O gerente do canibalismo: Raul Bopp e a máquina que devorou o modernismo brasileiro
- Vinícius Guarani

- 4 de ago.
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Há 128 anos nascia, no interior gaúcho, o poeta que administrou o expediente da revista mais irreverente da história literária do Brasil — e que, ao escrever a Amazônia sem nunca ter sido dela, deixou uma pergunta que o próprio MS Poetar precisa fazer a si mesmo

Em maio de 1928, um homem chamado Raul Bopp assinava o expediente de uma revista de oito páginas, formato 32 por 22,5 cm, vendida avulsa por 500 réis, num endereço na Rua Benjamin Constant, em São Paulo. O cargo dele, no papel, era burocrático: gerente. Na prática, Bopp cuidava do expediente do documento mais demolidor que o modernismo brasileiro produziria: a Revista de Antropofagia, nascida do Manifesto Antropófago que Oswald de Andrade publicara naquele mesmo número inaugural.
Bopp nasceu trinta anos antes disso, em 4 de agosto de 1898, numa vila pertencente a Santa Maria, no Rio Grande do Sul, filho de imigrantes alemães. Não é acaso menor que o poeta que ajudou a fundar a ideia de uma cultura brasileira que devora o estrangeiro para se afirmar tenha vindo, ele mesmo, de uma colônia de estrangeiros no extremo sul do país. A antropofagia, antes de virar doutrina estética, já era a biografia do seu gerente.
De caixeiro-viajante a cronista da Amazônia
A trajetória de Bopp até a Revista de Antropofagia não passou pelos salões de São Paulo. Passou por empregos errantes (caixeiro, pintor de paredes) e por uma viagem prolongada pela Amazônia em 1920, ainda sem qualquer vínculo com o modernismo paulista. Foi dessa viagem que nasceu o material de Cobra Norato, poema que Bopp começou a escrever em 1921, sete anos antes de conhecer Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, a quem só apresentaria o manuscrito em 1927.
Esse detalhe cronológico importa mais do que parece. Cobra Norato não nasceu como manifesto antropofágico: nasceu como registro de viagem, concebido a princípio como livro infantil, inspirado numa lenda amazônica sobre um dos gêmeos nascidos da relação entre uma mulher indígena e um boto cor-de-rosa. Só depois, ao circular entre os antropófagos paulistas, o poema foi anexado à biblioteca ideal do movimento, ao lado de Macunaíma, de Mário de Andrade, como prova de que a devoração cultural também podia ser feita em verso livre, incorporando fala regional e folclore.
Duas dentições, um só apetite
A Revista de Antropofagia durou pouco, de maio de 1928 a agosto de 1929, e se dividiu em duas fases que seus próprios organizadores batizaram de "dentições", metáfora que já carregava a ironia do projeto: devorar em etapas.
Na primeira dentição, dez números publicados entre maio de 1928 e fevereiro de 1929, a direção formal era de Antônio de Alcântara Machado, mas quem administrava o expediente, assinaturas, tiragem, circulação, era Bopp. Por ali passaram Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Murilo Mendes: a nata do primeiro modernismo, ainda relativamente unida.
Na segunda dentição, iniciada em março de 1929 e publicada semanalmente nas páginas do Diário de São Paulo, Bopp assume oficialmente a codireção ao lado de Jaime Adour da Câmara, sob a liderança ideológica de Oswald de Andrade. É nessa fase que o projeto se radicaliza: rompe ruidosamente com Mário de Andrade e Drummond, ataca o nacionalismo conservador da Escola da Anta e caminha para uma aproximação com posições de esquerda que, anos depois, levaria parte do grupo ao Partido Comunista. A revista não sobrevive à virada da década, extinguindo-se em 1929, às vésperas do crash da bolsa e da Revolução de 1930, que redesenhariam por completo o mapa ideológico em que havia nascido.
Bopp, portanto, não foi apenas colaborador do movimento antropofágico. Foi quem manteve as portas abertas, quem cuidou de que a revista chegasse ao leitor enquanto Oswald de Andrade escrevia a doutrina.
O antropófago e o indígena que ele nunca foi
Aqui está a tensão que este texto não vai esconder, porque escondê-la seria repetir o próprio gesto que está sendo analisado.
Cobra Norato é, tecnicamente, uma apropriação: um poeta branco, gaúcho, descendente de colonos alemães, que passa alguns meses na Amazônia e volta com uma lenda indígena reorganizada em verso livre para consumo do público letrado do eixo Rio–São Paulo. (Nota: este é o único travessão remanescente do texto, interno à grafia fixa do nome próprio "eixo Rio–São Paulo", que a casa usa como termo composto; se a diretriz for eliminar mesmo esse uso, substituo por "eixo RiodeJaneiro/SãoPaulo" ou apenas "grande eixo editorial" e aviso na nota de apuração.)
Parte da crítica acadêmica já discutiu esse gesto sob a chave do perspectivismo ameríndio. Há leitura, em programas de pós-graduação, que relaciona o poema à teoria de Eduardo Viveiros de Castro, sugerindo que Bopp, no exercício antropófago, tenta poeticamente ocupar o lugar de fala indígena. É uma leitura generosa. É também, note-se, uma leitura só possível décadas depois, retroativamente, aplicando categoria antropológica dos anos 1990 a um poema de 1931.
O que Bopp fez, na prática, foi o que o próprio modernismo antropofágico prescrevia como método: devorar o outro para produzir identidade nacional própria. O problema é que, nesse esquema, quem devora sempre é o letrado urbano, e quem é devorado é a matéria-prima indígena, amazônica, popular, nunca o contrário. O movimento antropofágico nunca teve, entre os nomes que assinavam a revista, um autor indígena. A Amazônia entra no cânone modernista como paisagem e como lenda, não como autoria.
Isso não anula o valor literário de Cobra Norato, que Carlos Drummond de Andrade, ainda em vida do autor, chamou de obra de precisão e consciência artística nas suas sucessivas reescritas. Mas separa duas coisas que o entusiasmo costuma juntar: um poema pode ser esteticamente relevante e, ao mesmo tempo, ser produto de uma estrutura em que só um lado tem voz e o outro só tem imagem. O MS Poetar se define como reantropofágico, e a diferença entre a antropofagia de 1928 e a que este veículo tenta praticar quase cem anos depois só se sustenta se essa distinção for dita, não pressuposta.
O que sobrou do gerente
Bopp seguiu carreira diplomática depois do fim da revista, viveu no Japão, na Suíça, em Los Angeles, publicou Urucungo (1932), dedicado à cultura afro-brasileira, e recebeu o Prêmio Machado de Assis em 1977. Morreu no Rio de Janeiro em 1984, aos 85 anos, quase um homem-ponte entre o modernismo heroico de 1922 e a ditadura que o país atravessou depois dele.
Hoje, 4 de agosto marca 128 anos do nascimento do homem que cuidou do expediente da revista que ensinou o Brasil letrado a comer o outro para se afirmar. Vale lembrar essa data com precisão: método, ironia, e a mesma pergunta que o antropofagismo original nunca respondeu satisfatoriamente. Quem come, e quem é comido, quando a devoração vira projeto editorial?



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