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De Dourados para o Pantanal: "Natasha" vence o 4º Bonito CineSur

Atualizado: 10 de ago.

O longa nascido de uma série gravada em 2017 na Grande Dourados chegou ao maior festival de cinema sul-americano de Mato Grosso do Sul carregando luto, travessia e a assinatura de dois irmãos que nunca deixaram de apostar no cinema feito na fronteira, e venceu


Há uma Kombi que atravessa o Mato Grosso do Sul rumo ao Mato Grosso. Dentro dela, três amigas levam um sonho que não é mais delas: era de Natasha, travesti assassinada, que queria disputar o concurso drag "Raio de Sol do Pantanal" e não teve tempo de chegar lá. É essa imagem, luto transformado em estrada, que abre o longa-metragem Natasha, e é essa imagem que, na noite de sábado, 1º de agosto, valeu ao filme o Prêmio do Júri Oficial de Melhor Filme Sul-Mato-Grossense na 4ª edição do Bonito CineSur, festival de cinema sul-americano realizado em Bonito.

O prêmio, R$ 7.500 e o Troféu Pantanal, foi anunciado no Auditório Kadiwéu do Centro de Convenções de Bonito, num festival que neste ano recebeu 905 obras inscritas, quase 40% a mais que na edição de estreia, e selecionou 32 produções de dez países para suas mostras competitivas. O júri estadual, formado por Daniela Siqueira, professora do curso de Audiovisual da UFMS, pelo cineasta Luiz Carlos Lacerda, o "Bigode", e por Solange Bouffay, escolheu Natasha entre oito produções sul-mato-grossenses. A menção honrosa da mostra ficou com o documentário pantaneiro Quatro Luas Pantaneiras, de Ana Carla Loureiro.

Para quem acompanha o audiovisual produzido em Dourados, a vitória tem o peso de uma dívida sendo paga. Natasha nasceu em 2017 como série, treze episódios gravados na cidade e dirigidos pelos irmãos Thiago Rotta e Rafael Rotta, fundadores da produtora Plug, hoje Irmãos Rotta. Aprovada no edital PRODAV 10 da Ancine para conteúdo de TVs públicas, a série chegou a ser veiculada em mais de 200 emissoras públicas nos 26 estados do país, um alcance nacional discreto, quase invisível para quem está fora do circuito, mas que já colocava a dupla douradense entre os poucos produtores da região a furar o cerco do eixo Rio-São Paulo com uma narrativa sobre corpos e afetos LGBTQIAPN+ no interior do país.

Quase uma década depois, a mesma história voltou como longa-metragem, com roteiro de Antoni Magalhães, também de Dourados, escritor e roteirista já premiado pelo Leia MS e pelo Prêmio Sul-Mato-Grossense de Audiovisual Abboud Lahdo. Magalhães é descrito por quem acompanha seu trabalho como um autor de personagens complexos, atento a temas de identidade e direitos humanos sem cair no didatismo. Em Natasha, essa marca aparece na forma como o roteiro recusa o luto espetacularizado: a violência que mata a personagem-título acontece fora de quadro, e o filme escolhe ficar com quem sobrevive.

É um gesto raro, e político por ser assim discreto. Boa parte do audiovisual brasileiro que trata de corpos trans e travestis ainda insiste em filmar a violência como espetáculo. Natasha aposta no caminho inverso: a Kombi, a estrada, o Pantanal como cenário de passagem e não de exotismo, o concurso drag como horizonte de alegria possível depois da perda. A produtora, desde a série original, adotou a regra de que 80% da equipe técnica pertencesse à comunidade LGBTQIAPN+, uma decisão de bastidor que também é declaração de método: quem conta essa história, conta de dentro dela.

A vitória em Bonito chegou num momento de amadurecimento do próprio festival, que neste ano homenageou a atriz chilena Paulina García e o cineasta Vincent Carelli, e ampliou de seis para oito o número de produções na Mostra Sul-Mato-Grossense, sinal de que o cinema feito no estado deixou de ser nota de rodapé para se tornar núcleo competitivo por direito próprio. Nesse cenário, Natasha representou duplamente: uma narrativa sobre pertencimento LGBTQIAPN+ e a prova de que uma produção nascida fora de Campo Grande, na Grande Dourados, sustentada por uma produtora independente e sem os recursos dos grandes centros, pode competir e vencer.

Para Thiago e Rafael Rotta, a trajetória de Natasha talvez seja a confirmação de algo que já sabiam desde 2017: que uma boa história sobre a fronteira não precisa nascer no Rio ou em São Paulo para alcançar quem precisa vê-la. Precisa, isso sim, de tempo, teimosia e uma Kombi disposta a atravessar o mapa.

O MS Poetar acompanhou de perto essa trajetória e recebeu diretamente dos diretores uma seleção de doze imagens do filme, que ilustram esta matéria. O longa já havia passado por sessões exclusivas no MIS, em Campo Grande, e no Cine Auditório da UFGD, em Dourados, antes de chegar à mostra competitiva. Thiago e Rafael já estão de volta a Dourados, o Troféu Pantanal ainda meio incrédulo na bagagem, e fica o registro de que, mais uma vez, é no interior que o cinema sul-mato-grossense encontrou sua voz mais própria.





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