O peso que ficou só com elas
- Vinícius Guarani

- 9 de ago.
- 6 min de leitura
O Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo. Em quatro entre dez lares chefiados por mulheres negras, a ausência do pai não é exceção: é a regra que sustenta o país

Enquanto o Dia dos Pais movimenta vitrines e enche a timeline de homenagens, um outro número atravessa silenciosamente as estatísticas oficiais: entre janeiro e abril de 2025, mais de 65 mil crianças foram registradas no Brasil apenas com o nome da mãe na certidão de nascimento, segundo o painel Pais Ausentes, da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). É quase uma criança a cada três minutos que nasce sem reconhecimento paterno formal. Multiplicado pelos anos, o painel da Arpen soma mais de 1,2 milhão de crianças nessa condição desde 2016, quando o levantamento começou.
Esses nomes ausentes em cartório são só a ponta visível de um fenômeno bem maior. Segundo o estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o Brasil chegou ao final de 2022 com mais de 11 milhões de mães solo, entendidas como mulheres que são a referência do domicílio e criam filhos sem a presença de um cônjuge. É um crescimento de 1,7 milhão de mulheres na década anterior, o equivalente a 15% de todos os lares do país. E há um dado que muda o tom da conversa: entre as mães solo que passaram a chefiar sozinhas seus lares nos últimos dez anos, 90% são mulheres negras.
O Dia dos Pais, com sua economia de gravatas e churrascos, raramente olha para o outro lado do espelho. Este texto olha.
Uma crise que tem cor e CEP
Os números da pobreza fecham o quadro que os registros de cartório começam a desenhar. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, 72,2% das mães solo pretas ou pardas com filhos de até 14 anos vivem na pobreza, e 22,6% estão na extrema pobreza: o maior índice de pobreza entre qualquer recorte de raça, gênero ou arranjo familiar medido pela pesquisa. No mercado de trabalho, o retrato se repete. Levantamento do FGV Ibre mostra que mães solo recebem, em média, 39% menos que mães casadas, e boa parte delas está fora da força de trabalho ou desempregada. Apenas 14% concluíram o ensino superior.
Regionalmente, o painel da Arpen aponta o Norte como a região proporcionalmente mais afetada pela ausência paterna no registro civil (7,5% dos nascimentos), seguido por Nordeste e Centro-Oeste. Sul e Sudeste têm os índices mais baixos, mas em números absolutos concentram o maior volume de casos, simplesmente porque têm mais nascimentos. Não é um problema de uma região do Brasil. É um problema estrutural que atravessa o país inteiro com intensidades desiguais, e essa desigualdade segue o mesmo mapa histórico de outras desigualdades brasileiras: raça, renda, acesso à Justiça.
Esse cruzamento entre gênero e raça não é acidente estatístico. É o eixo que a socióloga Lélia Gonzalez ajudou a nomear ainda no fim do século passado, ao descrever como o mito da "mãe preta", da ama de leite da casa-grande à matriarca solitária da periferia, naturaliza o cuidado como destino compulsório da mulher negra. O que muda ao longo dos séculos não é a função, é o endereço. Gonzalez chamava esse processo de amefricanidade: uma experiência de opressão específica, formada na intersecção entre racismo e sexismo, que não se explica plenamente nem pela teoria racial isolada, nem pelo feminismo branco isolado.
O feminismo que nunca teve escolha
É aqui que a filósofa Sueli Carneiro contribui com uma chave decisiva. Carneiro observa que, enquanto o feminismo branco historicamente discutiu maternidade como um dilema entre carreira e família, uma escolha a ser negociada, para a mulher negra brasileira a maternidade nunca foi apenas um projeto pessoal. Ela sempre foi também sustento, sempre foi trabalho, sempre foi sobrevivência. Não existiu o luxo da ambivalência.
Essa distinção reorganiza a forma de ler os 11 milhões de mães solo do país. Não são 11 milhões de escolhas individuais desafortunadas. São 11 milhões de mulheres carregando, sozinhas, uma função que o Estado brasileiro nunca estruturou como responsabilidade coletiva: creche pública insuficiente, licença parental que ainda trata o pai como visitante opcional na vida do filho, pensão alimentícia que depende de judicialização, provas e, no limite, prisão civil para ser cumprida. Segundo o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, apenas na capital federal foram decretadas 1.776 prisões civis por inadimplência de pensão alimentícia só no primeiro semestre de 2026, um número, segundo o próprio tribunal, quinze vezes maior que as prisões por tráfico de drogas no mesmo período. A escritora bell hooks tem um argumento que serve de lente para esse dado: reduzir o problema a julgamento moral do pai individual esvazia a crítica. O alvo certo é o patriarcado como sistema, sustentado por políticas públicas que nunca trataram o cuidado infantil como problema de todos.
O que a colonização também levou
Há uma camada ainda mais funda nessa história, e ela raramente aparece nas reportagens de Dia dos Pais. Antes da imposição do modelo de família nuclear europeu, herdado do processo colonial, comunidades indígenas e quilombolas no Brasil organizavam a criação de crianças de forma relacional, com múltiplos cuidadores: avós, tias, madrinhas, a aldeia inteira, o terreiro inteiro. O pensador indígena Ailton Krenak vem descrevendo, em diferentes textos e entrevistas, como essa lógica comunitária de parentesco foi substituída pela ideia de que uma criança depende estruturalmente de um núcleo fechado de dois adultos, um modelo que a colonização impôs como civilizado e universal, mas que é, na verdade, um entre muitos arranjos possíveis de cuidado humano.
Essa perspectiva não serve para minimizar o abandono paterno, ele continua sendo abandono, com custos reais e mensuráveis. Mas ela explica por que esse abandono pesa tanto mais hoje do que pesaria em arranjos comunitários: a mesma pesquisa do FGV Ibre revela que 72,4% das mães solo brasileiras vivem sozinhas com os filhos, sem rede de apoio próxima. O problema não é só que o pai saiu. É que, ao mesmo tempo, o processo de urbanização, desterritorialização e individualização imposto pela modernidade colonial também desmontou a rede que, historicamente, dividia esse peso. A mãe solo contemporânea carrega sozinha o que, em outras lógicas de parentesco, nunca foi projetado para ser carregado por uma pessoa só.
Nota de apuração: dados específicos sobre estrutura familiar e maternidade solo entre povos indígenas de Mato Grosso do Sul, como os Guarani e Kaiowá, não foram localizados nesta pesquisa preliminar. Qualquer aprofundamento nessa direção exigiria entrevista direta com lideranças, pesquisadoras da UFGD/UFMS ou fontes do próprio povo, nomeadas, e não deve ser tratado como extensão automática do argumento antropológico geral apresentado acima.
O nome que falta na certidão
Talvez o dado mais silencioso de todos seja também o mais simples: uma pesquisa do Instituto Locomotiva com o QuestionPro, ouvindo mais de mil brasileiros adultos, encontrou que quatro em cada dez entrevistados relataram não ter convivido, na infância ou adolescência, com um pai ou outra figura paterna presente. Não é um recorte de bairro, nem de faixa de renda isolada. É quase metade de uma geração inteira falando sobre o mesmo vazio.
Há, no entanto, um contraponto que merece registro: segundo a Arpen-SP, a proporção de reconhecimentos espontâneos de paternidade, quando o próprio pai procura o cartório depois do prazo inicial, vem crescendo. Em 2021, esses reconhecimentos tardios equivaliam a 14% do total de registros sem nome paterno naquele ano. Em 2025, a proporção subiu para 21%, e os dados parciais de 2026 apontam para 26,5%. É um movimento pequeno diante da escala do problema, mas é movimento. Alguns homens estão, ainda que tarde, procurando o próprio nome na vida dos filhos.
O que fica
Não existe forma de celebrar o Dia dos Pais sem, ao mesmo tempo, reconhecer o que sua ausência custa. Custa em dinheiro, em pobreza medida por índice oficial. Custa em tempo de trabalho não remunerado. Custa em uma criança em cada vinte nascida sem um nome na certidão. E custa, sobretudo, em um peso histórico que continua recaindo, de forma desproporcional, sobre mulheres negras, herdeiras de uma função que a colonização escravista atribuiu aos seus corpos e que o Brasil contemporâneo nunca se deu ao trabalho de redistribuir.
Não é sobre substituir uma data por outra, nem sobre transformar homenagem em acusação genérica a todo homem. É sobre lembrar que, atrás de cada estatística de ausência, há uma mulher que ficou. E que, historicamente, ficar nunca foi escolha: foi o que sobrou depois que tudo o mais foi tirado.



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