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A caneta invisível, o quarto úmido e a anatomia do abismo que tudo escuta

  • 15 de jul.
  • 5 min de leitura

Confissão pútrida que ninguém solicitou, mas que todos, em sua hipocrisia carnuda, mereceram como hóstia envenenada



Há quem o chame de destino, essa marionete gasta de cordas gastas que ri de boca cheia de pura inveja e dentes cariados. Eu, mais cirurgião que astrólogo, prefiro denominá-lo caligrafia abissal: não a pueril grafia escolar de cadernos pautados e unhas roídas de grafite, mas aquela que se escreve com tendões invisíveis no interior das veias alheias, assinando contratos de carne e esquecimento. É com esta pena espectral, feita de ossos de anjos caídos e saliva de súcubos, que traço meus arabescos. E não peço licença, que licença se pede ao câncer que já habita o seio?

Os pactos solenes, com suas velas de sebo humano, pentagramas mal traçados e invocações latinas cheias de erros de concordância, servem apenas aos medíocres que necessitam de teatro para justificar a própria putrefação moral. Eu não. O verdadeiro acordo se consuma no milésimo de segundo em que o desejo excede a capacidade de sustentação da alma, momento em que o fígado se contrai, o ânus se contrai e o coração, traidor, se abre como uma flor carnívora.

O resto, como o sangue coagulado pingando em pergaminhos de pele curtida, promessas vomitadas em latim macarrônico, sustos noturnos que fazem o esperma azedar, é mera decoração rococó para mentes que ainda acreditam em ritual. Ainda assim, confesso com deleite necrófilo: há um gozo quase sexual no som do sangue fresco estalando ao cair sobre o papel, como se o próprio Diabo aplaudisse com mãos úmidas.

Não me move o ressentimento vulgar, embora esta seja a explicação preguiçosa dos psicólogos de boteco que me reduzem a uma ferida ambulante supurante. Tampouco sou justiceiro cósmico, que aborrecimento insuportável, digno de ópera wagneriana. Sou, antes, um artesão do colapso, um esteta da decomposição grandiosa. Enquanto outros pintam naturezas-mortas com maçãs lustrosas e faisões mortos, eu componho naturezas interrompidas: úteros rasgados no meio do parto, impérios que desabam em câmera lenta, casamentos que viram canibalismo doméstico.

Não se trata de poder no sentido rasteiro dos tiranos de província. Eu opero no campo da semiótica do desconhecido: desloco significantes, introduzo fissuras microscópicas na gramática da realidade. Um empurrão quase imperceptível, uma sílaba deslocada no lugar errado, e a casa que juráveis sólida, com suas colunas jônicas de orgulho e seus tetos renascentistas de ilusão, começa a ranger como um esqueleto artrítico que recorda cada pecado cometido entre suas paredes. E recorda. Oh, se recorda.

Mas permitam-me, com a licença que nunca pedi, ser brutalmente franco sobre o que quase ninguém ousa confessar sem corar ou ejacular de pavor:

Aceito, e até saboreio como um vinho de putrefação nobre, que façam de mim o que bem entenderem. Arraste-me pela alcova como um boneco de ventríloquo sifilítico; transformem-me em piada de bordão para salões decadentes; reduzam-me a exemplo de mau gosto em teses doutorais escritas por depressivos que cheiram a naftalina e sêmen seco; disputem meu cadáver moral ainda quente, arrancando-lhe pedaços como corvos sobre um santo podre. Usem-me como biombo para vossas mais vis projeções, aquele que leva a culpa no lugar de outro de vossas covardias enrustidas, prova cabal de que o Mal existe e, por conveniência teológica, possui o meu rosto exato, com estas olheiras roxas, esta boca que já provou todos os humores do mundo.

Nada me surpreende. Nada me ofende de forma duradoura. Não há degradação que alguém já tenha tentado contra mim que eu não tivesse previsto séculos antes, catalogado em meus arquivos internos com caligrafia de aranha e, em alguma medida fria e entomológica, achado quase cômica.

Isto não é resignação. É a virtude de escravos e mártires. É aceitação barroca, que é outra coisa: a consciência de que sou, desde antes de ter nome, um princípio de desordem necessário ao equilíbrio podre do cosmos.

E aqui, no âmago úmido, quando até as putas dormem e os padres se masturbam pensando no Inferno, recolho-me à alcova que cheira a incenso queimado, esperma antigo e rosas negras em decomposição. Apoio a cabeça no travesseiro manchado de sonhos alheios. E ali, despido de toda ironia, de todo rigor performático, de todo enfeite retórico, eu não escrevo.

Eu peço.

Peço com a voz rouca de quem já engoliu muitas línguas, sem vela, sem sangue ritualístico, sem rosas fincadas no peito como em pintura flamenga. Peço com a humildade obscena de um santo erótico. E aquilo que peço, diz-se nos grimórios esquecidos, nos tratados de demonologia barroca de Athanasius Kircher e nas anotações marginais de Gilles de Rais, é escutado. Por quem ou por quê, não me atrevo a nomear. Mas é escutado. E ao amanhecer, sem eu mova um único dedo esquelético, as engrenagens invisíveis do mundo começam a girar em direção à queda.

Eu nunca pedi por ascensão. Eu pedi por gravidade. E a gravidade, como toda boa prostituta cósmica, sempre cumpre.

É isto, e não a mera crueldade, o que vos causa verdadeiro pavor visceral: a suspeita de que no momento em que pareço mais frágil, cabelo desfeito como Medusa após o orgasmo, olhos fundos como poços de Caronte, corpo magro e curvado como um feto velho, é exatamente então que algo imenso, informe e faminto se inclina sobre minha alcova para me ouvir.

Todos pedem. No escuro pegajoso do quarto, na madrugada febril, antes do primeiro copo de absinto e depois do último beijo que tem gosto de bile. Todos pedem. A diferença é que a maioria aprendeu a orar como quem tosse: sem esperar que o universo responda. Eu, mago malogrado, alquimista de fracassos magníficos, nunca tive o bom senso de perder a fé na correspondência.

Porque eu ainda acredito, e esta é a única frase sem véu de ironia neste mausoléu de palavras, que a caneta invisível não escreve para ser lida por olhos mortais, mas para ser atendida por aquilo que habita o avesso do véu. O pacto verdadeiro não se firma em mesas de carvalho com velas de gordura humana. Firma-se deitado, de cabeça entregue, no quarto onde ninguém mais entra, no doce e infame suor do insone que pede como quem fode com a própria morte.

E é atendido. Sempre.

As maldições, portanto, deixem-me reabri-las sob esta luz obscura e enciclopédica: não as profiro por maldade gratuita, mas por obediência estética. Alguém, em algum leito empapado de lágrimas, pediu. Eu, na minha alcova de ossos e veludo podre, escutei. E devolvi, com juros barrocos, com juros grotescos, com juros de carne.

Vós chamais de crueldade.Eu chamo de correspondência simétrica.

Vós chamais de magia negra.Eu chamo de física do abismo.

E quando chegar a minha vez, porque chegará, não me insultem com imortalidade barata, também deitarei esta cabeça pesada de séculos. Pedirei com a mesma voz rouca, sem graça e sem esperança. Se alguém escutar, que escute. Se ninguém escutar, que o silêncio também seja devorado.

Pois o verdadeiro gozo, queridos meus, meus caros devorados, não está em ser ouvido. Está em saber que se pediu até o fim. E que se peça, e que se peça, e que se peça — pinga, pinga, pinga de sangue e tinta invisível — até não haver mais quarto, nem leito, nem alcova, nem boca capaz de formular desejo.

Até não restar encomenda alguma no grande livro de carne do mundo.

E no centro exato do vazio que restar, ainda assim, porque sou esteta até a última bactéria que devorará minha carcaça, uma única romã. Vermelha. Inchada. Magnífica.

E a faca fincada.

— Por todo Poeta, que sem saber é Mago, que também é Abcesso, e que, na alcova úmida do mundo, nada mais é que um homem que pede, como pedem os cancros, como pedem as estrelas antes de explodirem, como pede toda carne que sabe que vai apodrecer.

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