O recado que a ASL está mandando ao escolher André Alvez
- Vinícius Guarani

- 10 de ago.
- 4 min de leitura
Entre o vento do Pantanal e o vento das ruas, uma cadeira vitalícia muda de sotaque

No último sábado (8), André Alvez subiu ao palco da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), vestiu a faixa verde e branca de acadêmico e tomou posse na cadeira 28. Foi o desfecho de um processo que começou dois meses antes, em 10 de junho, quando ele e mais cinco candidatos disputaram duas vagas abertas desde 2023. Alvez venceu ao lado de Brígido Ibanhes, escritor da fronteira com o Paraguai. Passados esses dois meses, cabe olhar para trás e entender o que essa escolha diz sobre os critérios de legitimação literária em Mato Grosso do Sul, e o que se pode esperar de Alvez agora que ocupa uma cadeira vitalícia na mais tradicional instituição literária do Estado.
Fundada em 1971 como Academia de Letras e História de Campo Grande, a ASL segue o modelo institucional da Academia Brasileira de Letras: quarenta cadeiras vitalícias, sucessão por eleição entre pares, um edifício de memória que carrega o peso da tradição. É justamente essa arquitetura de continuidade que torna a escolha de André Alvez tão significativa, porque ele não sucede um nome qualquer. A cadeira 28 pertenceu, até 2023, a Augusto César Proença: corumbaense nascido em 1940, filho de família tradicional da Nhecolândia, autor de livros como "Raízes do Pantanal" e "Memória Pantaneira". Proença escreveu a partir de um imaginário específico, o boiadeiro, a fazenda, a oralidade do Pantanal como reserva de identidade sul-mato-grossense.
André Alvez chega escrevendo outra cidade. Publicitário formado pela UNISA-SP, com pós-graduação em Literatura Brasileira pela UCDB, começou a escrever aos catorze anos, em 2006, ainda em caderno, antes de a internet tornar mais simples publicar. Assinou o Caderno B do Correio do Estado entre 2008 e 2019 e hoje mantém a coluna semanal "Beba das Crônicas" no Campo Grande News. Foi presidente da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul e soma sete livros publicados, entre romances, contos e crônicas: "A Bruxa da Sapolândia", romance que o projetou no meio literário local; "O Olho Esquerdo" (Editora Patuá, 2020), livro de contos que opera no realismo mágico, cruzando o cotidiano urbano com o fantástico; e "Todo Bicho Alado Sente Medo do Vento", o mais recente. Ficou em segundo lugar no Concurso de Contos Ulysses Serra, promovido pela própria ASL, em 2019. Circula também pelo audiovisual, com formação em roteiro ao lado de nomes como Anna Muylaert e José Eduardo Belmonte.
A substituição de um pelo outro numa mesma cadeira não é acidente de calendário. É a Academia declarando, na prática, que o repertório de vozes autorizadas a representar a literatura sul-mato-grossense mudou de eixo: do rural fundador para o urbano contemporâneo, do escritor formado nas letras clássicas para o cronista que aprendeu a escrever em blog e coluna de jornal digital, do Pantanal como matriz simbólica para a cidade como matéria-prima. O mesmo pleito elegeu Ibanhes, criado num cenário trilíngue de fronteira, sucessor de um jornalista do Correio do Estado morto em 2023: outro deslocamento, dessa vez rumo à experiência fronteiriça como fonte legítima de literatura, ao lado do regionalismo pantaneiro que a ASL já consagrava.
Não é a primeira vez que uma academia de letras enfrenta esse tipo de tensão. A própria Academia Brasileira de Letras nasceu abrigando cronistas e jornalistas ao lado de romancistas canônicos, Machado de Assis sendo o exemplo mais óbvio, e ainda assim o gênero crônica seguiu por décadas tratado como literatura menor diante do romance e da poesia. O que a ASL faz agora, ao trocar um memorialista do Pantanal por um cronista de jornal digital, é repetir em escala regional um movimento que as instituições literárias tradicionais costumam fazer tarde: reconhecer que a legitimidade não é mais garantida apenas pela filiação a um cânone fixo, mas também pela capacidade de um autor sustentar, ano após ano, um público que o lê semanalmente e o reconhece como voz da cidade.
O que esperar de Alvez daqui pra frente. A cadeira vitalícia não costuma mudar quem já tem trajetória consolidada, e é improvável que ele abandone o registro que o trouxe até aqui: a crônica urbana, o realismo mágico aplicado ao cotidiano, a atenção às ruas de Campo Grande. O que muda é o alcance institucional desse registro. Alvez leva para dentro da ASL um público que a Academia historicamente não alcançava sozinha, o leitor de coluna semanal de jornal digital, e leva também sua experiência em audiovisual, um terreno que a instituição pouco frequenta. Se a Academia quiser usar essa cadeira para se aproximar de um público mais jovem e mais digital, tem em Alvez o acadêmico mais preparado para essa ponte.
A cerimônia de sábado reuniu, no mesmo salão, os pares de faixa verde e uma plateia que ia da família estendida a leitores anônimos. É uma imagem que resume bem o que essa posse representa: a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras abrindo suas portas mais tradicionais para quem construiu carreira fora dos circuitos clássicos de legitimação literária. "É o sopro do vento que me move a escrever", disse Alvez certa vez, sobre um de seus livros. Antes, esse vento soprava do Pantanal. Agora, sopra pelas ruas de Campo Grande, e vai soprar também pelos corredores da Academia.



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