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A beca e o vento

Um retrato de André Alvez, que assume a Cadeira 28 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

Escritor André Alvez, prestes a tomar posse como Imortal da ASL, com cerimônia marcada para 8 de agosto de 2026.
Escritor André Alvez, prestes a tomar posse como Imortal da ASL, com cerimônia marcada para 8 de agosto de 2026.

Antes de existir descarga na casa da família, existia o vento. É por ele, talvez, que a história deveria começar: um menino numa Campo Grande dos anos 1970, sem saneamento básico, numa casa onde a janta, quando havia janta, era pão com chá, descobre na casa de um amigo, com o assombro de quem testemunha uma tecnologia estrangeira, o que é puxar uma descarga. André Alvez guarda a cena com a nitidez reservada aos episódios fundadores. Não é anedota de infância pobre contada para comover: é o ponto zero de onde tudo o mais parte.

Décadas depois, esse mesmo homem, pós-graduado em Literatura Brasileira pela UCDB, publicitário formado pela UNISA-SP, cronista que por onze anos assinou o Caderno B do Correio do Estado, se prepara para vestir a beca de uma academia de letras. A distância entre os dois pontos não é apenas geográfica, nem apenas de décadas: é a distância exata de que são feitas as biografias que valem ser contadas.

Campo Grande, nos anos em que Alvez formava o próprio olhar, ainda carregava as marcas de uma cidade recente, capital de um estado que só existiria oficialmente a partir de 1977, quando Mato Grosso do Sul se separou de Mato Grosso por decisão federal. Era uma capital de fronteira em formação, sem a infraestrutura que a modernidade prometia e ainda não entregava por completo, povoada por gente de trânsito: caboclos, pantaneiros, migrantes, comerciantes. Foi nesse cenário, não em bibliotecas, não em salões literários, que Alvez fez sua primeira educação sentimental. Trabalhou desde cedo, em contato direto com o que ele chama de "todo tipo de gente", e é dessa convivência bruta, não de manuais de retórica, que nasceria mais tarde a matéria-prima dos seus romances. A família era pobre, ele repete a palavra como quem se recusa ao eufemismo, e a refeição da noite, quando existia, era pão e chá.

A escrita chegou antes dos livros, como quase sempre acontece com quem escreve por necessidade e não por vocação anunciada. Alvez escrevia em cadernos, em portas de banheiro: a superfície disponível para quem nasceu antes do computador e sentia a urgência física de registrar o que via. Uma cena testemunhada virava texto na cabeça antes mesmo de ganhar papel, mecanismo que, ele reconhece, nunca deixou de operar. A internet, quando chegou, não mudou o impulso: apenas resolveu, décadas depois, o problema prático de publicá-lo. É um detalhe pequeno que revela algo maior sobre sua geração de escritores, a que aprendeu a esperar uma vida inteira entre a vontade de escrever e a possibilidade concreta de ser lido.

Entre a métrica e a história

Entre prosa e poesia, a escolha de Alvez nunca foi ambígua. Tentou o verso na juventude e recuou diante da métrica, sentida como uma camisa de força, sobretudo pela obrigação, comum aos iniciantes de sua época, de compor sonetos. A leitura de um poema de Cecília Meireles, mais tarde musicado por Raimundo Fagner (episódio que, segundo ele lembra, gerou desconforto com a família da poeta, já falecida e não consultada), funcionou como confirmação de um limite: ali estava um tipo de perfeição que ele sentiu não conseguir alcançar. Com a prosa, o movimento foi inverso. Onde a poesia o intimidava, o romance o convidava a competir, a ponto de, lendo os outros, imaginar finais melhores que os publicados. Convidado a arbitrar um duelo hipotético entre os dois gêneros, ele não hesita em dar a vitória à prosa, porque a poesia, salvo raras exceções, nasce frágil nos iniciantes, enquanto quem começa a escrever prosa já começa contando histórias, e uma história bem contada pesa mais do que um sentimento anotado no calor da hora.

"A poesia muitas vezes é frágil, principalmente nos iniciantes, são poesiazinhas bobas. Já a prosa não: o cara que começa a escrever prosa começa a contar história. E contar uma história é muito mais forte do que começar a falar de sentimentos que às vezes nem são o que a pessoa está sentindo na hora."

Há, no entanto, uma exceção que ele mesmo abre nesse desapego pela forma poética. Perguntado se existe um poeta que respeita secretamente mesmo negando o gênero, responde sem hesitar: Manoel de Barros.

"Manoel de Barros. Sabe por quê? Porque a prosa dele me encanta. Mas eu tenho outros poetas que eu acho superiores a ele. Muitos outros."

A ressalva final, quase um pedido de desculpas por render-se a um nome tão consagrado, é típica de sua maneira de admirar: nunca sem reserva crítica.

Os sete livros

Essa opção pela prosa rendeu, ao longo de mais de década e meia, sete livros. A Bruxa da Sapolândia, romance de ficção construído sobre um mito urbano campo-grandense, foi o que lhe deu o primeiro reconhecimento amplo no meio literário sul-mato-grossense; e é revelador que, perguntado sobre qual o personagem mais memorável que já conheceu fora dos livros, Alvez tenha respondido com o nome da própria bruxa, um personagem nascido de boato de rua, não de invenção de gabinete. Seguiu-se O Olho Esquerdo (Editora Patuá, 2020), primeiro livro de contos do autor: quinze narrativas de realismo mágico que cruzam o poético com o brutal, escritas depois de um ano dedicado inteiramente ao gênero que ele confessa ter demorado a praticar, apesar de sempre tê-lo lido. Em 2019, um conto seu havia ficado em segundo lugar no tradicional Concurso Ulysses Serra, promovido pela própria Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, pequeno prenúncio, à distância, do encontro que se consumaria anos depois. O sétimo título, Todo Bicho Alado Sente Medo do Vento, chegou em 2023, lançado na Esplanada Ferroviária: contos e crônicas nascidos, segundo o autor, da mesma relação íntima com o vento que o acompanha desde a adolescência.

O ofício e o ruído

Porque há, no método de trabalho de André Alvez, uma particularidade que contraria a imagem convencional do escritor recluído em silêncio: ele não suporta o silêncio.

"Tenho uma mania desde que comecei a escrever: ouvir o vento. Eu abdico do silêncio, não gosto dele, o silêncio me deixa entediado. Preciso de barulho, preciso de rock, de Beatles, de Belchior, de Chico, de Caetano. Atualmente ando com o Phil Collins toda hora na cabeça. Até hoje o vento conversa comigo. Talvez seja Deus."

O ruído não é distração: é combustível. A disciplina, por outro lado, tem seus colapsos, e ele os narra sem qualquer pudor romântico sobre o processo criativo.

"Já destruí vários textos. Geralmente era quando eu tinha bebido, tomado vinho, tomado muita cerveja, e ia escrever um negócio. No outro dia eu olhava aquilo e falava: isso tinha merda. Aí eu pegava e jogava fora, para nunca mais."

A máscara e o espelho

A ironia, em Alvez, não é ornamento de estilo: é estratégia de sobrevivência psicológica. Dela nasceu Vladimir de La Mancha, personagem-válvula através do qual o autor diz permitir-se dizer o que, na vida cotidiana, tenta conter, inclusive um traço que atribui, com uma honestidade pouco comum, a "todo homem da sua idade".

"Sou irônico, muito irônico na minha escrita. Criei um personagem para poder falar mais abertamente sobre isso, que é o Vladimir de La Mancha. Todo homem da minha idade é meio machista, e eu tento controlar isso. Mas, quando estou escrevendo como Vladimir de La Mancha, eu deixo aflorar."

É um mecanismo de distanciamento crítico digno de nota: o escritor usa a máscara não para se esconder, mas para examinar, de fora, aquilo que talvez não suportasse examinar de dentro. Fiel a essa lógica de distância, ele nega se reconhecer em qualquer personagem próprio, nenhum, garante, é ele, e estende a mesma exigência crítica a terceiros. Prova disso é o pequeno manifesto, quase um aviso aos amigos, que gravou à parte, isolado, sem pergunta que o provocasse:

"Não me peça para ler seu livro antes de publicá-lo. Eu vou criticar, vou falar mal."

Convidado a avaliar a própria reputação, entre a crueldade e a generosidade que os outros lhe atribuem, aplica a si mesmo o mesmo rigor que reserva aos manuscritos alheios.

"Muita gente deve me achar cruel, mas não me fala isso na cara. Generoso também sou, em alguns dias. Acho que sou mais cruel do que generoso, porque tenho a mania de falar muito e acabo falando o que sinto."

A casa e a paciência que se esgota

Casado há trinta e seis anos, Alvez descreve com o mesmo desassombro os efeitos da idade sobre seu temperamento doméstico.

"Sou chefe da minha família, sou meu pai, né? Tenho um casamento de trinta e seis anos. Ultimamente eu noto que estou perdendo muita paciência, com todo mundo, principalmente dentro de casa."

É um dado pequeno, quase incidental, mas que compõe o retrato de um homem que não edita a própria imagem para soar mais gentil do que se sente.

A aldeia e o universal

Sua relação com o rótulo de "literatura regional" seguiu trajetória semelhante à do relacionamento com a própria cidade: da resistência inicial à aceitação sem drama. Hoje já não se incomoda com o termo, amparado, ainda que hesitante quanto à autoria exata da frase, que atribui a Tolstói, na ideia de que escrever sobre a própria aldeia é o caminho, e não o obstáculo, para alcançar o universal. Na prática, essa fidelidade tem endereço: a Serra de Maracaju, cuja paisagem ele descreve como fonte de inspiração poética mesmo sem se considerar poeta, e cuja geografia, nascendo no sul do Paraguai e cortando o estado até a região de Sonora, ele evoca para defender, mais como provocação literária do que como tese histórica, que Mato Grosso do Sul deveria ter herdado o nome "Maracaju". A referência remete à Revolução Constitucionalista de 1932, quando o território viveu uma breve fragmentação política antes de a vitória de Getúlio Vargas restabelecer a configuração anterior, episódio menor da história nacional que Alvez recupera como lastro afetivo, não como programa político. O apego territorial tem também sua medida exata: o autor nunca ficou fora de Campo Grande por mais de quinze dias, e descreve o período como desesperador.

Uma cadeira que ele demorou para aceitar

Foi esse mesmo apego, paradoxalmente, que por anos o manteve à distância da Academia. André Alvez recebeu convites para concorrer a uma cadeira muito antes de finalmente se inscrever, e credita a demora a uma desconfiança de fundo.

"Eu ficava naquele pensamento de que eu, o André, não combinaria com a academia. Eu via, nesse tempo que estou falando, muito conservadorismo. E eu sou inquieto, sou um artista inquieto. Acho que eu estava errado esse tempo todo. Agora é o momento certo de eu ir para a academia."

Só recentemente, percebendo uma abertura maior na instituição, decidiu seguir adiante, decisão que o levou, em junho de 2026, a ser eleito para a Cadeira 28, numa disputa que reuniu seis candidatos e que também consagrou o escritor Brígido Ibanhes para a Cadeira 13. Alvez sucede o acadêmico Augusto César Proença, morto em 2023. Fundada em 1971 por Ulysses Serra, com José Couto Vieira Pontes e Germano Barros de Sousa como cofundadores, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras segue o modelo da Academia Brasileira de Letras, com quarenta cadeiras vitalícias, e já teve entre seus nomes vinculados Manoel de Barros e Paulo Coelho Machado, o mesmo Manoel de Barros que Alvez elegeu, páginas atrás, como sua exceção poética confessa.

A posse

A cerimônia de posse está marcada para o dia 8 de agosto de 2026, às 19h30, na sede da ASL, na Rua 14 de Julho, 4653, nos Altos do São Francisco, em Campo Grande, com traje passeio. Na ocasião, a acadêmica Lucilene Machado fará, em nome da Academia, a saudação ao novo integrante. Alvez diz estar se preparando com antecedência, o que é, para ele, uma novidade.

"Nas minhas palestras eu falo do Gabo, falo do Hemingway. Eu poderia falar de Graciliano, poderia falar do Erico Verissimo, tenho material pronto. E tenho material pronto para falar sobre a diferença entre crônica e conto, que eu uso a música popular brasileira para definir o que é uma coisa e o que é outra. Mas essa posse eu vou lá falar de mim. Eu nunca fui figura central, como é isso agora. Dá um pouquinho de medo, um pouco de receio, mas eu vou encarar numa boa."

É nesse discurso, adianta, que pretende recusar o tom protocolar esperado do gênero. Promete falar da própria origem humilde e declarar-se defensor das causas antirracista e indígena, além do direito de cada pessoa escolher livremente quem é. Sinaliza também que abordará publicamente um capítulo até aqui reservado à esfera privada.

"Vou falar coisas que nunca vi ninguém falar lá. Não tem jeito, não tem como não falar. Fui criado vendo um padrasto bater na minha mãe, com pai ausente. Então eu tenho muito argumento para usar que os outros não usaram. Eu vou usar."

O que a escrita tirou

Perguntado sobre o preço desse ofício, André Alvez não hesita.

"Já me tirou muito, já me tirou o sossego. Escrever é pensar, pensar, pensar até machucar. Às vezes você podia estar tranquilo: vou assistir um filme, vou tomar um banho, vou ficar olhando para o céu. Quem escreve não tem essa comodidade, não tem esse direito. Mas, no fundo, eu nunca quis ter esse sossego, não. Eu sou escritor."

Sem o sarcasmo que cultiva, especula, talvez restasse apenas Vladimir de La Mancha, como se a ironia fosse, mais do que estilo, a própria condição de existência do autor. Sobre a cidade que o formou, mantém a mesma fidelidade categórica que já demonstrara ao falar da Serra de Maracaju: diz querer morrer sem jamais ter deixado Campo Grande, ligando o próprio fim, ainda que em termos que preferiu não detalhar por completo, à Esplanada Ferroviária onde lançou seu último livro. E sobre o silêncio, ele é categórico: nunca escreveu um, porque o seu, ao contrário do que a palavra sugere, é sempre barulhento.

"O meu silêncio é barulhento. Tem barulho, tem vento, principalmente o vento."

É esse escritor, desconfiado de solenidades, fiel a uma cidade da qual não se afasta, movido por um ruído que confunde com inspiração, que agora se prepara para ocupar, entre paredes que por décadas resistiu a habitar, uma cadeira vitalícia. Não há nisso ironia maior do que a que ele mesmo já pratica sobre si.

1 comentário


SILVIO SOUZA
SILVIO SOUZA
07 de ago.

André, ser um membro da ASL é assumir o reconhecimento alheio e o compromisso de honra-lo produzindo mais e melhor. É continuar inquieto como o vento. Parabéns por essa honrosa conquista!!!!?

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