Rio Paraguai de Claudia Finotti
- 2 de jul.
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Há rios que transportam embarcações. Outros carregam memórias, culturas e gerações inteiras. Poesias que encontam.

Após sua passagem pelo MS Poetar em uma conversa sobre literatura, memória e pertencimento, Cláudia Finotti retorna agora pelas águas de sua própria poesia.
Em “Rio Paraguai”, a autora transforma o principal eixo hidrográfico do Pantanal em personagem, testemunha e guardião da história sul-americana. O poema percorre territórios indígenas, sítios arqueológicos, batalhas, fronteiras e paisagens que moldaram a identidade de Mato Grosso do Sul, compondo uma verdadeira cartografia afetiva do rio que une povos, culturas e nações.
Mais do que uma celebração da natureza, o poema resgata memórias ancestrais, reflete sobre resistência cultural e reafirma o Rio Paraguai como símbolo de vida, abundância e permanência. Um convite para navegar pelas águas profundas da história pantaneira, à voz poética de Cláudia Finotti.
RIO PARAGUAI (Cláudia Finotti) Do útero quente e fértil da Serra dos Parecis nasce o 4º. curso d’água mais longo da América do Sul. Rio Paraguai, que em Guarani significa: Rio dos Paiaguás, povo nativo que habitava suas margens largas e adornavam suas cabeças com cocares e penas de papagaios. Sua geografia desenha a Tessitura viva que ainda ressoa um grito bravio e forte abraçado pelo Tempo de mais de 15 etnias registradas por Cabeza de Vaca hoje, extintas, engolidas pelas margens da história... Onde sítios Arquelógicos debruçam sobre Eras encharcadas pelo Mar de Xaraiés. Um fio tênue e mágico sustenta culturas que ainda ecoam seu canto primitivo, como um lamento marginal unindo o visível ao intangível ancestral… É a Digital do Criador. O UNO projetando-se no espelho múltiplo da criação ! Rio Paraguai, de águas escuros e profundas banhando-nos em seus infinitos mistérios e grandezas desse Arquétipo Inefável em absoluta força e ação ! A Natureza da matéria se dissolve em Sua Essência Sagrada misturando-se nas areias do Rio Paraguai em completa comunhão no retorno ao Berço do Mundo. Eixo horizontal que atravessa a periferia do Tempo em memórias ancestrais onde Corumbela se faz Presente recontando nossa própria história anunciando ao mundo e a toda essa “Brava Gente” ! Camalotes pintam as águas do Rio Paraguai de Verde Bandeira, onde índios Guató singrando nos corixos e brejos colhem as farturas das cheias em canoas de um pau só. Chalanas, sobem e descem esse longo rio, abraçado pelo Cerrado transportando todo tipo de gente e mercadorias. Paraíso a contemplar, num pôr-do-sol que derrama uma palheta inteira de cores em suas águas barrentas como telas de Caravaggio iluminando a face pálida de Narciso refletida nas suas plácidas águas. Ou, simplesmente registrando, habilmente a beleza eloquente do ecossistema que canta e declama com magistral brilhantismo as músicas, lendas e folclore num ciclo que encanta e nunca ACABA na voz primitiva e original dos Canta-Dores do Pantanal. Rio Paraguai, que banha o colosso do Amolar profetizando mistérios ainda por desvendar… Que vislumbra o nascente do Sol ardendo e soprando calor aos altivos carandás que se erguem soberanos em meio a charcos, tuiuiús e água-pés. Qual bandeiras verdes agitadas sinalizando resistência às queimadas anunciando o porvir da Esperança Porto, que renasce das cinzas brotando das cheias do Rio Paraguai. O protagonismo do Rio Paraguai na Guerra da Tríplice Aliança e na resistência do Forte Coimbra pela “Liberdade de Navegar” em suas profundas águas me faz pensar na relevância sociopolítica que fundamenta a sua importância como rota hidrográfica na exploração da exuberante e rica América do Sul. Rio Paraguai, que segue lambendo fronteiras inteiras: Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina desaguando, finalmente como majestoso afluente do Rio Paraná próximo à cidade de Corrientes dos charruas hermanos, argentinos. Rio Paraguai, suas águas fertilizam campos e sonhos, sustentam Nações, unem culturas e projetos em um Bioma pungente e poético em prol da vida e, Vida em Abundância !

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