O que o Brasil não pergunta
- Vinícius Guarani

- 30 de jul.
- 7 min de leitura
Desde 1982, o Estado americano pergunta aos seus cidadãos se leram um poema, se foram ao teatro, se dançaram. O Estado brasileiro nunca perguntou. A diferença não está no hábito — está na pergunta.

Existe uma pergunta que um adulto americano pode ter respondido oito vezes ao longo da vida, e que um adulto brasileiro nunca respondeu.
Ela é feita pelo U.S. Census Bureau a cada cinco anos, desde 1982, a pedido do National Endowment for the Arts. Chama-se Survey of Public Participation in the Arts. Pergunta se a pessoa, nos doze meses anteriores, foi a um espetáculo de teatro, a um concerto, a uma exposição; se leu um romance, um poema, uma peça; se cantou, dançou, tocou, escreveu; e, desde a última rodada, se ouviu poesia. A amostra da edição mais recente passa de 29 mil pessoas.
O equivalente brasileiro não existe. Não é que exista e seja ruim, ou que exista e esteja atrasado. Não foi criado.
Essa ausência tem consequências que vão muito além da estatística, e é possível medi-las, com alguma ironia, exatamente onde os dados existem.
O que cada país se dá ao trabalho de perguntar
Instrumento | Desde | Frequência | O que cobre | Universo | |
EUA | Survey of Public Participation in the Arts | 1982 | 5 anos | Teatro, música, dança, museu, leitura de romance/poesia/peça, prática artística | Nacional, adultos |
França | Les Français et la lecture (CNL) | 2015 | 2 anos | Leitura | Nacional, 15+ |
Brasil | Retratos da Leitura (Instituto Pró-Livro) | 2001/2007 | ~5 anos | Leitura | Nacional, 5+ |
Brasil | Cultura nas Capitais (JLeiva/Datafolha) | 2014 | Irregular | 14 atividades culturais | Só capitais, 16+ |
Brasil | SIIC (IBGE) | — | Irregular | Economia, ocupação, gasto | Nacional, mas não mede hábito |
Lido assim, o quadro é menos sobre atraso e mais sobre desenho institucional. Os Estados Unidos acoplaram a pesquisa cultural ao censo, o que significa amostra proporcional, orçamento garantido e continuidade de quatro décadas. A França escolheu medir uma coisa só, leitura, mas medir sempre. O Brasil produz dados culturais por iniciativa de institutos privados, fundações e consultorias, financiados por lei de incentivo, em ciclos que dependem de patrocínio.
Nenhum dos levantamentos brasileiros é do Estado. Essa é a frase que organiza a reportagem.
O que os americanos descobriram por perguntar
A série longa serve para algo específico: detectar queda antes que ela vire colapso.
A edição de 2022 do SPPA mostrou que 48,5% dos adultos americanos leram ao menos um livro no ano anterior, contra 52,7% cinco anos antes e 54,6% dez anos antes. A leitura de romance ou conto caiu para 37,6%, contra 41,8% em 2017 e 45,2% em 2012, a menor taxa registrada na história da pesquisa. A leitura de poesia recuou para 9,2%, vindo de 11,7% em 2017, mas seguiu acima dos 6,7% de 2012.
O detalhe metodologicamente mais interessante é uma pergunta nova: em 2022 o levantamento passou a medir também a escuta de poesia, e encontrou 4,8% dos adultos, o equivalente a 11,8 milhões de pessoas. Quando se considera também a escuta, a fatia que se relaciona com narrativa literária sobe de cerca de 38% para 43%.
Ou seja: a série não apenas registrou a queda, como permitiu perguntar se ela é queda ou migração de suporte. Sem quarenta anos de dados comparáveis, essa distinção é impossível de fazer, e é justamente a distinção que interessa a qualquer política de leitura.
Outros achados da mesma rodada: 23% dos adultos visitaram uma biblioteca pública, 14% consumiram programas ou podcasts sobre livros e escritores, 5% participaram de um clube de leitura, e pouco menos da metade foi a um evento artístico presencial, queda significativa em relação a 2017.
O que o Brasil sabe, e o preço de saber assim
O Brasil não está no escuro. Tem dois levantamentos sérios, e ambos avançaram recentemente.
O Retratos da Leitura no Brasil chegou à sexta edição em 2024, com 5.504 entrevistas domiciliares em 208 municípios, e trouxe uma novidade decisiva: pela primeira vez os resultados podem ser lidos por unidade da federação. O retrato é duro. O índice caiu para 47% da população de mais de 5 anos, contra 52% em 2019, o que corresponde a 93,4 milhões de leitores ante 100,1 milhões na edição anterior. Pela primeira vez, os não leitores superaram os leitores. Santa Catarina apareceu como o estado com maior proporção de leitores, 64%, seguido por Paraná e Ceará, ambos com 54%.
O Cultura nas Capitais fez, em 2024, o levantamento quantitativo mais amplo já realizado no país sobre hábitos culturais: 19.500 entrevistas presenciais em todas as 27 capitais, com pessoas de 16 anos ou mais, aplicadas pelo Datafolha entre 19 de fevereiro e 22 de maio, com questionário de até 61 perguntas e duração média de 26 minutos, distribuídas por 1.930 pontos de fluxo. Margem de erro total de 0,70 ponto percentual.
É pesquisa de primeira linha. Mas note o que ela não pode fazer.
Ela cobre capitais, 37,5 milhões de pessoas, num país de mais de 200 milhões. Quem mora em Dourados, Corumbá, Aquidauana ou Bonito não está ali. E não é contínua: houve rodadas em 2014, 2017 e 2024, com escopos diferentes a cada vez.
Há ainda um limite que vale explicitar, porque quase nunca aparece na cobertura: a pergunta central mede se a pessoa foi, não quantas vezes. Quem foi ao teatro uma única vez no ano conta igual a quem foi doze. Frequência cultural, no Brasil, ninguém mede.
Campo Grande: 12% e 28%
Na edição de 2024, pela primeira vez, Campo Grande entrou no levantamento com relatório próprio, 600 entrevistas em 60 pontos, entre 2 de março e 15 de maio, margem de 4 pontos percentuais, sobre uma população de 701.321 pessoas de 16 anos ou mais.
Doze por cento dos campo-grandenses foram ao teatro nos doze meses anteriores. A média das 27 capitais é 25%. Menos da metade.
Quinze por cento foram a alguma atividade de dança, contra 24% na média nacional. Trinta por cento foram a festas populares, contra 36%. Vinte e três por cento praticam alguma atividade artística ou criativa. Seis por cento visitaram o site de algum museu.
A comparação com 2014, quando a mesma consultoria ouviu 564 pessoas na cidade, mostra queda em quase todas as atividades pesquisadas nas duas ocasiões, com recuo além da margem de erro em cinema, shows, festas populares, bibliotecas e circo.
Aqui poderia terminar uma reportagem de lamento. Mas o dado seguinte é o que importa.
Além dos 12% que foram ao teatro, outros 28% não foram e deram nota 8, 9 ou 10 para seu interesse em ir. Em dança, aos 15% que foram somam-se 20% de público potencial. Se essas pessoas fossem, o acesso mais do que dobraria.
Isso desmonta a explicação preguiçosa. A barreira em Campo Grande não é desinteresse. É preço, horário, informação, distância, hábito, coisas que se resolvem com política pública e com divulgação, não com lamento sobre o gosto alheio.
Vale registrar o resto do retrato, porque ele contraria a ideia de cidade sem vida cultural: os moradores nomearam espontaneamente 66 espaços culturais que frequentam e 80 eventos diferentes como sendo o mais importante da cidade, e citaram 28 museus ou exposições visitados, com o Museu José Antônio Pereira à frente. Em música, foram mencionados 52 gêneros, liderados por sertanejo (34%), MPB (27%), gospel (24%) e rock (21%).
Uma cidade que nomeia 80 eventos como o mais importante não é uma cidade sem cultura. É uma cidade sem consenso, o que é bem diferente, e bem mais interessante.
O sistema que a lei criou e o país não fez funcionar
Falta explicar por que os dados vêm todos de fora do Estado.
Não é por falta de previsão legal. O Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais, o SNIIC, é de criação obrigatória, definido pela Lei nº 12.343, de 2010, a mesma que instituiu o Plano Nacional de Cultura. Deveria ser o banco de dados nacional de bens, serviços, infraestrutura, investimentos, produção, acesso, consumo, agentes e gestão cultural.
Dezesseis anos depois, ele está sendo implantado. O Comitê de Governança do SNIIC realizou sua primeira reunião em 14 de maio de 2025, com 38 integrantes, marcando o início de uma nova fase cujo foco inicial, segundo o próprio Ministério, é a organização interna do Sistema MinC, com a perspectiva de avançar depois para estados e municípios que aderirem. Em 24 de fevereiro de 2026 o comitê fez sua quinta reunião, em Brasília, reunindo 21 unidades do Ministério, e a coordenação definiu 2026 como ano de consolidação estratégica.
Há sinais concretos de que a coisa anda: em maio de 2026 o Ministério divulgou um estudo que analisou 496 editais publicados por estados, DF e capitais entre 2023 e 2025, identificando avanço na implementação de cotas e editais específicos no fomento cultural. É exatamente o tipo de dado que não existia.
Enquanto isso, o IBGE segue publicando, com discrição quase suspeita, o Sistema de Informações e Indicadores Culturais, o SIIC, cuja sétima edição, referente ao período de 2013 a 2024, saiu em dezembro de 2025, orientada pelo marco referencial da UNESCO. Ele mede economia, ocupação, gasto público e familiar, preços, comércio exterior. Não mede hábito. E quase nenhum veículo cultural brasileiro o utiliza.
Medir é uma decisão política
Este veículo não tem autoridade para cobrar rigor sem admitir o próprio. Nesta mesma semana, ao apurar o Prêmio Oceanos, descobrimos que a série histórica de inscrições do prêmio é publicada de forma inconsistente pela imprensa especializada, três números diferentes para o mesmo ano. E, ao cobrir a safra de autores revelados por concursos em Mato Grosso do Sul, constatamos que ninguém mediu quantos deles seguiram publicando. A lacuna não é dos outros. É do campo inteiro, nós inclusive.
O que o caso americano ensina não é que os americanos leem mais. Em 2022 eles registraram a menor taxa de leitura de ficção da história da própria pesquisa. O que ele ensina é que eles sabem que caiu, sabem desde quando, sabem em qual gênero e sabem em qual faixa etária, e podem, portanto, discutir o que fazer.
Perguntar é caro. Perguntar sempre, do mesmo jeito, por quarenta anos, é muito caro. Um país decide fazer isso quando considera que a resposta importa.
O Brasil ainda não decidiu. E enquanto não decide, os 28% de campo-grandenses que gostariam de ir ao teatro e não vão seguem sendo, para efeito de política pública, gente que não existe.



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