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Peça Única: Dourados is burning

Atualizado: 28 de jul.


Por Zóia Münchow*



Figura 1 — Espetáculo Peça Única.



Parte I — A chama que se transmite

 

Uma chama em Dourados

 

“Eu amo a arte de vocês. A arte de vocês atravessa as pessoas e reacende, dá vontade de viver de verdade”: estas foram as palavras pronunciadas por uma das pessoas que participaram do bate-papo que aconteceu depois da apresentação de Peça Única, trabalho da House of Hands Up (MS), no qual a dança, a performance, a moda e a estética da dança vogue são a expressão da pulsão vital coletiva de uma comunidade construída nas tramas da história da cultura Ballroom em Mato Grosso do Sul. Sob direção, coreografia e figurinos de Roger Pacheco, com direção artística de Marcos Mattos, figurinos extraordinários do ateliê de costura Frateliê, desenho e operação de luz de Breno Lucas, os intérpretes Tarso Aguillera, Flávio Santos, Gabriela Mancine, Yara Maria, Daniel Andrade, Afrodite Fetake, Greyce Kelly Fetake, John Mike, Maya Silva e Roger Pacheco fizeram Dourados pegar fogo em muitos sentidos e, a julgar pela conversa que se passou logo após o espetáculo, acrescentaram chamas à cena Ballroom douradense. Ballroom, para a House of Hands Up (MS), é uma cultura que diz respeito à família escolhida, à comunidade, ao pertencimento, à memória, ao hackeamento, ao corpo-território, à precariedade e à gambiarra; trata-se de uma política da vida, ou melhor, de um modo político de existir.



De Paris is Burning a Mato Grosso do Sul

 

Em 1990, veio a lume Paris is Burning. Dirigido por Jennie Livingston, o filme apresenta as performances, as danças e a moda da comunidade LGBTQIAPN+ afro-americana e latina que fizeram parte da cultura Ballroom da Nova York dos anos 80. Cultura que joga a performance contra a performatividade dominante de gênero, sexualidade e classe. Para não retomar Butler, restringir-me-ei a pensar no modo como opera uma desnaturalização dos papéis da família dita tradicional. Na cultura Ballroom, a mãe não é definida com recurso à biologia ou a alguns dos termos do dimorfismo sexual; sobressai, assim, a função materna como função a ser ocupada por alguém, levando em consideração outros critérios, por exemplo, o cuidado com a coletividade. Quando a House of Hands Up (MS) entrou em cena no palco do Casulo, sem que dissesse uma palavra, fez pegar fogo às violências que pesam sobre as minorias na nossa cidade, não porque tenha colocado fogo nos nossos algozes, mas porque colocou amentou as chama de nossos próprios corações. Peça Única é chama que se transmite sem se perder: Mato Grosso do Sul is burning.



Brasil is burning: circulação e vida

 

Brasil is burning, porque Peça Única integra o Palco Giratório, circuito nacional de artes cênicas do Sesc, o Serviço Social do Comércio. A House of Hands Up já viajou para diferentes partes do Brasil e ainda viajará para outras tantas, para reacender a chama da vida em comunidade, a chama da cultura que queima as estruturas de violência ao inflamar a afirmação da beleza daquilo que difere. São Paulo ainda terá o privilégio que Dourados teve de aumentar a potência de agir dos inconscientes que protestam. Peça Única não trabalha na linha da reatividade: sem ignorar os problemas que se impõem aos “corpos dissidentes, racializados, atravessados por questões socioeconômicas” (Pacheco), o princípio criativo que movimenta o trabalho é a vida. O desejo é não ficar refém do discurso das dores e daquilo que se perdeu; a questão é perceber que o desejo também está vibrando neste lugar. Trata-se, segundo Roger Pacheco, de “tentar que a gente fosse vida. [...]. Que essa vida estivesse aqui, que essa alegria, que essa força, que esse lugar dissesse” essa vida. “Então eu acho que eu queria deixar isso registrado também, porque daí quando chega na gente, chega enquanto vida, não chega enquanto morte, não chega enquanto perda, não chega enquanto sofrimento que a gente já enfrenta”.



Parte II — A casa fala: vozes da comunidade

 

O texto que se segue reúne o que foi dito durante a conversa que aconteceu logo após o espetáculo. Além da House of Hands Up, que apresentou Peça Única, também estiveram presentes a House of Bombshell, a Casa de La Basura e outras tantas pessoas que também tiveram o privilégio de se deixar afetar pelos potentes perceptos de Peça Única. Preferi não colocar os nomes das pessoas, porque só dispunha da gravação de áudio; assim, preferi me valer da ideia de que se trata das vozes que encontram na vida em comunidade o objetivo comum. Uma multiplicidade que se pensa e que, tomei a liberdade de gravar, transcrever, selecionar trechos e propô-los sob a seguinte organização, que me parece dar conta dos principais temas presentes no debate: vida, comunidade e cuidado; a arte que não pede licença; Ballroom como casa e linguagem de sobrevivência; o que é Peça Única?; figurinos, acervo e vida cotidiana; casa, família e possibilidades de vida; hackear espaços, construir dramaturgias; reencontro, pertencimento e vida.



Vida, comunidade e cuidado

 

“Aqui a gente vibra, a vida encosta na gente.” “Porque o intuito de Peça Única é isso, né?” “Trazer a vida, como a Adriana falou aqui, não é nunca sobre a tristeza. Acontece: a gente vive a nossa vida, quem é queer sabe, as pessoas LGBTs, pessoas caretas e mulheres são uma das dissidências que mais sofrem no Brasil. Mas, e depois? Quando a travesti é empregada? Ela só vai trabalhar a vida inteira? Não. Ela vai viver, ela vai viajar, ela vai encontrar a família; mesmo que ela não tenha na sociedade, ela tem dentro da comunidade.” “É uma coisa que eu sempre falo, eu gosto muito de falar, parece clichê, mas a gente não é sociedade, a gente é comunidade.” “A sociedade é diferente.” “Na sociedade tem desemprego, racismo, transfobia; é totalmente o contrário do que a gente é como comunidade.” “A ideia que a gente precisa passar para as manas que entram dentro de casa é que ali vai ser diferente, ali ela vai ter uma postura diferente, aquilo ali é uma formação de pessoa.” “Se vocês me conhecessem no início, quando eu entrei na minha casa, eu não estava tão intencionada ainda.” “Eu tinha várias questões na minha cabeça que eu não entendia, por vários fatores, mas, quando eu conheci a Ballroom, eu me formei, eu me entendi, eu soube me olhar no espelho, eu soube me cuidar, eu soube escovar meu dente, eu soube tomar meu banho.” “É sobre comprar meu perfume, um creme de cabelo, um produto de pele.” “A gente pede isso para as manas: se olhar com carinho, se cuidar, cuidar da mana.”



A arte que não pede licença

 

“Eu acho que Peça Única, além de ser um espetáculo muito bem polido, muito bem trabalhado, é uma mensagem para quem assiste.” “Às vezes, não são apenas pessoas LGBTs que assistem, não são apenas pessoas pretas que assistem. Tem pessoas cisgêneras, tem mulheres, tem mães, tem pessoas preconceituosas, tem pessoas de outros partidos políticos, contrários ao nosso.” “São várias coisas que atravessam a gente, só que a gente sai derrubando tudo. Não de forma arrogante, mas porque a gente não pede licença.” “A nossa arte está aqui, você está aqui para assistir a gente, para aprender com a gente, e talvez a gente esteja aqui para aprender com vocês também.” “O intuito de Peça Única é atravessar aquilo que a gente faz na nossa vida enquanto artista, independentemente de ser na dança, na arte visual, na moda ou na Libras.” “A gente quer transmitir a melhor informação, varrer tudo que polui a nossa comunidade e mostrar o resultado de tudo.” “A Ballroom está mudando, é a grande potência artística da cena do Brasil hoje em dia.” “Nós não somos um grupo de dança, somos uma casa da cultura Ballroom; por isso, procuramos sempre a comunidade, as pessoas que estão na plateia, e temos essa troca muito positiva.”



Ballroom como casa e linguagem de sobrevivência

 

“Peça Única não apresenta a Ballroom como tema distante ou objeto de explicação; ela apresenta a Ballroom como vida cotidiana, como prática de comunidade, como linguagem de sobrevivência e como forma de arte.”. “Porque a gente não é um grupo de dança; a gente é uma casa. O nosso diferencial é ser uma casa.”. “A nossa conexão no palco não é uma conexão de artistas que fizeram uma preparação cênica. Não. É uma conexão de irmãs e irmãos.”. “A gente está falando sobre possibilidades de vida que nos são negadas em qualquer outro lugar.” “Então é sobre pensar onde a gente consegue hackear esses espaços para ocupá-los e nos mostrar.”. “A peça é atravessada pela precariedade e pela gambiarra, mas não como diminuição do trabalho; ao contrário, ela mostra como a comunidade transforma falta de recurso em invenção, beleza e potência.”



O que é Peça Única?

 

“Eu fiquei pensando: Peça Única, o que será?” “Por que Peça Única?” “Porque peça única é a última peça que tem.” “E também por que peça?” “Nós somos uma peça.” “Mas aí, com você falando, eu entendi que Peça Única não é pela unicidade da peça, mas porque é a peça única que vocês partilham; então, ela é a que é vital.” “Eu queria perguntar para vocês: o que é Peça Única?” “Porque, de peça única, esse espetáculo não tem nada, né?” “Devia se chamar peças múltiplas, de tantas malas que a gente carrega para cima e para baixo.” “Mas é exatamente isso: você vê a densidade, porque cada pessoa é uma peça única.” “E a gente não se constrói sozinho.” “Então cada pessoa tem seu canto, mas é esse conjunto que faz a peça ser, de fato, única.” “Ninguém caminha sozinho.”



Figurinos, acervo e vida cotidiana

 

“Porque, de peça única, esse espetáculo não tem nada, né?” “Devia se chamar peças múltiplas, de tantas malas que a gente carrega para cima e para baixo.” “São muitas malas; a maior não é nossa mala de roupa, é nossa mala de figurino.” “A gente tem várias coisas relacionadas às araras, ao sofá e aos bancos.” “As araras são basicamente o acervo da House.” “Todos os desenhos, todas as peças de roupa são produzidos por um artista.” “Esses figurinos se completam.” “Uma jaqueta [...] vira a jaqueta da minha irmã; uma saia [...] vira outra peça.” “Isso também está falando da minha casa e diz muito sobre o movimento Ballroom.” “É o que a gente faz no nosso tempo livre.” “É o que a gente estuda, assiste, convive e discute.” “A gente fala muito sobre técnica, mas são técnicas que a gente estuda. É o que a gente vive de fato.” “Porque a gente vive isso no dia a dia, entendeu?”

 

Casa, família e possibilidades de vida

 

“Porque a gente não é um grupo de dança; a gente é uma casa.” “O nosso diferencial é ser uma casa.” “A nossa conexão no palco não é uma conexão de artistas que fizeram uma preparação cênica. Não. É uma conexão de irmãs e irmãos.” “Porque ela cuida de mim, eu cuido dela, e a gente se fortalece.” “A gente nunca precisou disso porque é família.” “Porque a gente nunca foi sozinha, sempre se cuidou.” “Não, é no sentido de que estamos em família.” “A gente não está falando sobre pegar um avião e ir para outra cidade dançar; estamos falando sobre possibilidades de vida que nos são negadas em qualquer outro lugar.” “Isso só é possível, feliz e grande porque estamos em família.” “Isso só é gigantesco porque nós somos cultura Ballroom e vivenciamos isso diariamente.” “Foi a primeira vez que muitas pessoas ficaram hospedadas em um hotel.” “Foi a primeira vez [...] que eu vou conhecer o mar.” “Em abril foi a primeira vez que eu voei de avião.” “Eu estava ali realizando talvez um desejo [...] mas chegou o momento e eu não estava só.”



Hackear espaços, construir dramaturgias

 

“Nós somos a primeira casa.” “Como eu hackeo esse espaço?” “Durante 28 anos nunca teve.” “O que eu preciso para a gente estar lá?” “Nunca existiu o edital Ballroom, no Mato Grosso do Sul.” “Como a gente acessou esse espaço?” “Então é sobre pensar onde a gente consegue hackear esses espaços para ocupá-los e nos mostrar.” “A gente tem estudado um pouco o que é dramaturgia, como é a dramaturgia em dança.” “Elas contam várias coisas, de vários contextos, mas estão ligadas por um fio condutor, que é a Ballroom, que é a vida delas.” “A gente vai conseguir ver as categorias.” “A gente consegue ver uma linha cronológica.” “Os looks vão mudando, a tensão vai mudando.” “A gente vê isso vibrante no corpo dele.” “Isso é trabalhado com cada pessoa do elenco.”

 

Reencontro, pertencimento e vida


“A arte de vocês atravessa as pessoas e reacende, dá vontade de viver de verdade.” “Foi uma peça de reencontro.” “É lindo, de pertencimento e de sonho.” “Eles conseguiram, eu também consigo.” “Vendo vocês dançando, eu entendi tudo o que estavam falando.” “A dança conversa comigo.” “Foi algo de reencontro.” “Cada vez que iluminava assim, iluminava alguém aqui dentro de mim.” “Quando a gente vai discutir corpos dissidentes, racializados, atravessados por questões socioeconômicas, a tendência desse trabalho é sempre ser muito triste.” “É sempre trazer as dores, falar do que se perdeu.” “A gente não pode deixar esse trabalho chegar nesse lugar.” “É vida.” “Aqui a gente vibra.” “A vida encosta na gente.” “O intuito da Peça Única é trazer a vida.”



Parte III — Peça Única: arte como força vital

 

Abrir o campo do possível


Wellington Duarte pensa a coreografia em termos de gramática e linguagem. Em Vexame, ele nos oferece uma investigação sobre o possível que é também abertura do possível. Chico Neller parece pensar em termos do corpo, da temporalidade que se produz na relação de velocidade e lentidão dos corpos; talvez o que tenha permanecido dessa assinatura, na recriação de Rompendo o silêncio, assinada por Vanessa Macedo, seja a questão do tempo. Rompendo o silêncio é marcado pelo tempo do sonho, do corpo que dorme e acorda envolvido numa relação de sedução que o amarra nas malhas da violência, onde pode também encontrar sua libertação. No trabalho de Roger Pacheco, a dança é pensada em termos de dramaturgia do movimento, do corpo e dos figurinos que o envolvem na dimensão vital da beleza artística. Deixando de lado as diferentes percepções desses diretores, o que me parece ficar patente entre todos é que estão longe de encontrar em René Descartes e no “penso, logo existo” o fundamento da presença do corpo que dança; assim, passam longe do modo de pensar a dança como ela foi pensada por Maurice Béjart em Cartas a um jovem bailarino. Em comum, em todos esses trabalhos, há a busca por uma saída para o desejo e para a vida; é do campo do possível que se trata. Hackear o sistema é abrir o campo do possível.



A peça única é coletiva


Peça Única é a vida tornada meio de expressão artística; ou melhor, Peça Única é a arte que surge da pulsão vital, arte que pulsa e faz pulsar, arte dirigida aos inconscientes que protestam, arte que não perde a conexão com a vida. Peça Única é um título polissêmico: pode ser o indicativo de que só há uma peça de roupa; isso pode indicar que se trata daquela que é a última peça. A peça única pode significar a exclusividade de uma peça que só pode pertencer a um único indivíduo, que, com a peça única, reafirma sua própria importância e raridade: a peça com marca distintiva numa relação hierárquica.

No caso da House of Hands Up, o que faz a peça ser única é a coletividade. É como se cada pessoa emprestasse à peça a sua singularidade. A peça única, assim, torna-se única pelo uso que a desloca e a marca.



Dramaturgia da vida


Sem nenhuma palavra, é a dramaturgia de Peça Única, com a moda e a dança forjadas no interior da cultura Ballroom, que faz os corpos-territórios dizerem o que precisa ser dito e não encontra palavra. Ver Peça Única é como ler alguns textos de Paul B. Preciado, nos quais encontramos a potência vital que nos ajuda a conduzir nossos pensamentos em direção ao caminho da alegria e da vitalidade. Em Peça Única, encontramos algo de fato raro, difícil de encontrar: a reconexão com as nossas próprias forças vitais. Ver Peça Única foi como ver Mutação de apoteose, no Teatro Oficina.

Essa capacidade de produzir a reconexão que nos leva ao estado de uma alegria guerreira só é possível porque, em Peça Única, como no Teatro Oficina, a relação com a arte não é burocrática. Trata-se de uma relação vital, uma relação com o corpo-território. Não há messianismo: importa o aqui e o agora; importa saber ocupar espaço, olhar em volta, reconhecer as amizades e as impossibilidades. Trata-se de fazer a revolta de Canudos: Peça Única não pode ser massificada, mas precisa ser coletivizada. A House of Hands Up não é uma sociedade nem a sociedade, mas uma comunidade vital.



Constelação, não close


O que vemos em cena não é o resultado do trabalho de quem se encontra momentos antes para se aquecer ou de quem faz laboratório por alguns meses. O que vemos é uma cena que se constrói no palco como efeito de uma cena comunal, a cena que se constrói no salto diário, com quem está junto no sentido físico e metafísico de estar junto. A cena do palco é o efeito de viver em comunidade. Toda beleza colocada em cena não é bem compreendida se pensada como close individual; a beleza da cena encontra-se mais na formação da constelação do que na estrela que brilha solitária.



O único não é o um


Peça Única, da House of Hands Up, nada tem a ver com a ideia de uma peça única que se encontraria preservada no museu e cujo valor dependeria da conservação intocada de sua identidade material. A peça única é mais como uma peça do Bispo do Rosário ou como o colar de Elke Maravilha. Durante sua vida inteira, Elke Maravilha construiu um colar; ele foi incrementado, rearranjado, reinventado sem parar. Ela dizia que só pararia quando morresse. A unicidade da peça única vem do seu modo aberto de existir no tempo.

Peça Única não se compara: sua unicidade não pode ser confundida com unidade. Unicidade equivale a incomparabilidade. Não há medida de comparação que permita avaliar o que é único. O único é aquilo de que não há nada igual. Como olhar para aquilo que não se compara? Único é aquilo que precisa ser aprendido na sua positividade própria.

Peça Única é a afirmação que não pede licença, porque costurada na experiência vital da aliança que se constrói mais na potencialidade da luta da encruzilhada do que na intersecção das opressões. Trata-se da ação produzida nas linhas que se entrelaçam na trama do movimento da experiência estética coletiva e, por isso, tem força política

Peça Única não é uma só: o único não é o um; o único é o absolutamente singular, aquilo que não pode ser imaginado. O único é da ordem da intuição. É intuitivamente que aprendemos aquilo que é único. Aprender intuitivamente é inteligir o ato de produção, a gênese atual daquilo que é único. Peça Única, em sua unicidade, é a multiplicidade concreta dos corpos envolvidos na história de sua trama.

 

A alegria como prova


Peça Única atua no registro da política da alegria. O diretor pontuou que uma das coisas que ele não queria era que Peça Única acabasse reduzida aos efeitos da violência que afetam as minorias. O desejo era o de atravessar as pessoas com a força vital da alegria. Não se tratava, como vemos pelas citações da Parte II deste trabalho, de uma alegria alienada e alienante. Em Peça Única, a violência e o sofrimento não são colocados para escanteio. A violência que pesa sobre nós está presente, mas de uma outra maneira: como a alegria de quem sobreviveu ao horror da violência moral e que, em determinado momento, sustentou o gosto da vitória da beleza de seu singular modo de existir.

Oswald de Andrade escreveu que a alegria é a prova dos nove. Ao tomar a alegria como prova matemática,o poeta situa a alegria como bússola ética: a alegria é posta como evidência incontestável da potência vital, a prova de que algo deu certo. Essa alegria nada tem a ver com a euforia; aliás, até tem, porque ele falava na cocaína da infância, mas não necessariamente precisa estar ligada a essa ideia. Trata-se de uma alegria espinosana de quem busca a liberdade como modo de vida. Alegria guerreira de que nos falava Zé Celso, alegria própria da tragédia na qual se afirma, com toda a intensidade, a singularidade do destino humano, condenado à própria liberdade.

Essa foi a alegria que encontrei no trabalho da House of Hands Up. Talvez não seja incorreto dizer que a dramaturgia de Peça Única é a dramaturgia da alegria, dramaturgia dionisíaca. Além de eu mesmo ter sentido vontade de dançar naquele palco com aquelas entidades que preenchiam a cena com potências de belezas raras, ouvi outras pessoas comentando esse desejo de dançar junto. A vontade é, tal qual a de uma bacante inebriada pelo vinho dionisíaco, deixar-se levar ao encontro dessa divindade da dança, do teatro, dos efeminados, das mulheres e dos devires. São as forças mais nobres que as entidades que entram em cena nos fazem presentificar: cada uma entra com sua peça única, sendo peça única de uma peça única, com o movimento que produz uma beleza própria, única, de entidades que chegam para curar as feridas das violências que sofremos. Em nenhum momento, ou em quase nenhum momento, se para para contar a história da vítima. O fato é que sentimos a presença da alegria produzida pela responsabilidade vital de quem sobreviveu e sobrevive às violências que o mundo impõe às minorias. No entanto, é como se o sofrimento fosse uma pequena sombra que faz o olhar afirmativo brilhar ainda mais: a alegria que reflete no encontro dos olhares de quem busca criar outro mundo possível no interior deste que é inaceitável.

 

 *Zóia Münchow é professor de filosofia no IFMS e doutorando em filosofia na USP. 

 

Referências

 

ANDRADE, Oswald de. A alegria é a prova dos nove: antologia. Organização de Luiz Ruffato. São Paulo: Globo, 2011.

BÉJART, Maurice. Cartas a um jovem bailarino. Tradução de Roberto Borges. São Paulo: Ercolano, 2025.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MATO GROSSO DO SUL. Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Galeria de imagens: espetáculo de dança Peça Única. Campo Grande, [s.d.]. Disponível em: https://www.fundacaodecultura.ms.gov.br/galeria-de-imagensespetaculo-de-danca-peca-unica/. Acesso em: 21 jul. 2026.

TEATRO OFICINA UZYNA UZONA. Mutação de Apoteose. Direção de Camila Mota; dramaturgia de Cafira Zoé. São Paulo: Teatro Oficina, 2024. Espetáculo teatral.

DUARTE, Wellington; NÚCLEO ENTRETANTO. Vexame. Instalação coreográfica. Direção e condução coreográfica: Wellington Duarte. Criação e interpretação: Guma Joana, Gustav Courbet, Mirê Pi, Saolla Sousa, Rodrigo Alcântara e Pedro Galiza. São Paulo: Centro de Referência da Dança, 2025. Espetáculo assistido em São Paulo.

GINGA CIA DE DANÇA. Rompendo Silêncios. Espetáculo de dança contemporânea. Direção e coreografia: Chico Neller. Recriação coreográfica e dramaturgia: Vanessa Macedo. Mato Grosso do Sul, 2026. Espetáculo assistido em Dourados, 18 abr., na Caixa Preta.

LIVINGSTON, Jennie. Paris Is Burning. Estados Unidos: Off White Productions, 1990. Filme.

NELLER, Chico. Corpos (In)submissos. Oficina de dança contemporânea. Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dourados, 18 abr. 2026.

PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.

HOUSE OF HANDS UP MS. Peça Única. Espetáculo de dança e performance. Direção e coreografia: Roger Pacheco. Direção artística: Marcos Mattos. Figurinos: Roger Pacheco; Frateliê — Ateliê de Costura. Desenho e operação de luz: Breno Lucas. Casulo, Dourados, 2026.

Peça Única: conversa pós-apresentação, organização temática e transcrição documental. Documento não publicado. Registro documental de conversa pós-apresentação realizada no Casulo, Dourados/MS, em 19 jul. 2026. Organização temática e transcrição elaboradas a partir de gravação de áudio realizada por Zóia Münchow. 2026.

 

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