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O bonde, o manifesto e o hipopótamo: Oliverio Girondo faz 135 anos nesta segunda-feira

Em 17 de agosto de 1891 nascia, em Buenos Aires, o poeta que quis ser lido em movimento e que passou a vida seguinte fundando revistas, financiando amigos, casando-se com uma escritora que a história insistiu em chamar de musa, e destruindo, no fim da vida, a própria língua que o consagrou. Cem anos depois de 1922, ano em que ele e o modernismo brasileiro romperam com a tradição quase ao mesmo tempo, sem nunca se telefonar, esta segunda-feira é boa desculpa para reabrir o dossiê.

Há um detalhe de projeto no primeiro livro de Oliverio Girondo que costuma passar batido: ele não foi escrito para ser lido em silêncio, sentado, com tempo. Veinte poemas para ser leídos en el tranvía, publicado em 1922, quando o autor tinha trinta e um anos e acabava de voltar de uma temporada entre a Europa e o Extremo Oriente, pede exatamente o oposto do que a poesia respeitável da época exigia: leitura de pé, com solavanco, entre uma parada e outra, o poema competindo com a cidade em vez de isolar o leitor dela. Antes de qualquer manifesto, essa era a provocação: a de que a poesia argentina podia, devia, sair do gabinete e entrar no transporte público.

1922, o ano que ninguém leu em dobro

O detalhe que interessa ao MS Poetar, e que raramente aparece nas biografias de Girondo publicadas na Argentina, é a data. Em fevereiro de 1922, entre os dias 13 e 17, São Paulo promovia a Semana de Arte Moderna: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, o modernismo brasileiro nascendo em cinco dias de escândalo no Theatro Municipal. No mesmo ano, do outro lado da fronteira que a colonização desenhou mais para separar impérios do que para separar povos, um jovem rico de Buenos Aires publicava um livro que fazia, com outro sotaque, a mesma aposta: romper com o verso solene, com a métrica de salão, com a ideia de que literatura séria precisa de silêncio e reverência.

Não há registro de que Girondo e os modernistas paulistas tenham lido uns aos outros naquele momento, e é exatamente esse silêncio que interessa mais do que qualquer coincidência de calendário. Duas rupturas de vanguarda, no mesmo ano, no mesmo continente, contra o mesmo inimigo comum (o academicismo herdado da Europa que ambos os países importavam como se fosse neutro), e que a historiografia literária, dividida por língua e por fronteira nacional, nunca tratou como um único acontecimento hemisférico. O modernismo brasileiro tem data de nascimento em fevereiro. A vanguarda portenha tem a sua em 1922 também. Cem anos e alguns depois, os dois eventos continuam sendo ensinados em disciplinas que não se cruzam.

O manifesto contra o hipopótamo

Dois anos depois, em 1924, Girondo se tornou uma das vozes centrais por trás da revista Martín Fierro e do texto que ficaria conhecido como seu manifesto, publicado sem assinatura individual, mas com sua mão fortemente presente na redação. A abertura é uma das mais citadas da literatura argentina do século XX: "Frente a la impermeabilidad hipopotámica del 'honorable público'. Frente a la funeraria solemnidad del historiador y del catedrático..." O texto reivindica "una NUEVA sensibilidad y una NUEVA comprensión" e chega a comparar, sem ironia disfarçada, um automóvel Hispano-Suiza a uma obra de arte "muchísimo más perfecta que una silla de manos de la época de Luis XV": a modernidade técnica lida como estética legítima, não como ameaça a ela.

O manifesto também reivindica autonomia americana "previo tijeretazo a todo cordón umbilical", um corte de cordão umbilical com a tradição europeia que soa, quase palavra por palavra, como o que o modernismo brasileiro fazia ao mesmo tempo do outro lado da fronteira, e como o que o próprio MS Poetar reivindica hoje ao recusar pedir licença ao eixo Rio-São Paulo. A diferença é que a vanguarda portenha tinha dinheiro e rede internacional para fazer esse corte ecoar: era o próprio Girondo, herdeiro de família abastada, quem financiava viagens, publicações e festas de colegas, um mecenas fazendo-se passar por apenas mais um poeta do grupo.

Essa geração se dividiu, na Buenos Aires dos anos 1920, entre dois polos que a crítica batizou de Grupo Florida e Grupo Boedo: o primeiro, ligado a Martín Fierro e à revista Proa, apostando na autonomia da forma e no experimentalismo de vanguarda; o segundo, associado à editorial Claridad, defendendo literatura de compromisso social explícito, mais próxima do realismo proletário. Girondo pertencia claramente ao primeiro campo, o que lhe rendeu, por décadas, a acusação de ser um poeta de salão jogando com palavras enquanto a Argentina real batia na porta. É a mesma acusação, com sotaque trocado, que Jorge Amado enfrentou do lado oposto: enquanto a crítica brasileira desconfiava do popular em Amado, a crítica argentina desconfiava do formalismo em Girondo. Os dois polos raramente reconheceram que estavam lutando a mesma guerra por flancos opostos.

A mulher que a história chamou de musa

Nenhum dossiê sobre Girondo está completo sem tratar de Norah Lange, e é aqui que este texto muda de tom, porque a maneira como a crítica tradicionalmente narra essa história é, ela mesma, o problema. Lange nasceu em Buenos Aires em 1905, catorze anos depois de Girondo, filha de pai norueguês, e entrou nas rodas literárias do Grupo Florida ainda muito jovem: ruiva, ousada, ocupando espaços de café e tertúlia até então reservados a homens. A imagem que ficou consagrada é a da anfitriã das festas de Martín Fierro, a figura decorativa ao lado dos poetas de verdade.

Os fatos contam outra história. Em 1937, Lange recebeu o Primeiro Prêmio Municipal e o Segundo Prêmio Nacional de Literatura por Cuadernos de infancia, reconhecimento institucional que, na época, superou o que o próprio Girondo acumulava em prêmios oficiais. Em 1958, recebeu o Gran Premio de Honor da Sociedade Argentina de Escritores. Sua obra, que inclui também Los días y las noches (1926), El rumbo de la rosa (1930), Personas en la sala (1950) e Los dos retratos (1956), constrói uma prosa e uma poesia de subjetividade e intimidade que os historiadores da literatura hoje reconhecem como um projeto estético próprio, não órbita de ninguém. Ela e Girondo conviveram por mais de uma década antes de se casarem oficialmente, em 1943. A pergunta que fica, e que qualquer leitura reantropofágica exige fazer, é simples: por que o casamento tardio de duas carreiras literárias equivalentes produziu, na memória cultural, um poeta canônico e uma esposa carismática, e não dois poetas?

A língua destruída no fim da vida

Se a juventude de Girondo é feita de ironia urbana e crítica social sob a forma de anedota (Espantapájaros, de 1932, com seu andrógino de pau e a instrução impressa de que o livro "no debe leerse, sino tomarse en dosis mínimas"), a velhice do poeta é território completamente diferente. En la Masmédula, publicado em versões sucessivas entre 1954 e 1963, é um dos experimentos mais radicais já feitos com a língua espanhola: neologismos, palavras fundidas, sintaxe quebrada até o limite da comunicabilidade, um poeta de setenta anos decidindo que a linguagem herdada já não servia para dizer o que precisava dizer. É difícil não pensar, lendo esses versos, no que a poesia concreta brasileira (Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, reunidos no grupo Noigandres a partir de 1952) estava fazendo à língua portuguesa quase ao mesmo tempo, do outro lado da mesma fronteira que continua sem telefonar. Mais uma vez, duas rupturas radicais, a mesma década, o mesmo continente, sem citação cruzada.

O que fica

Girondo morreu em janeiro de 1967, aos setenta e cinco anos, em Buenos Aires, a mesma cidade onde nascera. Hoje ele tem site oficial de acervo, cronologia documentada, obra traduzida e estudada em universidades de língua espanhola. É, dentro da própria tradição argentina, um nome plenamente canonizado. O que não está resolvido é o outro lado da conta: quantos leitores brasileiros, mesmo os que fazem da leitura ofício, sabem posicionar Girondo ao lado de Oswald de Andrade, ou sabem que 1922 foi, ao mesmo tempo, o ano do bonde de Buenos Aires e do Theatro Municipal de São Paulo? A vanguarda latino-americana continua sendo ensinada país por país, como se cada ruptura tivesse acontecido isolada, quando na verdade aconteceram em coro, só que em salas separadas, sem que ninguém tenha aberto a porta entre elas. Cento e trinta e cinco anos depois do nascimento de Girondo, essa porta continua fechada. Abri-la, nem que seja por um texto de segunda-feira, é o mínimo que se pode fazer.

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