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A Ética em Ruínas: Sobre a corrupção moral na literatura contemporânea

3 de jul.
4 min de leitura

Do cansaço existencial do Ocidente à ferida aberta da desigualdade no Brasil, a ficção dos últimos quarenta anos tem um traço em comum: a corrupção não é mais um acidente, é o que respiramos.


Detalhe de Ruína Brasilis, 2021. Foto: Diogo Barros.
Detalhe de Ruína Brasilis, 2021. Foto: Diogo Barros.

Há um certo conforto em pensar a corrupção como desvio, um ponto fora da curva, um vilão identificável, uma exceção a ser corrigida. A literatura contemporânea, brasileira e ocidental, recusa esse conforto. Desde as últimas décadas do século XX, romances e contos parecem ter chegado a um acordo tácito: a corrupção não é mais o acidente de percurso de uma civilização essencialmente saudável, mas o próprio tecido de que somos feitos. Não há mais vilão para apontar. Há, quando muito, um espelho.

Essa mudança de registro é o que distingue o presente de tudo o que veio antes. Porque a corrupção moral, é bom lembrar, é tema antiquíssimo. Platão já a via como doença da alma que se espalha para o corpo político; os romanos lamentavam a perda da virtus enquanto seus impérios apodreciam por dentro; a Idade Média a vestia de pecado e a Renascença, de hipocrisia clerical. Maquiavel separou a moral da política e, com isso, abriu uma ferida que jamais cicatrizou de todo. O decadentismo de fin de siècle — Baudelaire, Wilde, Huysmans — fez da própria putrefação um objeto de contemplação estética, quase um prazer culposo. Nietzsche, lendo tudo isso, diagnosticou o niilismo como destino do Ocidente. O modernismo de Kafka, Mann, Camus transformou a corrupção em absurdo existencial, em burocracia sem rosto, em culpa sem crime. Cada época encontrou sua linguagem para nomear a mesma suspeita: a de que algo, na civilização, está moralmente torto.

O que a literatura contemporânea acrescenta a essa longa genealogia não é a descoberta da corrupção, mas a sua dissolução no cotidiano. Ela deixou de ser acontecimento para tornar-se atmosfera. E é exatamente essa diferença de textura que salta aos olhos quando se atravessa, lado a lado, a ficção ocidental e a brasileira dos últimos quarenta anos.


Gustavo Speridião
Gustavo Speridião

No Ocidente, o sintoma mais agudo talvez seja o cansaço. Michel Houellebecq construiu uma obra inteira sobre a constatação de que a liberdade, levada ao extremo do individualismo hedonista, não liberta coisa nenhuma, apenas isola. Em As Partículas Elementares e em Submissão, seus personagens não são corruptos no sentido clássico do termo: não traem, não roubam, não cometem crimes evidentes. Eles simplesmente esvaziaram-se, e nesse esvaziamento mora uma corrupção mais profunda, filosófica antes de ética. A derrota silenciosa do projeto iluminista de emancipação pela razão. Cormac McCarthy, por sua vez, recusa esse tédio civilizado e vai buscar o mal em sua forma primal: a violência de Blood Meridian não precisa de motivo, e é justamente sua gratuidade que a torna assustadora, como se a moral fosse apenas um verniz fino sobre um abismo sempre disponível. Margaret Atwood, com O Conto da Aia, mostra a outra face da mesma moeda, não o vazio do excesso de liberdade, mas a corrupção cometida em nome da ordem, da pureza, de um bem superior que justifica qualquer crueldade. E há ainda uma geração mais recente, Sally Rooney, Ottessa Moshfegh, Zadie Smith, que desloca o problema para dentro das telas e dos relacionamentos: o moralismo performático das redes, o cancelamento como nova forma de linchamento simbólico, a virtude que se exibe sem se praticar. A corrupção, aqui, veste-se de retidão.

O Brasil conta essa história com outro sotaque, mais rente ao chão. Se a literatura ocidental contemporânea tende a filosofar sobre o vazio de sociedades que já resolveram, em tese, suas urgências materiais, a ficção brasileira segue obrigada a olhar para a ferida aberta da desigualdade, herança direta de um país que confundiu o público e o privado desde a colônia, diagnóstico que Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro já haviam formulado e que a literatura não cessa de reencenar. Há uma linhagem que poderíamos chamar de brutalista, formada por nomes como Rubem Fonseca, Luiz Ruffato e Marçal Aquino, na qual a violência deixa de ser exceção para se tornar estrutura: ela organiza famílias, atravessa periferias, dita os termos da sobrevivência. Não é o indivíduo que se corrompe diante do sistema, é o sistema que corrompe o indivíduo antes mesmo que ele tenha chance de escolher outra coisa. Ao mesmo tempo, autores como Milton Hatoum, Itamar Vieira Junior, Conceição Evaristo e Jeferson Tenório deslocam a discussão para as dimensões raciais, identitárias e de memória: a corrupção, para eles, não é só desvio de conduta, é a erosão da própria capacidade de narrar a si mesmo num país que historicamente negou voz a quem fala a partir da margem. A sombra longa de Clarice Lispector, que já no século passado havia transformado a corrupção em algo interior, quase metafísico, uma fragilidade do eu mais do que um desvio de caráter, continua a iluminar essa busca por uma ética que resista mesmo quando tudo ao redor sugere que ela é ingenuidade.

O que aproxima, afinal, esses dois mundos literários tão distintos em sotaque e urgência é a recusa compartilhada a oferecer redenção fácil. Não há mais heróis que restauram a ordem moral nem vilões que a destroem sozinhos, há personagens cinzentos, comprometidos com pequenas covardias cotidianas, tentando sobreviver dentro de estruturas que os ultrapassam: o capitalismo tardio, o algoritmo, o patrimonialismo histórico, a herança colonial. Essa é, talvez, a marca mais filosófica da literatura do nosso tempo, ela dialoga, ainda que sem nomear, com o fim das grandes narrativas que Lyotard anunciou, com a microfísica do poder que Foucault rastreou em toda instituição aparentemente neutra, com o niilismo que Nietzsche viu chegando de longe. A pergunta clássica “como combater a corrupção?” foi substituída por outra, mais incômoda: existe ainda algum chão ético estável sob nossos pés, ou tudo o que resta é negociar, dia após dia, pequenas integridades possíveis dentro de um mundo já estruturalmente corrompido?

Essa literatura não responde. E é precisamente aí que reside sua força. Ao recusar o consolo da denúncia clara e do vilão nomeável, ela nos devolve à própria cumplicidade, convida o leitor a se perguntar não apenas quem corrompeu o mundo, mas em que medida ele próprio, em suas escolhas miúdas, ajuda a sustentá-lo assim. Em tempos de polarização, de pós-verdade, de moralismo de palco, talvez seja essa a última função que resta à literatura: não consertar a consciência adormecida, mas incomodá-la o suficiente para que ela não esqueça que está dormindo.


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