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O outro que mora dentro

Capoeira, fronteira e a subjetividade que Mato Grosso do Sul ainda não sabe nomear.


O capoeirista exibe sua agilidade em um salto impressionante contra um fundo vermelho vibrante.
O capoeirista exibe sua agilidade em um salto impressionante contra um fundo vermelho vibrante.

Repare no gesto da ginga. Antes de qualquer golpe, o corpo do capoeirista se recusa a ficar de frente para o adversário. Ele se move em diagonal, oblíquo, nunca oferecendo o peito nem as costas por inteiro. Foi assim que corpos escravizados aprenderam, no Brasil colonial, a existir diante do olhar do senhor sem se entregar a ele por completo e sem tampouco romper com ele de forma frontal, o que seria suicídio. A capoeira nasceu como uma tecnologia de subjetividade em relação oblíqua com o outro: nem submissão, nem confronto direto, mas uma dança que fabricava sentido justamente na fresta entre os dois.

Suely Rolnik daria um nome preciso para o tipo de percepção que sustenta esse gesto. Não é cálculo, não é estratégia consciente no sentido em que entendemos xadrez ou negociação. É outra coisa, e vale o esforço de nomear essa outra coisa com precisão, porque ela também é o que sustenta, hoje, a subjetividade de quem vive na fronteira de Mato Grosso do Sul.

Mestre Guerreiro e a capoeira em Mato Grosso do Sul

Antes de qualquer teoria, vale contar uma história concreta, porque a capoeira em Mato Grosso do Sul tem nome e endereço. Mário Alves dos Santos nasceu em 1950, em Sergipe, e ainda criança começou a se formar em Salvador, onde treinou com Mestre Carlinhos e Mestre Antônio Diabo. Em 1985 chegou a Dourados e fundou a Associação de Capoeira Baiana, hoje reconhecida como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura. Ali nasceu Mestre Guerreiro, hoje o mestre mais antigo em atividade no estado, homenageado em 2011 pelo Iphan com o prêmio "Viva Meu Mestre", o único sul-mato-grossense premiado naquela edição. Ao longo de quatro décadas, formou centenas de capoeiristas e levou a roda para escolas, praças e aldeias indígenas da região de Dourados, um detalhe que não é acessório: o mestre que mantém viva a capoeira no estado é também quem, na prática cotidiana, faz a arte circular entre comunidades negras e comunidades indígenas, atravessando exatamente a fronteira que este texto tenta pensar.

Ele não está sozinho. Mato Grosso do Sul tem, desde 1996, uma Federação Estadual de Capoeira, hoje sob a liderança do mestre Moacir Barbosa da Silva, reunindo cerca de quinze associações e uma dezena de mestres formados pelo estado. Em 2018, durante o Fórum da Capoeira de Mato Grosso do Sul, foi graduada a primeira mestra do estado, Léa Vieira, a Mestra Pantaneira, nome que já anuncia a fusão entre a tradição afro-brasileira e a identidade geográfica local. E a memória mais recente dessa comunidade ainda carrega a lembrança da perseguição: mestres do estado relatam, em depoimentos registrados pelo Iphan-MS dentro do Plano de Salvaguarda da Capoeira, ter treinado escondidos até décadas recentes, com vergonha de serem flagrados pela polícia, ecoando diretamente a época em que a própria capoeira era crime previsto em lei no Brasil.

Há ainda um detalhe que nenhuma teoria precisa forçar, porque já está entranhado na língua: a palavra "capoeira" vem do tupi-guarani, da junção entre "caá" (mata) e "puera" (que já foi), designando originalmente a vegetação rala que cresce onde a mata foi derrubada. Um nome de origem indígena batizou, no Brasil colonial, uma prática de resistência criada por corpos negros escravizados. A fusão que este texto tenta pensar em termos filosóficos já estava, literalmente, no nome da coisa.

Duas epistemes: o sujeito e o corpo vibrátil

Em "Cartografia Sentimental" (2006), Suely Rolnik distingue duas capacidades presentes em cada um dos nossos órgãos dos sentidos, e é possível, sem trair seu argumento, chamá-las de duas epistemes: dois modos radicalmente diferentes de conhecer o mundo e o outro.

A primeira é cortical. É a percepção propriamente dita, que apreende o mundo em formas e projeta sobre elas as representações de que dispomos, atribuindo sentido. É essa capacidade que ergue as figuras de sujeito e objeto, estabelecendo entre elas uma relação de exterioridade: eu aqui, o outro ali, separados por uma distância que a linguagem e a história do sujeito administram. É a episteme com que fomos educados a pensar o conhecimento em geral: conhecer é representar algo que está fora de mim, e quanto mais precisa a representação, mais verdadeiro o conhecimento.

A segunda capacidade é subcortical, e foi historicamente reprimida pelas políticas de subjetivação dominantes, justamente porque não obedece à mesma lógica. Ela nos permite apreender a alteridade não como imagem a ser decifrada à distância, mas como campo de forças vivas que nos afetam e se tornam presentes no próprio corpo, sob a forma de sensação. A essa capacidade Rolnik deu, pela primeira vez naquele livro, o nome de corpo vibrátil. Com ela, o outro deixa de ser uma presença exterior e passa a integrar nossa textura sensível, tornando-se parte de nós mesmos. Dissolvem-se ali as figuras de sujeito e objeto, e com elas aquilo que separa o corpo do mundo. É uma episteme sem distância: conhecer, aqui, não é representar o que está fora, é deixar-se atravessar por aquilo que já está dentro.

Nenhuma das duas epistemes anula a outra por completo, e Rolnik não propõe abandonar a primeira em favor da segunda como quem troca uma ferramenta por outra melhor. O que ela descreve é antes uma tensão paradoxal entre as duas, produtiva justamente porque nos coloca em crise: sentimos, pelo corpo vibrátil, coisas que a episteme do sujeito não tem vocabulário para representar, e é esse desencontro que nos força a criar formas novas de expressão, novas linguagens, novos modos de organizar a experiência. A crise entre as duas epistemes, mais do que a vitória de uma sobre a outra, é o que move a criação.

A episteme da ginga

Aplique essa distinção ao corpo do capoeirista, e a ginga deixa de ser apenas um belo movimento cultural para se revelar como um exercício epistemológico extremo. Na roda, a episteme cortical simplesmente não tem tempo de operar: não há intervalo suficiente entre o gesto do outro e a resposta necessária para que se monte uma representação consciente do ataque, se calcule a trajetória, se decida a defesa. O que o capoeirista treina, ano após ano, é exatamente a outra episteme: a capacidade subcortical de sentir o adversário como campo de força que já o atravessa, e responder com o corpo antes que a representação tenha tempo de se formar. A malícia da capoeira, tantas vezes descrita como esperteza ou disfarce consciente, é, num sentido mais rigoroso, o domínio avançado de uma episteme vibrátil que a maioria de nós mal sabe que possui.

Há algo mais duro por trás dessa beleza. Essa episteme não foi cultivada por escolha livre. Foi imposta pela violência extrema da escravidão a corpos aos quais o regime colonial negava, sistematicamente, o direito à episteme do sujeito: ao negro escravizado não era reconhecida a subjetividade plena que a episteme cortical pressupõe para quem representa e é representado como sujeito de direito. Em "Esferas da Insurreição" (2018), Rolnik descreve o efeito desse processo de captura como uma espécie de zumbificação: o sujeito colonial moderno, escreve ela, é como um zumbi que consome a maior parte de sua energia pulsional apenas para sustentar uma identidade normativa, entre angústia, violência, dissociação e repetição. A quem a episteme oficial nega o estatuto de sujeito, resta, paradoxalmente, um acesso mais direto e mais urgente à outra episteme, a do corpo vibrátil, precisamente porque não há outra forma de sobreviver. A capoeira é o que se pode fazer de mais vivo, de mais criativo e de mais insurgente com essa condição imposta pela força.

Não é acidente que, décadas depois da abolição, os praticantes de capoeira em Mato Grosso do Sul ainda relatem, como vimos, ter treinado escondidos da polícia. A episteme vibrátil, quando encarnada por corpos negros, seguiu incomodando a episteme do sujeito muito depois de a escravidão ter terminado no papel. E é também por isso que o gesto de Mestre Guerreiro, levando essa mesma episteme para dentro das aldeias indígenas da região de Dourados, não é apenas generosidade pedagógica. É um encontro entre duas epistemes historicamente reprimidas pelo mesmo regime, se reconhecendo uma na outra.

O inconsciente colonial-capitalístico

Essa mesma "Esferas da Insurreição" dá nome ao regime que produz, ao mesmo tempo, a repressão da episteme vibrátil e a hierarquização dos corpos que a exercem: o inconsciente colonial-capitalístico. Trata-se, segundo a autora, de um dispositivo que distribui entre corpos e territórios diferentes graus de direito à existência, de modo a legitimar a apropriação da força vital de uns por outros como se fosse condição natural das coisas, e não violência histórica organizada. É esse mesmo inconsciente que torna a exploração de terras indígenas, a escravização de corpos negros e, hoje, a precarização de vidas inteiras, algo que o regime consegue apresentar como ordem normal do mundo. Rolnik chama o preço cobrado por esse regime, em termos de saúde subjetiva, de cafetinagem da vida: a captura do desejo e da força vital de cada um para que sirvam à reprodução do próprio sistema que os explora, até restar pouco mais do que a condição de zumbi descrita acima.

A fronteira de Mato Grosso do Sul vive sob o mesmo regime, ainda que com outra roupagem. Não é a linha entre Brasil, Paraguai e Bolívia que produz subjetividade por si mesma, mas o modo como o inconsciente colonial-capitalístico segue distribuindo, também aqui, graus de humanidade: entre quem atravessa a fronteira para comprar e vender livremente e quem atravessa perseguido, entre a terra que vira agronegócio e a terra que os Guarani e Kaiowá reivindicam de volta como tekoha, entre o português que se impõe como língua de estado e o guarani que sobrevive apesar dele.

A episteme de fronteira e seus sujeitos

Se a capoeira revela a episteme vibrátil no corpo individual, a fronteira a revela em escala territorial, e vale demorar-se nos seus sujeitos concretos, porque é ali que a distinção de Rolnik ganha carne.

Há, de um lado, os sujeitos que a episteme cortical do Estado reconhece plenamente: o documento, o passaporte, a nacionalidade declarada, a mercadoria com nota fiscal em ordem. É a episteme que organiza postos fiscais, delegacias da Receita Federal, categorias de residente e não residente, tudo aquilo que precisa que o outro seja representável, catalogável, para poder ser administrado. Essa episteme não desaparece na fronteira, na verdade se intensifica ali, porque é exatamente na linha que o Estado mais precisa que o mundo se deixe representar em categorias estáveis: brasileiro ou paraguaio, dentro ou fora, legal ou ilegal.

Mas há, ao lado dela, e o tempo todo furando suas categorias, uma outra população de sujeitos que só a episteme vibrátil consegue captar por inteiro. O sacoleiro que atravessa Ponta Porã e Pedro Juan Caballero várias vezes ao dia sabe, no corpo, quando a fiscalização está mais dura antes de qualquer aviso formal, sente a cidade como quem sente o clima, não como quem lê um boletim. A liderança Guarani e Kaiowá que se desloca entre tekoha que a linha internacional corta ao meio não reconhece nessa linha uma fronteira do jeito que a episteme cortical do Estado exige que seja reconhecida, porque a relação com o território, para essa cosmologia, nunca foi affair de representação cartográfica, mas de vínculo vivido. O falante de portunhol não está cometendo um erro de norma culta em nenhuma das duas línguas; está exercendo, na própria fala, a mesma episteme sem distância que rege o corpo vibrátil, misturando sem pedir licença porque a vida na fronteira nunca respeitou, em primeiro lugar, a fronteira entre as línguas.

É por isso que a identidade de fronteira sul-mato-grossense costuma soar indefinível para quem tenta descrevê-la só pela episteme cortical, com suas categorias estáveis de nacionalidade e etnia. Ela não é indefinível por falta de conteúdo. É indefinível porque pertence, em boa parte, à outra episteme, a que não se deixa representar sem perder exatamente o que a torna viva.

O que os povos indígenas insistem em nos dizer

Em "Esferas da Insurreição", Rolnik lembra que os povos indígenas latino-americanos vêm insistindo, desde a invasão colonial, em dizer ao colonizador algo que o inconsciente colonial-capitalístico, estruturado pela episteme do sujeito, é constitutivamente incapaz de escutar: que o outro não é exterior, separado, desconectado, mas que eu e mundo estão entrelaçados desde sempre, existindo já sempre em relação. Não é uma metáfora de aproximação afetiva. É uma outra ontologia, e por extensão uma outra episteme, anterior e mais precisa do que a divisão sujeito-objeto que o Ocidente naturalizou e exportou como se fosse a única forma possível de conhecer.

Há um detalhe, no mesmo livro, que ilumina isso de um jeito quase físico: os Guarani chamam a garganta de ahy'o, palavra que designa também a alma. Voz e alma, para essa cosmologia, não são duas coisas que se comunicam à distância, uma representando a outra. A voz é a alma em movimento, o que já é, em si, uma recusa silenciosa da episteme representacional. Quando um capoeirista canta a ladainha antes de entrar na roda, ou quando uma liderança Guarani e Kaiowá discursa numa assembleia da Aty Guasu, não estão apenas transmitindo informação através do ar. Estão fazendo a alma circular pelo corpo e pelo espaço, exatamente como a cosmologia guarani descreve, e exatamente como a episteme vibrátil de Rolnik permite entender.

Ecossistemas de fronteira

Vale então pensar a fronteira sul-mato-grossense não como linha, mas como ecossistema de corpos vibráteis: um sistema territorial, mas também mental e social, em que a consciência de cada um se produz no contato constante com o que está ao redor, e não isolada dentro de uma cabeça administrada pela episteme do sujeito. A mestiçagem que nasce desse contato, entre português, guarani e espanhol, entre economia formal e informal, entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, entre Corumbá e Puerto Quijarro, não é fusão que dissolve as partes numa síntese confortável. É um corpo vibrátil coletivo, que segue sentindo a força viva de tudo que o atravessa sem poder, e sem dever, transformar essa força em uma imagem única e pacificada de si mesmo, do jeito que a episteme cortical do turismo e do marketing regional gostaria.

Os movimentos indígenas do estado são a peça que impede essa mestiçagem de virar apenas discurso oficial de harmonia racial. A Aty Guasu e as retomadas de terra insistem, na prática, no mesmo ponto que Rolnik nomeia na teoria: o outro não pode ser absorvido sem violência, porque ele não está fora, disponível para ser celebrado à distância ou apagado por conveniência. Ele está dentro, como efeito da força vital das relações que o próprio território estabeleceu, e nenhuma episteme baseada em representação e distância vai dar conta disso sozinha.

O que a ginga e a fronteira têm em comum

Volte, para fechar, ao corpo do capoeirista. A ginga não é fuga do outro. É a forma que um corpo vibrátil, treinado sob violência extrema, encontrou para permanecer em relação com o que o ameaça sem se deixar capturar por inteiro e sem tampouco negá-lo. É precisamente essa a postura que uma subjetividade de fronteira, consciente de si, poderia sustentar: nem a fantasia de uma identidade pura e isolada, imune ao contato e fiel apenas à episteme do sujeito, nem a fantasia oposta de uma mistura que apaga as diferenças em nome da harmonia. O gesto oblíquo e constante de quem sabe, no corpo antes que na cabeça, que o eu só existe porque o outro está, literalmente, dentro dele, e que essa é uma forma de conhecer tão legítima quanto qualquer representação.

Mato Grosso do Sul ainda não tem um nome pronto para essa condição. Talvez não precise ter. Talvez o nome esteja, o tempo todo, no próprio gesto de seguir gingando, e na episteme que esse gesto carrega, mesmo quando ninguém para para nomeá-la.

Referências: ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina/Editora UFRGS, 2006 [1989]. ROLNIK, Suely. Esferas da Insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018. Trajetória de Mestre Guerreiro (Mário Alves dos Santos) e dados sobre a Associação de Capoeira Baiana, o Iphan-MS e a Federação Estadual de Capoeira de Mato Grosso do Sul, conforme cobertura da Fundação de Cultura de MS, Iphan e imprensa de Dourados e Campo Grande.

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