Quem tem nome no sertão de Guimarães Rosa
- Vinícius Guarani

- 5 de ago.
- 5 min de leitura
Uma leitura de Grande Sertão: Veredas a partir da crítica racial de Ronald Augusto, publicada em 2022 na Nau Literária, revista de estudos literários da UFRGS, e do conceito de direito à literatura de Antonio Candido

Grande Sertão: Veredas completou setenta anos em julho de 2026, lançado originalmente em 16 de julho de 1956. A Companhia das Letras publicou edição comemorativa de 608 páginas, novas traduções para o inglês e o alemão chegam em 2027, a alemã assinada pelo tradutor Berthold Zilly após quase quinze anos de trabalho. A cobertura institucional se concentrou, previsivelmente, na proeza formal do romance, no neologismo, no ritmo, na dúvida metafísica de Riobaldo sobre o pacto com o diabo. Existe uma linha de crítica bem mais específica, e tecnicamente mais exigente, que a comemoração de aniversário raramente traz à tona.
O ensaio de Ronald Augusto e o método da atualização
O ponto de partida deste texto é um ensaio do poeta e ensaísta Ronald Augusto, formado em Filosofia pela UFRGS e mestrando em Teoria Literária pela mesma instituição, publicado originalmente na revista acadêmica Nau Literária e republicado pelo Instituto Búzios em 6 de outubro de 2022, sob o título "Rastros de racismo na obra Grande Sertão: Veredas". Augusto propõe um método que ele chama de atualização: ler Rosa não para determinar se o autor foi, biograficamente, um racista, mas para sondar as lacunas, ambiguidades e contradições relativas ao tópico racial que estão transfiguradas na prosa. É uma distinção metodológica importante, e este texto a adota integralmente: a crítica não incide sobre quem foi o homem Guimarães Rosa, incide sobre o que o texto faz, estruturalmente, com seus personagens negros.
A base teórica de Augusto vem de três fontes centrais, todas com referência bibliográfica completa no ensaio original. De Antonio Candido, o ensaio "O direito à literatura", publicado em Vários Escritos (6ª edição, Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2017), do qual Augusto extrai a ideia de que a literatura tanto confirma quanto nega, tanto apoia quanto combate, e que o leitor não é entidade universal e estatística, mas sujeito situado, com identidade cambiante. De Toni Morrison, o livro A Origem dos Outros: Seis Ensaios sobre Racismo e Literatura (tradução de Fernanda Abreu, prefácio de Ta-Nehisi Coates, São Paulo, Companhia das Letras, 2019), de onde vem o conceito de "preto artificial": personagem negro sem substância metafísica própria, que existe apenas como tipo universal dentro da realidade ideológica do racismo estrutural. E de James Baldwin, o ensaio "O Romance de Protesto de Todos", incluído em Notas de um Filho Nativo (tradução de Paulo Henriques Brito, São Paulo, Companhia das Letras, 2020), no qual Baldwin analisa A Cabana do Pai Tomás e argumenta que a sociedade que produz esse tipo de representação se mantém coesa através de lendas e mitos que ocultam os alicerces reais sobre os quais está construída.

O padrão que Augusto identifica no texto de Rosa
A partir desse aparato, Augusto faz um levantamento filológico específico dentro de Grande Sertão: Veredas, na edição de referência (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 19ª edição, 2001). O achado central: personagens negros no romance aparecem de forma recorrente sem nome próprio, identificados apenas pela cor, como "uns pretos" ou por apelidos que reafirmam a raça como marca definidora, como "Preto Mangaba" ou a descrição de um personagem chamado apenas "Moçambicão" como "um negro enorme". Quando um grupo maior de jagunços é nomeado numa única passagem do livro, o padrão se confirma: personagens brancos recebem nome sem qualificação racial, personagens negros recebem nome seguido da cor, ou apenas a cor, sem nome. Augusto descreve ainda passagens em que a proximidade entre corpo negro e figuração animal aparece de forma explícita, incluindo um episódio de antropofagia real dentro da trama, no qual um rapaz é morto e comido por engano, confundido com um bugio, cena em que a raça da vítima nunca é dita, apenas sugerida pelo contexto.
Augusto também identifica uma estrutura de linguagem em que qualidades morais positivas se associam sistematicamente à brancura, e o inverso à negrura, dentro da fala do próprio narrador Riobaldo, que declara abertamente seu desejo de que o bom fique de um lado e o ruim do outro, o preto de um lado e o branco do outro. O crítico faz uma comparação direta com o poema "Irene no Céu", de Manuel Bandeira (em Estrela da Vida Inteira, introdução de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza, 5ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1974): a personagem negra do poema só ganha permissão para agir livremente no espaço sacrossanto da morte, nunca em vida. Augusto lê o mesmo mecanismo em Rosa.
Nem condenação, nem blindagem
É importante reproduzir com exatidão a ressalva que o próprio Augusto faz, porque ela evita a leitura simplista que tanto o entusiasmo acrítico quanto o cancelamento moralista produziriam. O ensaio recusa explicitamente tanto o cancelamento quanto a blindagem de cunho reverencial. Não se trata de decidir se Guimarães Rosa foi ou não um racista enquanto pessoa, nem de reduzir a obra inteira ao tema racial, algo que o próprio Augusto nomeia como caminho não pretendido. Trata-se de reconhecer que a naturalização de estereótipos desumanizantes associados à figura do negro atravessa a obra de forma consistente o suficiente para merecer atenção crítica, mesmo dentro de um romance cuja fortuna crítica tipicamente se concentrou em temas universais como amor, morte e transcendência.
Augusto observa, e este texto concorda, que o problema estrutural não é exclusivo de Rosa. Ele cita como paralelo os poemas de Urucungo (1932), de Raul Bopp, mesmo autor que o MS Poetar já analisou em reportagem anterior sobre sua gestão da Revista de Antropofagia, e "Essa Negra Fulô", de Jorge de Lima. Segundo a categorização que Augusto empresta do poeta Oliveira Silveira, são todos exemplos do que se convencionou chamar produção "negrista": experimentos de linguagem feitos por autores brancos que tratam do tema negro sem deslocar a posição de quem fala, mantendo o escritor branco como intérprete e não a pessoa negra como sujeito da própria narrativa.

O que isso muda na leitura de setenta anos de comemoração
A conexão com a identidade editorial do MS Poetar é direta, e vale nomeá-la sem rodeio. Rosa devorou a fala do sertanejo, a oralidade regional, o léxico popular, para construir uma língua literária de ambição universal, recusando pedir licença ao centro editorial do país. Essa é a antropofagia bem-sucedida, celebrada com razão pela crítica há setenta anos. Mas o que o ensaio de Ronald Augusto demonstra, com aparato filológico e não apenas impressão de leitura, é que essa mesma operação devoradora não se estendeu, na mesma medida, aos corpos negros dentro do próprio sertão ficcional que Rosa recriou. Rios, plantas, estados afetivos e até o diabo recebem nomeação cuidadosa. Determinados corpos humanos, não.
Comemorar setenta anos de Grande Sertão: Veredas com o rigor que o próprio livro exige significa sustentar as duas leituras ao mesmo tempo, sem que uma precise anular a outra: a proeza de linguagem que devorou o centro editorial nos seus próprios termos, e a lacuna, tecnicamente demonstrada por pesquisa acadêmica publicada, sobre quem, dentro dessa devoração, seguiu sem nome.
Referências
AUGUSTO, Ronald. "Rastros de racismo na obra Grande Sertão: Veredas". Nau Literária: Revista Eletrônica de Crítica e Teoria Literárias, PPG-Letras/UFRGS. Republicado pelo Instituto Búzios em 6 de outubro de 2022. Disponível em: institutobuzios.org.br.
BALDWIN, James. Notas de um Filho Nativo. Tradução de Paulo Henriques Brito. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da Vida Inteira. Introdução de Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza. 5ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.
CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 6ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017.
MORRISON, Toni. A Origem dos Outros: Seis Ensaios sobre Racismo e Literatura. Tradução de Fernanda Abreu. Prefácio de Ta-Nehisi Coates. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
BOLLE, Willi. Grandesertão.br: um Romance de Formação do Brasil. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2004.



Comentários