A porta que Rachel de Queiroz abriu, e o que ela decidiu fazer depois de atravessá-la
- Vinícius Guarani

- 4 de ago.
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Há 49 anos, em 4 de agosto de 1977, a Academia Brasileira de Letras elegia sua primeira mulher em oitenta anos de existência. A história dessa eleição é menos uma história de consenso do que parece, e a trajetória política de quem a protagonizou complica qualquer leitura fácil de heroísmo

Em 4 de agosto de 1977, oitenta anos depois de fundada, a Academia Brasileira de Letras elegeu sua primeira mulher. O nome era Rachel de Queiroz, cearense, 66 anos, autora de "O Quinze" havia quase meio século. A votação não foi unânime nem simbólica: ela venceu o jurista Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda por 23 votos a 15, com um voto em branco, disputando a cadeira número 5, vaga aberta com a morte de Cândido Mota Filho.
O detalhe que costuma sumir das efemérides é que essa eleição só foi juridicamente possível um ano antes. Até 1976, o artigo 17 do regimento interno da ABL restringia a candidatura a "brasileiros do sexo masculino". A instituição fundada em 1897 levou 79 anos para admitir, em texto de lei, que uma mulher pudesse disputar uma cadeira. Rachel não foi eleita apesar de uma regra sexista: foi a primeira a poder concorrer depois que a regra caiu.
Uma escritora antes de qualquer título
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910, numa família que a levou ainda criança para uma fazenda no interior do Ceará e, depois, para o Rio de Janeiro, fugindo da seca que castigava o Nordeste desde 1915. Publicou "O Quinze" em 1930, aos 20 anos, romance sobre a mesma seca que sua família havia atravessado. O livro venceu o prêmio da Fundação Graça Aranha e a colocou, ainda muito jovem, entre os nomes que definiriam o romance social nordestino ao lado de Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
Ao longo de mais de sessenta anos de carreira, escreveu mais de vinte livros, atuou como jornalista, tradutora e dramaturga, e publicou em 1992, aos 82 anos, "Memorial de Maria Moura", adaptado depois em minissérie de sucesso pela Rede Globo. Em 1993 tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, a mais alta honraria da língua portuguesa.
A trajetória que a leitura comemorativa costuma simplificar
Aqui está o ponto que este texto não vai suavizar, porque suavizar seria transformar uma figura histórica complexa em ícone de vitrine.
Rachel de Queiroz teve, na juventude, militância no Partido Comunista Brasileiro nos anos 1930, foi presa pela polícia de Getúlio Vargas em 1937 e rompeu com o partido ainda naquela década. Décadas depois, sua trajetória política deu uma volta completa: em 1964 apoiou publicamente o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, e naquele mesmo ano tornou-se representante brasileira na ONU, em plena articulação do novo regime.
Isso não é uma nota de rodapé que se possa esconder atrás do feito de 1977. É parte da mesma pessoa que, treze anos depois de apoiar um golpe contra a democracia, se tornaria símbolo de abertura institucional para as mulheres dentro de uma das casas mais conservadoras do país. A biografia de Rachel de Queiroz resiste a qualquer narrativa de progresso linear: ela foi, ao mesmo tempo, pioneira de um avanço e apoiadora de um retrocesso, e as duas coisas precisam ser ditas juntas para que a homenagem não vire hagiografia.
Vale registrar também outro gesto de sua trajetória, menos comentado: convidada pelo então presidente Jânio Quadros para assumir o Ministério da Educação, recusou o cargo com uma frase que resume bem seu temperamento público. Disse que era apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista.
Uma porta, não uma solução
O acadêmico Arnaldo Niskier registrou que Rachel contou, à época, com o apoio direto de Austregésilo de Athayde, presidente da ABL entre 1959 e 1993, decisivo para viabilizar sua candidatura dentro de uma casa até então inteiramente masculina. Tomou posse formalmente em 4 de novembro de 1977, na cadeira de patrono Bernardo Guimarães, onde permaneceria até sua morte, em novembro de 2003.
A porta que ela abriu não se abriu de par em par. Em 1980, a romancista Dinah Silveira de Queiroz foi eleita para a cadeira 7, tornando-se a segunda mulher na Academia. Passados quarenta anos da eleição de Rachel, um levantamento de 2017 contabilizava apenas oito mulheres entre os imortais da casa, num total de quarenta cadeiras. A pesquisadora Cleudene Aragão resumiu o fenômeno de forma direta: o mesmo mundo que produz menos parlamentares, juízas e CEOs mulheres também produz menos acadêmicas, porque segue sendo, em suas palavras, um mundo governado por homens.
A boa notícia, e é justo fechar com ela, é que essa porta segue sendo atravessada. Em 2025, quase meio século depois de Rachel, Ana Maria Gonçalves tornou-se a primeira mulher negra eleita para a ABL em seus 128 anos de história, marco que este próprio veículo já registrou em outra pauta. A linha entre as duas eleições, 1977 e 2025, mede o tamanho do problema que uma única entrada, por mais histórica que seja, nunca resolve sozinha.
Hoje, 4 de agosto, marca 49 anos da eleição de Rachel de Queiroz. Comemorar essa data com honestidade significa reconhecer o tamanho do gesto sem transformar a mulher que o protagonizou em símbolo sem contradição. Ela teve as duas coisas: coragem de abrir porta fechada há 79 anos, e cumplicidade com um regime que fechou outras portas, mais graves, para o país inteiro.



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