top of page

EQUILIBRIVM: o mapa espiritual que Anitta desenhou para si, e o único ponto dele que pertence a Dourados

Dois álbuns, um curta-metragem de trinta minutos, um panteão de convidados que vai de Maria Bethânia a um grupo de rap Guarani e Kaiowá. Uma leitura completa do projeto que redesenhou o que significa "brasilidade" no pop de Anitta — e do lugar exato, único e não repetido, que os povos indígenas ocupam dentro dele

Anitta em campanha de divulgação para seu novo álbum, esbanjando charme e estilo.
Anitta em campanha de divulgação para seu novo álbum, esbanjando charme e estilo.

Um projeto, não um álbum

"EQUILIBRIVM" não é um disco que ganhou uma sequência. É um projeto de dois volumes concebidos como uma única jornada, com trinta e duas faixas ao todo, um curta-metragem de mais de trinta minutos, uma cidade cenográfica construída do zero no Rio de Janeiro e uma equipe de estilismo instruída a fazer uma coisa específica: procurar o Brasil fora do eixo Rio–São Paulo. É essa instrução, dada por Anitta à própria equipe de figurino, que torna o projeto relevante para o MS Poetar antes mesmo de qualquer faixa tocar.

O primeiro volume, "EQUILIBRIVM", chegou em 16 de abril de 2026: oitavo álbum de estúdio da cantora, quinze faixas, estrutura em dois atos, o primeiro em português, ancorado em gêneros brasileiros e afro-brasileiros (axé, ijexá, samba, MPB); o segundo em espanhol e inglês, voltado ao mercado internacional. Registrou cerca de 8,2 milhões de reproduções no Spotify nas primeiras 24 horas, a maior estreia de uma artista latina em 2026. A crítica especializada, o crítico Gabriel Silva, do DiscoAvaliadoBR, é a referência mais citada pela imprensa musical brasileira, elogiou o foco em espiritualidade e ijexá e a maturidade das colaborações nacionais, mas apontou quebra de ritmo nas faixas internacionais, consideradas mais genéricas.

O segundo volume, "EQUILIBRIVM II", chegou em 23 de julho: nono álbum, dezessete faixas, treze delas em parceria, composto e produzido inteiramente no estúdio da casa de Anitta, sob direção musical e artística de Nídia Aranha. Ele não é um apêndice do primeiro, é onde o projeto se completa: onde a espiritualidade deixa de ser tema e vira estrutura narrativa, e onde a única parceria indígena de todo o projeto acontece, na última faixa do disco.

Essa é a primeira coisa que a apuração precisa registrar com precisão, porque a imprensa geral não costuma fazer essa conta: em trinta e duas faixas somando os dois volumes, apenas uma envolve artistas indígenas. Isso não desqualifica a faixa nem o projeto — mas qualifica exatamente o tamanho do gesto, e evita que o MS Poetar trate como "abertura ampla à cultura indígena" o que é, com mais precisão, uma escolha pontual e significativa em um ponto estratégico do álbum: o encerramento.

A espiritualidade como espinha dorsal, não como tema

Se há um fio que costura as trinta e duas faixas, é a decisão de tratar religiosidade brasileira, sobretudo de matriz afro-brasileira, como estrutura, não como referência decorativa. Em "EQUILIBRIVM", o ijexá aparece como um dos eixos sonoros centrais, ritmo historicamente associado ao candomblé; a crítica especializada destacou justamente esse mergulho como o ponto mais maduro do disco.

Em "EQUILIBRIVM II", essa espinha dorsal fica explícita desde a primeira faixa. "Você Já Sabe", que abre o álbum sob produção do duo Los Brasileros, cruza tambores sagrados do candomblé com o tamborzão do funk carioca e é dedicada aos exus e pombagiras, dialogando diretamente com "Meia-Noite", faixa do primeiro volume também assinada por Los Brasileros. A partir daí, o disco não larga o fio: "Feitiço", em parceria com Mart'nália, incorpora um ponto de Exu à composição; "Ogum Me Rodeia" é um dos pontos mais comentados do projeto, Anitta divide o microfone com Letícia Fialho e recebe Maria Bethânia, que declama um poema de saudação ao orixá Ogum; "Deus Mãe", com a rapper King Saints, e "Contemplação", com o Grupo Ofá, coletivo formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, em Salvador, funcionam como quase-orações; a própria Anitta chamou "Contemplação" de sua faixa favorita do disco.

O projeto não fecha a espiritualidade em uma só matriz. "Eu Não Sou Santa", com o sanfoneiro Mestrinho, é uma ode explícita a Nossa Senhora Aparecida, cruzando forró e catolicismo popular; "Divino Sexual" usa conceitos do tantra para tratar desejo como energia vital e forma de conexão entre corpo, consciência e espiritualidade. É um retrato propositalmente plural do que "fé brasileira" significa, católica, afro-brasileira, oriental, popular, e é exatamente essa pluralidade que torna a posição de "OKE" ao final do disco mais legível: depois de percorrer candomblé, catolicismo popular e tantra, o álbum termina nomeando povos indígenas específicos, não como adendo, mas como último capítulo de uma cosmologia brasileira que o disco tenta, com ambição declarada, representar por inteiro.

Outras faixas cumprem função mais afetiva que espiritual: "Não Me Cutuca", forró com Alceu Valença; "Abre Caminho", reggae com Alexandre Carlo, vocalista do Natiruts; "Sem Pressa", ijexá com a paulistana MC Tha; "Sal Grosso", com Kbrum; "Ponta do Pé", homenagem às gafieiras cariocas; "Azul", regravação de Djavan cantada em espanhol; e "Respira", faixa que Anitta traduziu do espanhol para o português com as próprias mãos, sobre os desafios de ser mulher na indústria musical, um tema que ecoa diretamente a homenagem que o curta-metragem presta a Carmen Miranda, artista que Anitta cita nominalmente ao refletir sobre querer, para si, uma trajetória com final diferente do da cantora que a antecedeu.

O trabalho visual: uma cidade cenográfica e quatro atos

"EQUILIBRIVM II" não é só um álbum acompanhado de clipes. É um curta-metragem musical de mais de trinta minutos, assinado pela produtora Ginga Pictures sob direção criativa de Nídia Aranha, com direção de arte de Jean Labanca, que já assinava a parte visual do primeiro volume. A narrativa dá continuidade a uma estrutura em quatro atos iniciada no primeiro curta, e é construída em torno de personagens simbólicos da cosmologia religiosa popular brasileira: uma cartomante, um pai de santo, uma benzedeira, um caboclo e o próprio Exu. Para dar corpo a esse universo, a produção construiu uma cidade cenográfica inteira no Rio de Janeiro, Anitta chegou a brincar publicamente que a estrutura consumiu "todo o seu dinheiro", sem revelar valores.

O figurino, assinado por Daniel Ueda e André Philipe, com apoio de quatro produtores de moda, Laitânia, Layse Araújo, Henrique Sca e Isabela Ramos, foi a peça central da instrução editorial que dá ao projeto sua textura mais interessante para o MS Poetar: a decisão deliberada de fugir do eixo Rio–São Paulo na curadoria de marcas. Segundo Daniel Ueda, a equipe fez um brainstorm com Nídia Aranha em que cada ato do curta foi apresentado como uma "Anitta" diferente, a Carmen (Miranda), as pombagiras, a romântica, a lúdica, e a partir daí foram escolhidas peças de marcas espalhadas pelo país: a saia de ráfia da paulista Isabela Capeto, já desfilada no Rio Fashion Week; os bordados e miçangas da Helô Rocha, usados na cena de "Eu Não Sou Santa"; o chapéu de fibra de tucum da coleção Muiraquitã, assinado pelo estilista manauara Maurício Duarte; e o trabalho artesanal do Ateliê Mão de Mãe, que uniu cabaças, palha e crochê num dos looks mais comentados do curta.

É uma escolha de produção que dialoga, sem dizer isso explicitamente, com a mesma lógica editorial que rege o MS Poetar: tratar o Brasil cultural como algo que não se resume ao eixo que historicamente concentra a indústria, e é essa mesma lógica de produção, aplicada ao figurino, que na trilha sonora leva à decisão de fechar o álbum com um grupo de Dourados.

A homenagem a Carmen Miranda, que abre o curta na faixa "Pra Você Gostar de Mim", releitura da marchinha "Taí", com participação da modelo Thai de Melo Bufrem, merece leitura crítica, não celebração automática: Carmen Miranda é, historicamente, o símbolo mais citado quando se fala em exportação estereotipada e caricatural do Brasil para o exterior, exatamente o "Brasil performático" que a leitura popular do projeto (inclusive a que motivou este texto) descreve como superado. Colocá-la como primeira personagem do curta, tratada com afeto e não com ironia, sugere que "EQUILIBRIVM" não rejeita esse Brasil-cartão-postal como erro a ser corrigido, mas o inclui como uma camada legítima dentro de um espectro mais amplo, ao lado do candomblé, do catolicismo popular, do tantra e, ao final, da ancestralidade indígena. É uma escolha discutível, mas coerente: o projeto não promete substituir um Brasil por outro. Promete somar camadas que a exportação cultural historicamente tratou como excludentes.

"OKE": a única faixa, o maior gesto

Depois de dezesseis faixas percorrendo orixás, santos católicos, tantra e memória afetiva de gafieira, "EQUILIBRIVM II" termina com "OKE", parceria entre Anitta, a rapper paulista Katú Mirim e o Brô MC's, quarteto de rap formado por jovens Guarani e Kaiowá das aldeias Jaguapiru e Bororó, em Dourados, Mato Grosso do Sul. É a única presença indígena nas trinta e duas faixas do projeto, e ocupa a posição de maior peso simbólico de um álbum inteiro: o encerramento.

O Brô MC's não chega a essa faixa como descoberta de Anitta. O grupo existe desde 2009 e é reconhecido como o primeiro coletivo de rap indígena do Brasil, com uma trajetória construída antes de qualquer contato com a indústria pop mainstream: apresentações no palco Mundo do Rock in Rio, no Grammy Latino, no G20, no Global Citizen Festival em Nova York e no Grammy Museum, em Los Angeles, além de participação em campanha institucional do Enem e o álbum "Retomada", lançado em 2025 reafirmando cultura e língua guarani. O repertório do grupo nasce da realidade concreta dos povos Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul, estado que concentra um dos processos mais tensos de disputa territorial indígena do país, com letras em guarani e português sobre ancestralidade, resistência e identidade.

A composição, descrita pela própria Anitta como um "funkão", uma espécie de rave de periferia, cruza tambor e batida eletrônica. Ao longo da letra, que o MS Poetar não reproduz aqui por política de direito autoral, a canção nomeia mais de uma dezena de povos indígenas brasileiros distintos, de diferentes regiões do país, até chegar à menção explícita aos Guarani-Kaiowá, o povo do próprio Brô MC's. É uma estrutura de composição que evita a generalização mais comum do imaginário sobre povos originários, tratá-los como bloco único, e nomeia, em vez disso, a pluralidade.

O videoclipe, estreado no Multishow no dia do lançamento antes de chegar às plataformas, reuniu o Brô MC's e Katú Mirim em cena com representantes de diferentes etnias indígenas, uma celebração de diversidade de povos, segundo os próprios integrantes do grupo, e não a representação de um genérico "indígena brasileiro". A presença física do Brô MC's nas filmagens, não dublagem de imagem alheia, não referência estética sem os corpos reais dos autores, é um critério que distingue essa participação de exemplos mais comuns de apropriação cultural na indústria musical.

Katú Mirim foi mais direta sobre o que essa visibilidade custa e o que ela não resolve sozinha: mesmo reconhecendo o convite de Anitta como um marco importante para seu trabalho, a artista apontou publicamente que ainda não consegue viver exclusivamente da música, e que segue em busca de espaço estável dentro da indústria. É uma frase que a crítica cultural não deveria descartar como detalhe biográfico, ela é o contraponto necessário a qualquer leitura triunfalista do "momento indígena" no pop brasileiro. Visibilidade em um álbum de Anitta não é, por si, sustentabilidade de carreira.

O que fica, para quem lê a partir da fronteira

Um projeto de trinta e duas faixas que dedica uma única faixa a artistas indígenas não pode ser lido como "álbum sobre indigeneidade", não é, e tratá-lo assim seria imprecisão editorial. O que "EQUILIBRIVM" propõe, com mais rigor, é um mapa de brasilidades plurais em que a indígena entra por último, no lugar de maior peso simbólico da estrutura, protagonizada por quem já construía essa presença havia dezessete anos antes de qualquer feat.

Isso não fecha a discussão sobre os termos do encontro, quem decide, quem recebe, o que muda estruturalmente para artistas como Katú Mirim depois do holofote se apagar, e o MS Poetar prefere deixar essa pergunta em aberto a resolvê-la por uma citação de imprensa. Mas fecha, com evidência verificável, a pergunta mais simples e mais frequentemente respondida errado por cobertura apressada: não, o Brô MC's não foi "descoberto" por Anitta. Foi, depois de dezessete anos de trajetória própria, colocado, pela primeira vez em um projeto desse alcance, no centro exato de um dos álbuns mais comentados do pop brasileiro em 2026. A diferença entre essas duas frases é o motivo pelo qual vale a pena escrever sobre isso a partir de Dourados, e não sobre Dourados a partir de outro lugar.

Comentários


bottom of page