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A árvore que não se dobra: como Marina Duarte desenha a resistência LBT em Campo Grande

Uma leitura semiológica de Vozes (In)Visíveis, quadrinho-reportagem que transversaliza dados de gênero, sexualidade e violência no Mato Grosso do Sul



Uma selfie descontraída de Marina Duarte, destacando sua expressão confiante e o cenário artístico ao fundo.
Uma selfie descontraída de Marina Duarte, destacando sua expressão confiante e o cenário artístico ao fundo.

Há um risco em todo texto que se propõe a falar sobre a obra de outra pessoa: o de, com a melhor das intenções, abafar a voz que deveria estar sendo amplificada. Este texto tenta o caminho inverso. Não é uma paráfrase de Vozes (In)Visíveis: relatos de resistência LBT em Campo Grande (MS) (Avuá Edições, 2025), nem um substituto para lê-lo. É uma tentativa de mostrar, com as ferramentas da análise editorial e semiótica, e com a própria voz da autora guiando parte do percurso, como Marina Duarte constrói uma linguagem visual capaz de fazer o que a reportagem tradicional, presa à objetividade positivista, tem dificuldade de fazer: transformar dado em corpo, e corpo em memória coletiva.

Marina assina o quadrinho como autora integral, texto e arte, com edição e consultoria artística de Fabio Quill. Ela também publicou, em coautoria com Guilherme "Smee" Sfredo Miorando, seu parceiro de trabalho e de pesquisa, o artigo acadêmico "Vozes (In)Visíveis: jornalismo em quadrinhos enquanto ferramenta de resistência", apresentado na 9ª Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, em agosto de 2025. É esse duplo movimento, o quadrinho que faz o trabalho de campo e o ensaio que teoriza sobre ele, somado a um relato de próprio punho que Marina gravou sobre o processo, que abre a possibilidade de uma leitura em camadas: o que a obra diz, como ela diz, e o que a autora diz sobre por que escolheu dizer daquele jeito.

Uma reportagem que se recusa a separar dado de corpo

O quadrinho nasce de uma decisão de método que Marina explica assim:

"O quadrinho vem e nasce exatamente dessa questão. Toda a proposta dele foi elaborada fazendo uma transversalização dos dados de violência contra mulheres [e] dos dados de violência contra a população LGBT", identificando a intersecção entre ser mulher e ser LGBT.

É por isso que o subtítulo usa a sigla "LBT" e não a completa: segundo ela, o recorte deixa de fora o G porque o foco do livro é o contexto da mulher dentro da sigla.

A dificuldade real de cruzar essas duas bases de dados, uma sobre gênero, outra sobre orientação sexual, raramente produzidas de forma compatível pelas instituições, também é tema explícito do livro, não apenas seu método de apuração:

"A minha ideia com o quadrinho foi transversalizar esses dados e inclusive abordar a dificuldade que a gente tem de transversalizar (...)."

O material de apuração aparece, deliberadamente, sem disfarce narrativo: páginas inteiras de levantamento bruto da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, cruzadas com pesquisas específicas sobre violência contra a população LGBT e dados de saúde mental. A essas bases, Marina soma uma clipagem original, comparando a cobertura de dois veículos de Campo Grande com linhas editoriais antagônicas, MídiaMax e TopMídia, um mais alinhado à direita, outro de perfil institucional. Sobre essa escolha, ela conta:

"A ideia era fazer um recorte em dois veículos de mídia que têm antagonia no seu recorte", para entender "como (...) as mulheres LGBT[,] estão localizadas nessas chamadas, nessas notícias."

Sobre essa base é que se apoiam as entrevistas, entre elas a de uma professora processada pela Secretaria Estadual de Educação por defender alunas trans e abordar a temática LGBT em sala. Como resume a própria autora:

"Todo o quadrinho ele é construído em cima desses dados e em cima das entrevistas com mulheres específicas da população."

O artigo acadêmico assinado com Guilherme "Smee" Sfredo Miorando nomeia essa operação com precisão: transformar a fonte em personagem para humanizá-la, um conceito de "personagem-fonte" que os autores retiram de Augusto Paim (2014) e que, no jornalismo em quadrinhos, ganha uma camada que a fotografia não tem, a da mediação gráfica deliberada de quem desenha.

Arquitetura: os três movimentos do livro

O quadrinho não é uma sequência de entrevistas soltas, é uma peça com arco.

O primeiro movimento é de contextualização política. Antes de qualquer fonte falar, Marina gasta um bloco inteiro de páginas situando o leitor no terreno: quatis e araras ocupando uma cidade que se vende como arborizada, a eleição entre Adriane Lopes e Rose Modesto e a "denúncia" de lesbianidade usada como arma de campanha, o Escola Sem Partido revogado em 2016, os dados brutos da Sejusp. Só depois disso a primeira fonte aparece. É a lógica clássica do jornalismo de dados aplicada à narrativa gráfica: contexto antes de rosto, para que a violência individual não pareça caso isolado, e sim padrão estrutural.

O segundo movimento é o corpo a corpo das seis entrevistadas, Daniele Rehling, Cris Stefanny e Tetê Costa, Karla Melo e Rebeca Pompílio, Loren Berlin. Cada bloco muda de registro visual e de escala temporal: a professora perseguida na escola é urgência recente, Loren Berlin, no fechamento, é história de vida longa, dos anos 1990 até hoje. O quadrinho caminha do particular mais agudo para o mais largo.

O terceiro movimento é o fechamento teórico-poético, a árvore, a leitura de Judith Butler, o retorno à árvore. Esse bloco não pertence nem ao dado nem ao relato: é a autora processando o que ouviu, primeiro dirigindo o carro, digerindo as entrevistas, depois sentada à mesa lendo Quem tem medo do gênero?. É o único momento em que o quadrinho assume abertamente que também é ensaio.

O que a página faz que a frase não faz

A paleta como argumento. O livro inteiro é impresso em duotone, azul-acinzentado sobre branco. A economia cromática produz um efeito de arquivo, o mesmo território visual dos boletins de ocorrência e das planilhas que a reportagem cita. É dentro dessa paleta fria que crescem as árvores, ganham voz os relatos e aparecem as araras entre os prédios: dado frio, vida quente, convivendo na mesma superfície.

A árvore como isotopia central. Da abertura, com a fauna ocupando uma Campo Grande "no coração do estado do Pantanal", ao fechamento, com o tronco cortado e depois florescendo sob chuva, a árvore atravessa o livro inteiro como figura de linguagem recorrente. Ela sustenta a frase que dá título a este texto, "às vezes penso que as mulheres são, para a sociedade, como as árvores", imprescindíveis para que o mundo funcione, mas cujos gritos ninguém escuta. O toco que ainda insiste em brotar e o galho que se dobra sem quebrar formam uma cadeia de sentido que substitui a alegoria abstrata por uma imagem concreta e recorrente.

A interface como denúncia epistemológica. Um dos achados mais interessantes do trabalho é o uso recorrente de janelas de sistema operacional, pastas, cursores, e sobretudo caixas de erro, "Erro 001: Lapso de dados", "Erro 002: Dados confusos", para desenhar o próprio processo de apuração. Não é ilustração decorativa, aparece duas vezes, em páginas diferentes, sempre com o mesmo layout de janela, barra de título, botão de fechar, cursor. Isso cria uma isotopia visual própria, paralela à da árvore: o computador e o arquivo como o outro território do livro, o da apuração burocrática que se recusa a fechar de forma limpa. É a reportagem admitindo, dentro da própria gramática visual, onde a informação institucional falha, onde o campo de identidade de gênero não bate com o campo de sexo biológico, onde a subnotificação distorce o que se pode afirmar.

A sequência do diretor. É a parte mais bem construída do livro do ponto de vista de tensão narrativa, no capítulo dedicado a Daniele Rehling. Marina usa três recursos em cascata: balões cortados no meio da fala do diretor, quadros mudos que registram só o silêncio da professora entrando na sala, e uma textura de estática, linhas verticais tremidas, atrás da fala "estou preocupado com você", marcando constrangimento e manipulação institucional sem precisar de narração explicando o que está acontecendo. É desenho fazendo o trabalho do subtexto.

Essa mesma sequência ganha um segundo momento de dramaturgia pura no telefonema do diretor com a mãe de uma das alunas. É a única cena do livro em que o antagonista aparece sozinho, sem nenhuma fonte no quadro, e ainda assim mente descaradamente, inventa um parentesco na Secretaria de Educação, cita um número de denúncia que não existe. Marina deixa o leitor ver a mentira sendo fabricada em tempo real, um momento que, pela própria natureza da cena, nenhuma das entrevistadas poderia ter testemunhado em primeira mão. Não há, nesta análise, confirmação de como a autora apurou esse diálogo especificamente; vale registrar a cena como reconstrução dramática, um recurso comum e legítimo no jornalismo narrativo, sem presumir o método exato por trás dela.

O retrato como recurso de credibilidade. Marina se desenha dentro da própria reportagem, ouvindo, dirigindo, digitando, lendo Butler à mesa. O artigo acadêmico chama esse procedimento de metalepse, a ponte entre o mundo da narrativa e o mundo de quem apura, e nota que ele funciona como "recurso à autoridade": ao aparecer como corpo queer dentro da própria pauta, a autora não apenas relata a vivência LBT em Campo Grande, ela a habita publicamente diante do leitor.

O humor como respiro. No capítulo com Tetê Costa, coordenadora da Subsecretaria LGBTQIA+, o argumento do adversário é virado contra ele mesmo: se só se aceita a heteronormatividade, a heteronormatividade já é a ideologia de gênero instalada. Marina ilustra isso com bonecos de giz de lousa fazendo contas, "homem + homem = lobisomem", "mulher + mulher = jacaré", identificando no rodapé que são expressões populares homofóbicas ditas por gerações mais antigas. É o único momento de humor ácido do livro, funcionando como respiro depois do peso das páginas anteriores.

A oralidade preservada como método. As falas de todas as entrevistadas chegam ao balão quase sem lapidação, com marcadores de oralidade como "né", "tipo", "assim" preservados. Essa escolha custa fluência de leitura em troca de autenticidade documental, o leitor ouve o timbre de cada uma, não uma versão editada para soar "jornalística". É a forma gráfica de cumprir o que Eliane Brum chama de olhar insubordinado, citado no artigo acadêmico como referência central: tirar o relato do lugar de conforto da terceira pessoa objetiva.

A metáfora do robô, no fechamento pessoal. Loren Berlin encerra o livro antes do fechamento coletivo da árvore, e a imagem que ela escolhe, "na rua, eu me sentia como um robô, meu eu verdadeiro estava escondido (...)", é a mais forte do livro fora da própria árvore, porque ecoa visualmente a paleta fria do quadrinho inteiro: o traço reto do robô contra o traço orgânico do resto do desenho.

Nenhum desses recursos existe isolado. Juntos, formam um sistema coerente em que a técnica visual carrega o argumento teórico do quadrinho, o de que existências mínimas (Lapoujade) e vidas precárias (Butler) só se tornam legíveis para uma sociedade quando alguém as figurativiza, e que o traço, por ser subjetivo por definição, consegue essa figurativização melhor do que a pretensa neutralidade fotográfica.

O que fica de fora, e isso também significa

O quadrinho não mostra nenhum agressor com rosto, exceto o diretor da escola. Os feminicidas, os assassinos de pessoas LGBTQIA+, ficam nos dados, nunca em personagem. É escolha coerente com o projeto teórico da obra, não humanizar quem já tem excesso de humanização institucional, mas também significa que a violência estrutural aparece mais nítida do que a violência interpessoal concreta, reforçada pelo fato de nenhuma das entrevistadas relatar, no material publicado, agressão física diretamente sofrida, apenas institucional e simbólica. Não é falha, é recorte: o livro escolhe mostrar como a violência letal, a que aparece nos dados, e a violência cotidiana, a que aparece nos relatos, se encostam sem nunca ocupar o mesmo quadro.

O que os dados dizem desde que o livro saiu

Vozes (In)Visíveis foi publicado em janeiro de 2025 com um retrato preciso, ainda que datado, da violência em Mato Grosso do Sul: o estado liderava, em 2023, o ranking per capita de assassinatos da população LGBTQIA+ do país, segundo o Observatório de Mortes e Violências LGBTI+; a própria Campo Grande, especificamente, era apontada como a segunda cidade brasileira em taxa de feminicídio.

Um ano e meio depois, o panorama estadual se moveu, e de forma desigual, com duas fontes oficiais que não coincidem entre si e por isso merecem ser apresentadas separadamente, não fundidas em um único número. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, que mede o intervalo 2024–2025, registrou 39 feminicídios em Mato Grosso do Sul contra 34 no ano anterior, alta de 10,5%, mantendo o estado entre os quatro com maior taxa do país, na contramão da média nacional. Já o Atlas da Violência 2026, do Ipea, que mede o intervalo anterior, 2023–2024, com metodologia própria, apontou uma alta ainda maior, de 48 para 57 casos, a segunda maior variação percentual entre os estados brasileiros. São dois retratos de dois períodos diferentes, não duas medições do mesmo ano, e ambos apontam para a mesma direção: piora, não estabilização. Casos como os de Vanessa Ricarte, jornalista morta a facadas em Campo Grande em fevereiro de 2025, e de Vanessa Eugênio Medeiros, assassinada junto com a filha de dez meses em maio do mesmo ano, sustentam esses números com nomes.

Do lado da LGBTfobia, os registros oficiais do estado caíram mais de 57% entre 2024 e 2025, segundo reportagem do site Gay1 baseada em dados policiais estaduais. À primeira vista, uma boa notícia. Lida ao lado do próprio quadrinho de Marina, porém, essa queda pede cautela antes de virar comemoração: é exatamente o tipo de sinal que as páginas de "Erro 001" e "Erro 002" da própria reportagem ensinaram a desconfiar. Subnotificação, mudança de critério de registro, ausência de campo padronizado para identidade de gênero, são explicações que a mesma reportagem menciona como mais prováveis do que uma melhora real nas condições de vida da população LBT sul-mato-grossense; esta análise não tem, até aqui, dado independente que confirme qual das duas hipóteses é a correta, e é importante dizer isso com todas as letras em vez de escolher a leitura mais confortável.

Essa é a leitura que uma reportagem posterior, ancorada nos mesmos métodos que Marina emprestou do jornalismo de dados, poderia aprofundar: comparar campo a campo os boletins de 2023 usados no livro com os de 2025 e 2026, refazer a clipagem do MídiaMax e do TopMídia para ver se o enquadramento das mulheres LBT mudou, e testar, com números atualizados, se a intersecção entre feminicídio e LGBTfobia que o quadrinho denuncia se aprofundou ou se diluiu no debate público estadual.

Devolver a voz, não substituí-la

Escrever sobre uma obra que já é, ela própria, um exercício de dar voz a quem o jornalismo tradicional costuma silenciar, exige uma disciplina específica: descrever a técnica sem arbitrar valor, mostrar o mecanismo sem se apropriar do relato. Vozes (In)Visíveis não precisa de um veredito de terceiros sobre se é "boa" ou "ruim". Precisa, isso sim, de mais gente lendo as entrevistas completas de Daniele, Cris, Tetê, Karla, Rebeca e Loren nas próprias páginas do livro, publicado pela Editora Avuá com apoio da Prefeitura de Campo Grande, da Lei Paulo Gustavo e do Ministério da Cultura, e do artigo acadêmico que Marina e Guilherme "Smee" Miorando escreveram para explicar, em termos teóricos, o que o traço já vinha fazendo sozinho.

A árvore do começo deste texto continua de pé, no papel e fora dele. O que ela pede não é aplauso, é atenção continuada aos dados que ainda faltam preencher.


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