Marilena Chaui contra si mesma
- Vinícius Guarani

- 5 de ago.
- 3 min de leitura
Uma leitura da estreia ficcional de Chaui a partir do conceito que ela mesma cunhou em 1981, e da teoria do espetáculo de Guy Debord

Fui à Livraria Leitura do Shopping Campo Grande outro dia, sem plano nenhum, e encontrei ali, numa vitrine entre perfumaria e fast fashion, Guerra Perfeita, romance de estreia de Marilena Chaui, escrito em coautoria com José Guilherme Souza Chaui Mattos Berlinck, publicado pela Planeta Minotauro, chegada prevista para junho de 2026, classificado pela própria editora como ficção científica. A sinopse oficial descreve uma guerra tão perfeita que não sobra espaço nem para a guerra em si, e pergunta o que acontece com aquilo que é lançado dentro dessa impossibilidade.
O conceito, com data e fonte
Chaui é professora titular de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP desde 1987, com doutorado sobre Espinosa defendido em 1971 e livre-docência em 1977, com a tese "A Nervura do Real: Espinosa e a Questão da Liberdade". O conceito central para este texto é o de discurso competente, formulado no livro Cultura e Democracia: o Discurso Competente e Outras Falas, publicado originalmente em 1981. A definição técnica, tal como consolidada na obra de Chaui e discutida por comentadores posteriores da sua obra, é a de que existem formas de linguagem institucionalizada, presentes na política, na mídia e nas ciências, cuja função estrutural é legitimar relações de poder e mascarar contradição social, convertendo desigualdade histórica em fato aparentemente natural. Um segundo livro da autora, "O Que É Ideologia?", publicado originalmente em 1980 pela Editora Brasiliense e já com mais de cem mil exemplares vendidos, trabalha a ideologia exatamente nesses termos: como filtro que naturaliza o ambiente em que vivemos, tornando invisível o próprio mecanismo de naturalização.
Debord, com data e fonte
A cena do encontro pede um segundo aparato teórico, externo ao repertório imediato de Chaui, mas argumentavelmente complementar. Guy Debord publicou La Société du Spectacle em 1967, obra na qual sustenta que, sob determinadas condições do capitalismo avançado, a vida social se organiza como acumulação de espetáculos, e a relação entre pessoas passa a ser mediada por imagens de mercadoria. Um livro de filosofia política exposto numa vitrine iluminada de shopping center, ao lado de produto de beleza e roupa de fast fashion, é uma ilustração relativamente literal dessa tese: o pensamento crítico se torna, antes de qualquer leitura, imagem de produto competindo por atenção num mesmo corredor comercial.
A aplicação conjunta dos dois aparatos, o de Chaui e o de Debord, produz uma leitura mais precisa da cena do que qualquer um dos dois isoladamente. O discurso competente de Chaui explica por que o espaço do shopping parece neutro, natural, quase invisível como decisão arquitetônica. A sociedade do espetáculo de Debord explica por que, dentro desse espaço, até o objeto mais crítico se converte em imagem antes de se converter em ideia.
Uma hipótese sobre a mudança de gênero
Chaui construiu carreira inteira no registro do ensaio filosófico e do conceito. A decisão de estrear em ficção científica aos 84 anos, em coautoria, permite uma hipótese que só a leitura completa do romance poderá confirmar ou refutar: o ensaio filosófico, por mais rigoroso, talvez já não consiga furar o próprio discurso competente que denuncia, porque o leitor treinado a reconhecer o gênero ensaio já sabe, de antemão, como se posicionar defensivamente diante dele, concordando ou discordando sem se deixar efetivamente perturbar. A ficção, por operar pela via da narrativa e não da tese, pode ter maior capacidade de produzir estranhamento genuíno. Essa é uma hipótese de leitura, não uma conclusão, e este texto a registra como tal, para verificação quando o romance completo estiver disponível.
Fechamento
Sou indígena urbano, do século XXI, e encontrei o livro de uma pensadora marxista octogenária dentro do espaço mais eficiente de naturalização do consumo que o capitalismo brasileiro contemporâneo produziu. Isso não desqualifica o pensamento de Chaui, confirma exatamente o diagnóstico que ela mesma formulou há 45 anos: nenhuma crítica escapa inteiramente do sistema que analisa, inclusive a crítica que a denuncia. A pergunta que fica, e que só a leitura integral do romance vai responder, é se a ficção consegue o que seis décadas de ensaio talvez já não consigam mais. Referências
CHAUI, Marilena. Cultura e Democracia: o Discurso Competente e Outras Falas. São Paulo: Moderna, 1981.
CHAUI, Marilena. O Que É Ideologia?. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980 (Coleção Primeiros Passos).
CHAUI, Marilena. A Nervura do Real: Espinosa e a Questão da Liberdade. Tese de livre-docência, USP, 1977.
CHAUI, Marilena; BERLINCK, José Guilherme Souza Chaui Mattos. Guerra Perfeita. São Paulo: Planeta Minotauro, 2026.
DEBORD, Guy. La Société du Spectacle. Paris: Buchet-Chastel, 1967 (edição brasileira: A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, diversas edições).



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