Lalesca Martins Belgara
- Vinícius Guarani

- 5 de ago.
- 8 min de leitura
A poesia como ato de reivindicação

Lalesca Martins Belgara nasceu em Portelândia, no sudoeste de Goiás, cidade de pouco mais de três mil habitantes na fronteira simbólica entre o cerrado goiano e o Centro-Oeste que o MS Poetar reivindica como território editorial. É enfermeira de profissão, e escreve poesia como quem pratica um segundo ofício de cuidado, este dirigido a si mesma. Carrega mais de duzentos poemas escritos, parte publicada no perfil Poemas da La, e organiza atualmente seu primeiro livro, reunindo mais de cem textos.
A poesia de Lalesca não busca o verso hermético nem a filiação a escola literária declarada. Trabalha no registro da autodeclaração, do exorcismo pessoal posto em linguagem, da lista que vira litania. É poesia de quem escreve para se reconstituir em público, e isso tem tradição, ainda que a autora não a reivindique diretamente: a linhagem de vozes femininas que usam o poema como instrumento de autoafirmação diante de estruturas de silenciamento, de Adélia Prado a Ana Cristina Cesar, cada uma a seu modo.
Os três poemas selecionados para esta primeira publicação no MS Poetar formam um arco. "Gastropode" trata do recolhimento como direito, não como fraqueza, usando a imagem do casco e da toca para defender o isolamento voluntário diante de um mundo que cobra sorriso constante. "8 de Março" enumera, quase em cadência de protesto falado, as exigências contraditórias impostas às mulheres, culminando numa virada de afirmação. "Inteira" fecha o conjunto com o registro mais ritual dos três, a autora se declarando livre de vínculos de posse através de repetição quase incantatória.
Publicamos os três a seguir, na íntegra, exatamente como Lalesca os escreveu.
Gastropode
Às vezes, a chuva lá fora é tão forte que o quarto se torna casa, e o cobertor, mansão. Porque, às vezes, a tempestade aumenta, e fechar a porta é uma opção. Porque o inverno dói tanto, e sentimos saudades do sol. Daquela primavera bonita, cheia de cores e sorrisos. Lá dentro do quarto (caixinha), tudo some. Adeus à tristeza lá fora. As pessoas, a solidão, as tristezas e as ilusões. Porque lá fora há cobranças: Onde está a menina que sorria? Como se ela não pudesse chorar. Não condeno os moradores da caverna... Ela pode ser sombria, mas é acolhedora. Ela pode ser reclusa, mas é confortável. Na caverna, ou toca, ou quarto, você não cai. Você não sai. Não te empurram. É o seu momento. Seu palácio. Seu lamento. Seu precipício. Seu hospício. Sua festa. Seu epitáfio.
Minha proteção. Sem opiniões que não pedi. Sem tarefas que não quero fazer. Sem expectativas que não mandei ninguém alimentar. Lá é o casco da tartaruga. O buraco da formiga. A casa do caramujo. É o seu mundo... Até que alguém bata à porta e peça para entrar. Ou, na pior das hipóteses, mande você sair.
8 de Março
Ela não pode ser masculina. Dona do seu próprio nariz, da sua própria opinião. O papel que lhe dão: recatada e do lar. Se for nossa colega de trabalho, tudo bem, mas vamos desrespeitá-la.
Não pode ser guerreira e exteriorizar sua luta com palavras de bravura, senão os machos se ofendem. Mas também não pode mostrar sua fragilidade, ou então irá ouvir: "Faz drama não, princesa." Mulher é tudo vagabunda. Puta. Aproveitadora. Interesseira. Menos a sua mãe, que merece ser beatificada e te gerou pelo Espírito Santo.
Mulher é tão boa que muitos não querem apenas uma. Afinal, isso infla o ego masculino e ressalta sua virilidade. Mulher é gostosa, a da rua. A de casa, não. Essa já foi conquistada. Mulher é boa, a dos outros. A minha não merece ser amada.
Mulher é boa para usar e desaparecer ou para aparecer quando convém. Mulher é boa, e sua amiga também. Mulher que sangra todos os meses, que se contorce de dor, que chora. Isso não nos interessa. Queremos seus sorrisos e seus períodos férteis. "Toma, mulher, uma flor, para desculpar quando causei-te dor." Ser mulher é padecer no paraíso, porque a culpa é da Eva. E sempre irão nos culpar. Apanhou porque merecia. Engravidou porque estava querendo.
Foi violentada porque insinuou. "Mas também, com essa roupa, né?" "Deixa esse cabelo grande." "Tira essa saia curta." "Não gosto dessa cor de unha."
Uma mulher solteira que vive como solteira? Não. Essa não é para casar. "Só ficamos e agora quer namorar? Emocionada!" Lavar, cozinhar, passar? Coisa de mulherzinha.
Pré-requisito: que não fale muito, mas também que não cale demais. Que tenha opinião, mas que sempre valide a do homem. Afinal, o homem está certo. Pague uma cerveja e ache que tem acesso ao seu corpo. Pague as contas da casa e diga que a sustenta. Ache uma mulher com filhos e diga que não tem valor, apesar de ter sido um homem quem a deixou.
Ei, você é maravilhosa, e não porque ele te disse. Você é poderosa, e não apenas pelo prazer que pode proporcionar. Você é incrível porque é um projeto de Deus, e não pelas curtidas masculinas em suas fotos. Você é divina. És feminina, mesmo levantando e indo à luta. Aliás, isso é ser mulher: extremamente forte e verdadeiramente frágil. Da mulher vêm o cuidado, o carinho, o amor e a paz. E, quando tudo estava feito, faltou algo perfeito. Sentiu-se saudade sem ela sequer existir. E Deus fez a mulher. Feliz Dia das Mulheres.
Inteira
Assumi o peso da culpa pelos estragos do meu uso indesejado, do meu uso desejado por mim. Assumo a culpa de ter sido dada como sem valor, por ter me colocado nessas situações. Hoje, me desvinculo de tudo aquilo que não estava no meu controle.
Me desvinculo de qualquer força espiritual ou sexual (a mesma coisa) que me prenda a outrem. Me declaro completa, inteira e íntegra para mim mesma. Me declaro pura. Me declaro limpa. Limpa de sentimentos de posse, de possessão e de dependência.
Me declaro livre. Livre para mim ou para quem queira viver a liberdade do meu ser. Me declaro templo, para receber somente quem sabe adorar. Me declaro minha e d'Ele (o Pai). Me declaro mulher: mulher imperfeita, vivendo seus processos de cura e não a fim de me reter em alguém.
Declaro não ter medo de me entregar àquilo ou àquele que o Universo me trouxer. Me declaro um ser lindo (pois sou). Sensual e espiritual. Sexual e divino. Intenso e imenso. Pura vibração. Intensa força. Me declaro completa. Me declaro próspera. Me identifico como atraente e sorridente. Declaro que aceito apenas a dependência que vem do Eterno.
O restante eu externo, eu expulso, eu repilo, eu escarro, eu excreto, eu desisto. Aceito o eu como divina mulher. Divina luz. Divino poder. Feita d'Ele para as criaturas d'Ele, mas para sempre minha.
Depois de publicar Gastropode, 8 de Março e Inteira, cabe uma leitura mais detida sobre o que esses três poemas fazem, em conjunto, e onde a poesia de Lalesca Martins Belgara se posiciona dentro de uma tradição maior de escrita feminina que usa o verso como instrumento de reconstituição do eu
Os três poemas publicados formam, lidos em sequência, uma trajetória com lógica interna clara: recolhimento, denúncia, reconstituição. "Gastropode" fecha a porta. "8 de Março" abre a boca. "Inteira" reergue o corpo. Não é acidente de seleção, é o desenho de um sujeito lírico que atravessa três estados sucessivos de uma mesma crise, do isolamento protetivo à fala coletiva, da fala coletiva à autoafirmação individual.
A imagem como abrigo, não como ornamento
"Gastropode" trabalha com um recurso simples e eficaz: a metáfora do animal com casca (tartaruga, formiga, caramujo, o próprio gastrópode do título) como figura para o quarto fechado. É um poema que resiste à tentação, comum na poesia confessional contemporânea de circulação em redes sociais, de acumular metáfora sobre metáfora sem sustentar nenhuma até o fim. Aqui a imagem do casulo protetor atravessa o texto inteiro sem se dispersar, e o poema ganha força justamente na recusa de pedir desculpa pelo recolhimento: "você não cai. Você não sai. Não te empurram." O verso funciona por acúmulo rítmico, quase litânico, técnica que Lalesca repete nos outros dois poemas e que parece ser a assinatura mais reconhecível de sua escrita.
Vale registrar uma tensão que o próprio poema abre e não resolve, e não precisa resolver: o mesmo espaço que protege ("Ela pode ser sombria, mas é acolhedora") também é descrito como "hospício" e "epitáfio", palavras que carregam peso muito mais grave do que simples recolhimento voluntário. O poema não distingue claramente entre o autocuidado saudável de fechar a porta por um tempo e um isolamento que já dói o suficiente para ser nomeado com vocabulário de internação e morte. Essa ambiguidade pode ser lida como densidade poética deliberada, ou como um ponto que uma revisão editorial futura, se a autora quiser aprofundar o poema para o livro, valeria a pena explorar com mais precisão: qual dos dois está sendo descrito, ou os dois ao mesmo tempo, e o que isso significa.
A lista como forma de protesto
"8 de Março" é o poema mais ambicioso tecnicamente dos três, porque abandona o verso curto em favor do parágrafo em prosa poética, construído por acúmulo de frases curtas entre aspas, vozes alheias citadas e imediatamente respondidas. É uma estrutura que tem parentesco de família com a tradição de poesia-manifesto, a enumeração que vira denúncia pelo simples empilhamento de exemplos, técnica que aparece em nomes tão diversos quanto Walt Whitman e, mais perto de casa, em poemas de protesto da própria tradição brasileira contemporânea de poesia falada. Lalesca usa a estrutura para expor, sem comentário direto, o duplo padrão que organiza o julgamento social sobre mulheres: a mesma frase, a mesma acusação, servindo para condenar de dois lados opostos ao mesmo tempo. "Foi violentada porque insinuou" é o verso mais duro do conjunto, e funciona exatamente porque o poema não explica a ironia, apenas a expõe.
A guinada final do poema, do catálogo de acusações para a afirmação direta ("você é maravilhosa, e não porque ele te disse"), é o ponto onde o texto corre mais risco. A virada é abrupta, quase um poema diferente colado ao final do primeiro, e o registro muda de denúncia afiada para linguagem mais próxima do gênero autoajuda espiritual, incluindo o fechamento com "E Deus fez a mulher. Feliz Dia das Mulheres." É uma escolha legítima, a autora tem trajetória e vocabulário próprio de espiritualidade que atravessam toda sua obra, mas o contraste de registro entre a primeira parte, mais cortante, e a segunda, mais confortadora, é a característica que mais distancia este poema de uma tradição de poesia de protesto mais seca, e mais perto de um gênero de texto motivacional que circula amplamente em redes sociais. Não é um defeito, é uma escolha de tom que vale a autora ter clareza de que fez.
O ritual da autodeclaração
"Inteira" é o poema mais unificado estilisticamente, porque sustenta do início ao fim a mesma estrutura anafórica: "me declaro", repetido como fórmula quase jurídica ou religiosa. É a técnica mais antiga da poesia de autoafirmação, a repetição como conjuro, presente desde salmos até a poesia contemporânea de cura pessoal. O poema ganha quando a lista de declarações vai se acumulando em contradição produtiva, "completa" ao lado de "próspera" ao lado de "atraente", misturando registro espiritual, erótico e de autoestima sem hierarquia entre eles, como se o eu do poema recusasse escolher entre ser sagrado ou ser desejável, entre pertencer a si mesma ou pertencer ao Eterno.
Onde essa poesia se situa
Lalesca escreve dentro de uma linhagem reconhecível: a poesia de mulheres que usa o verso, ou o parágrafo poético, como espaço de reconstituição depois de dano, presente com grande força na produção que circula em redes sociais brasileiras na última década, e que tem antecedente mais distante numa tradição de poesia confessional que vai de Adélia Prado a Ana Cristina Cesar, cada uma com seu próprio vocabulário de intimidade elevada a matéria pública. O que distingue a escrita de Lalesca dentro dessa linhagem é a mistura, sem hierarquia nem constrangimento, entre linguagem espiritual cristã, vocabulário terapêutico contemporâneo e imagem da natureza, uma combinação que reflete honestamente a bio que a própria autora oferece: enfermeira, espiritualista, escritora, três identidades que os poemas não tentam separar.
É poesia que ainda está se formando, no sentido mais literal: a própria autora descreve seu primeiro livro como projeto em organização, mais de cem poemas ainda por selecionar e ordenar. Os três textos publicados aqui mostram uma voz com imagem consistente, ritmo próprio reconhecível, e disposição de tratar tema difícil sem filtro protetor. O trabalho que resta, para quem organiza um primeiro livro, é decidir com mais rigor onde cada poema quer terminar, se na denúncia seca ou no consolo, porque os dois registros convivem nos textos de Lalesca sem ainda estarem plenamente reconciliados, e essa reconciliação, ou a escolha consciente de não reconciliar, é provavelmente o próximo passo do amadurecimento dessa escrita.



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