retrato social. E entendê-lo exige que olhemos para três lugares ao mesmo tempo: para o que a pesquisa científica diz sobre saúde mental jovem em MS, para o que a história da literatura diz sobre dor e arte, e para o que o mercado editorial, com suas feiras criativas, editais e programas de incentivo, ainda não soube dizer sobre ela.


O ESTADO QUE DANÇA RASQUEADO E CHORA EM SILÊNCIO

Mato Grosso do Sul é, antes de qualquer outra coisa, um estado de identidades sobrepostas. A cultura local não é monolítica nem simplificada folcloricamente. Ela é, na prática cotidiana dos seus habitantes, uma trama de influências indígenas Guarani-Kaiowá, de sotaque paraguaio, de “bah, tchê!” gaúcho, de tereré servido às sete da manhã com a mesma naturalidade com que, em São Paulo, se toma café. O rasqueado se dança. O chamamé faz brotar o grito do Sapucaí quando o sanfoneiro puxa. O siriri aparece em oficinas do SESC Arsenal numa tarde de quinta-feira.

Essa diversidade existe. É real. Mas convive, em tensão constante, com uma realidade que os dados não permitem esconder: Mato Grosso do Sul tem entre os piores indicadores de saúde mental juvenil do país. Segundo levantamento do Observatório da Infância e Juventude do estado, 1 em cada 3 jovens (34,3%) já pensou em se machucar: o 4º pior índice nacional. Entre mulheres jovens, 29,2% sentem que a vida não vale a pena, uma proporção que supera em mais de duas vezes a dos homens. Quarenta e quatro por cento relatam irritação frequente. Vinte e um por cento perderam a vontade de viver.

De janeiro a setembro de 2025, 80 jovens entre 15 e 29 anos morreram por suicídio no estado.

São números que pedem silêncio antes de qualquer palavra.

E é nesse contexto, esse paradoxo de um estado culturalmente vibrante e emocionalmente devastado, que uma jovem universitária escreve textos às madrugadas e diz que são “depressivos demais para publicar”.


POR QUE ELA NÃO PUBLICA: UM FENÔMENO SOCIAL COM NOME

A frase dessa jovem não é timidez. Não é modéstia falsa. É o resultado de ao menos quatro camadas de pressão social que atuam simultaneamente sobre quem é jovem, mulher, periférica em termos de visibilidade cultural e que escreve sobre o que sente.

A primeira camada é o estigma.

Pesquisas sobre saúde mental mostram que o estigma leva à negação do transtorno, ao medo de discriminação e à resistência em buscar ajuda ou, no caso da literatura, em tornar público o que se sente. Quando uma jovem diz que seus textos são “deressivos demais”,ela não está fazendo uma análise literária. Ela está antecipando o julgamento. Ela está dizendo: “Sei que o que sinto não é bem-vindo aqui.

A segunda camada é o mercado editorial como filtro de adequação.

Há uma percepção, às vezes explícita, às vezes implícita, nas chamadas de publicação de que textos pesados não vendem, não interessam, não cabem. Essa percepção é, historicamente, uma mentira bem-sucedida. Clarice Lispector escreveu sobre a dissolução do eu. Conceição Evaristo escreveu sobre violência e apagamento. Sylvia Plath publicou A Redoma de Vidro e entrou para a história. Virginia Woolf nomeou a escuridão com precisão cirúrgica. O mercado que rejeita a dor está, na verdade, rejeitando profundidade e o faz com jovens que ainda não têm parâmetros para questionar esse critério.

A terceira camada é a confusão entre tema e qualidade.

Depressivo demais” é uma categoria temática, não uma categoria estética. Um texto sobre sofrimento pode ser tecnicamente brilhante ou tecnicamente ruim. Um texto sobre flores pode ser tecnicamente brilhante ou tecnicamente ruim. Quando o critério de publicação é o tema, e não a capacidade do texto de transformar a experiência em linguagem, o que se está descartando não é um texto fraco. É uma voz autêntica.

A quarta camada é a falta de modelos de referência.

Se a jovem escritora de Direito nunca leu Ademir Assunção, Roseana Murray, Paulo Leminski ou Manoel de Barros escrevendo a partir de fraturas internas; se nunca foi apresentada à Escrevivência de Conceição Evaristo, ao conceito de que escrever a própria dor é um ato político de resistência; se nunca teve acesso a um espaço onde dor e arte se encontrem legitimamente, ela vai acreditar que seus textos são o problema. Quando o problema, na verdade, é a ausência de espelhos.


O QUE A CIÊNCIA JÁ SABE QUE A LITERATURA FAZ

Não é metáfora. A escrita criativa produz efeitos mensuráveis na saúde mental de quem a pratica.

A arteterapia libera endorfinas e reduz os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. A escrita expressiva facilita o acesso a conteúdos emocionais que, pela via racional, levariam muito mais tempo a emergir. Estudos compilados pela Organização Mundial da Saúde confirmam que as intervenções artísticas têm resultados positivos na melhoria da saúde mental e física. O programa britânico Arts for the Blues, testado com universitários, demonstrou uma redução significativa dos sintomas de ansiedade e depressão por meio da escrita criativa, das artes visuais e da expressão corporal.

Mais do que isso: a escrita em grupo, em coletivos, em rodas literárias, em projetos como o “Comunidade em Letras” em Salvador, onde 20 jovens periféricos produziram uma coletânea sobre o próprio bairro, é particularmente eficaz porque combina os benefícios individuais do processamento emocional com o pertencimento social. E o pertencimento, para adolescentes que enfrentam solidão e baixa autoestima, é terapêutico por definição.

A escrita não cura depressão grave; isso precisa ser dito com clareza. Em casos graves, a medicação e a psicoterapia são insubstituíveis. Mas a escrita literária, quando praticada com regularidade e dentro de um ambiente acolhedor, funciona como fator protetivo: aumenta a autoestima, desenvolve a autonomia, organiza o caos emocional em narrativa coerente, e o que talvez seja o mais poderoso de tudo, dá sentido ao que dói.

Arthur Schopenhauer intuiu que o sofrimento é fonte da criatividade. A ciência contemporânea refina essa ideia: não é o sofrimento em si que cria arte. É a transformação do sofrimento. A dor que permanece como dor é apenas dor. A dor que se torna página, estrofe, conto ou crônica é dor que encontrou forma, e forma é sempre uma espécie de cura.

Mihaly Csikszentmihalyi, no conceito de flow, mostrou que a verdadeira criatividade floresce em estados de concentração profunda, frequentemente alimentada por emoções positivas e por um ambiente mental estável. Autenticidade e profundidade, como disse David Lynch, não são sinônimos de angústia. A arte não depende do sofrimento para atingir a excelência. Depende da honestidade. E a honestidade, às vezes, passa pela dor.


MATO GROSSO DO SUL TEM EXEMPLOS. ELES EXISTEM. POUCOS OS CONHECEM.

Em novembro de 2024, o Espaço Cultural do TCE-MS inaugurou a Mostra MATIS, Arte, Talento, Inovação e Superdotação. Trinta e seis jovens de Campo Grande, Dourados, Mundo Novo, Nioaque, Água Clara e Chapadão do Sul criaram 47 obras com o tema “Caminhos e Padrões que Ninguém Mais Viu." O título é, inadvertidamente, um manifesto: ver diferente não é um defeito. É o que faz um artista.

No Bioparque Pantanal, o III Festival de Cinema Estudantil reuniu curtas-metragens produzidos por alunos da Rede Estadual. Cinema feito por jovens que aprenderam que a câmera é uma ferramenta para narrar a própria existência.

No CAPS Infantojuvenil de Campo Grande, gerenciado pelo CEJAM, 400 crianças e jovens por mês participam de oficinas de pintura, artesanato, música, sarau e teatro como instrumentos terapêuticos. Ewerton Nascimento, oficineiro arteterapeuta, resume com precisão: “A é ,portanto, mais do que uma simples forma de expressão: também é terapia.”

No 10º Encontro Guarani-Kaiowá e Nandeva, 600 jovens indígenas se reuniram. Vinte deles foram formados como Agentes Cultura Viva Indígenas. Um deles, João Pedro Tupinambá, disse algo que deveria estar gravado em todas as paredes de todas as escolas de MS: “Ser um agente me fez pensar no fazer cultural como intrínseco à nossa existência desde que nascemos, como uma prática política e de resistência.”

Cultura como resistência. Arte como existência. Isso não é retórica. É o que acontece quando um jovem percebe que o que cria tem peso político no mundo.

E o Programa Juventude Plena, lançado em maio de 2025, reúne ações de saúde, educação e protagonismo juvenil para jovens dos 79 municípios do estado, buscando, pela primeira vez, conectar, de forma integrada, a produção cultural e a saúde mental como dois lados do mesmo projeto de vida.


PUBLICAR É POSSÍVEL. E VALE A PENA SABER CÓMO.

Para a jovem que tem uma pasta chamada “textos” no computador e diz que não publicaria porque escreve sobre o que dói e tem vergonha, há caminhos concretos. Não abstratos. Concretos.

O Programa Rouanet da Juventude é um edital de fomento direto do Ministério da Cultura, com R$ 6 milhões para 30 projetos de até R$ 200 mil, destinados a jovens de 15 a 29 anos, com prioridade para quem está em situação de vulnerabilidade social. O Centro-Oeste é uma região prioritária. Em 2025, o Sesi-MS apoiou dois projetos do estado aprovados nesse programa: a Associação Arado, voltada à gestão eà produçãoo cultural, e o projeto “Aspirantes: A Produção Teatral na Prática,” de Leonardo Augusto Madureira de Castro. O Sesi oferece capacitação, orientação e suporte técnico para transformar ideias em projetos viáveis.

A diferença entre incentivo fiscal e edital de fomento direto é simples: no incentivo fiscal (Lei Rouanet tradicional), você tem o projeto aprovado pelo MinC e precisa buscar patrocinadores privados, que podem deduzir do Imposto de Renda. No edital de fomento direto, você se inscreve, é selecionado e recebe o recurso diretamente do governo. Para jovens sem rede de patrocinadores, que são a maioria, o edital de fomento direto é o caminho mais acessível.

Além do Rouanet, há outras portas: o Circula Cultura MS, que leva arte e literatura ao interior do estado, descentralizando o acesso; a Rede Estadual de Pontos de Cultura, que promove a identidade cultural e fortalece a autoestima; o SESC Arsenal, com oficinas e apresentações regulares; e a Fundação de Cultura de MS, que mantém editais periódicos para publicação e circulação de obras.

Para quem quer publicar literatura agora, sem esperar por edital: plataformas como Wattpad e Medium permitem publicação imediata sem filtro editorial. Blogs literários têm construído audiências fiéis. Coletâneas colaborativas, como a que a Bahia produziu com jovens periféricos, são modelos replicáveis: um grupo de escritores, um tema comum, um e-book que circula gratuitamente e chega a quem precisa ler.

A escrita de resistência, o conceito de Escrevivência, de Conceição Evaristo, mostra que publicar a própria história não é uma exposição de vulnerabilidade. É ato de poder. É dizer: eu existo, eu sinto, eu nomeio o que aconteceu comigo, e isso tem valor literário e político.


O QUE DIZER PARA QUEM ESCREVE SOBRE O QUE DÓI

Clarice Lispector não escreveu apesar da dor. Escreveu através dela. Manoel de Barros transformou a beira do Pantanal em filosofia porque não fingiu que o mundo fosse simples. Adélia Prado fez do cotidiano mais denso — a morte, o corpo, Deus, a solidão — matéria poética que perdura há décadas.

A literatura que fica não é a que evita o desconforto. É a que nomeia o que todos sentem, mas ninguém sabe dizer.

Expressivo demais" não é uma categoria estética. É uma categoria do medo, às vezes o medo do leitor, às vezes o medo de quem edita, sempre o medo de quem escreve. E o medo, como qualquer outra emoção humana, é excelente matéria-prima.

O que transforma um texto “expressivo" em literatura não é tirar a dor. É dar à dor uma forma tão precisa, tão honesta, tão bem escrita, que quem lê reconhece algo de si mesmo naquelas linhas e pensa: eu não sabia que podia ser dito assim. Mas é exatamente assim.

Isso é literatura. Isso é o que ela faz. E isso é o que você, que escreve às madrugadas e fecha o arquivo com vergonha, já faz.

Falta apenas acreditar que o mundo precisa ouvir.


O QUE MS AINDA PRECISA CONSTRUIR

Mato Grosso do Sul tem juventude que dança, que filma, que pinta, que resiste, que mapeia a própria cultura Guarani-Kaiowá como ato político. Tem programas públicos que tentam conectar saúde mental e protagonismo cultural. Tem o tereré, o rasqueado, o chamamé, o siriri e também a Escrevivência, a arteterapia, o cinema estudantil, o festival da juventude.

O que ainda falta é uma ponte clara entre a jovem que escreve na solidão e os espaços onde essa escrita pode respirar. Um caminho que ela saiba percorrer. Uma voz editorial que diga, sem rodeios: textos que vêm da dor são bem-vindos aqui. Especialmente os seus.

Publicar não é o objetivo final da escrita. Mas é o momento em que a escrita deixa de ser apenas sua e se torna de quem precisa ler. E em um estado em que 1 em cada 3 jovens já pensou em se machucar, há muita gente que precisa encontrar, numa página, alguém que tenha nomeado exatamente o que ela não consegue dizer em voz alta.

Esse alguém pode ser você.

Para saber mais sobre editais culturais em Mato Grosso do Sul: Fundação de Cultura de MS | Sesi Leis de Incentivo MS | Programa Rouanet da Juventude

Para acompanhar eventos culturais e chamadas de publicação: MS Cultural | Mapa da Cultura


Fontes consultadas: Observatório da Infância e Juventude de MS (2025); CEJAM — Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim; Ministério da Cultura — Programa Rouanet da Juventude; TCE-MS — Mostra MATIS 2024; Secretaria de Estado de Educação de MS — III Festival de Cinema Estudantil; Ministério da Cultura — 10º Encontro Guarani-Kaiowá e Nandeva; Agência de Notícias do Governo de MS; OMS — Relatório sobre Arte e Saúde Mental; Csikszentmihalyi, M. — Flow: The Psychology of Optimal Experience; Evaristo, Conceição — conceito de Escrevivência; Sesi-MS — Relatório Rouanet da Juventude 2025.


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