Sobre Ser Bixa na Escola
33 menos 9 é igual a 24. Uma conta que a escola ensinou a temer.

33 - 9 = 24. Este foi o número de anos que passei no interior dos muros escolares, número cujo significado, coincidentemente — e isto eu aprendi na escola, pois os meninos tinham pavor de que seu número na lista da chamada fosse este — é atribuído ao veado. Ocupar este lugar na lista, nestes 24 anos, tem sido problema para muita gente. BIXA, viado, queima rosca, gay, gayzinho, mulherzinha, eu poderia continuar, pois a lista de nomes que já utilizaram com o objetivo de me ofender na escola é grande.
Foi ao som desses elogios que me tornei essa BIXA maravilhosa que sou! Até a terceira série foi tudo tranquilo, nesta série passei a frequentar o recreio com os mais velhos e foi aí que comecei a deixar de gostar da escola e a reprovar.
Da minha segunda vez na quarta série até a sexta a violência física acabou, pois eu aprendi a fugir sem nem mesmo ter lido Deleuze. Porém as agressões verbais direcionadas a mim não pararam. Na quinta série ninguém falava comigo na sala, talvez por medo de contaminação, era horrível ter que ir a um lugar sem a presença de um rosto amigo e saber que todos estavam debochando de mim.
No ensino médio foi melhor, pois tive mais amigos e assumi uma postura mais combativa. Essa postura não foi suficiente para que ao lado do meu nome na lista de chamada não fossem escritas palavras ofensivas e para que eu deixasse de ser ameaçado. De todo modo era muito difícil ficar ouvindo as piadas e as ameaças.
O pior de tudo é que eu não tinha a quem recorrer. Como eu poderia relatar em casa as coisas que me falavam se eu sabia que isso levantaria suspeitas ao meu respeito?
Tornei-me professor. Deixei todo mundo de queixo caído quando rapidamente agi diante da "brincadeirinha", ninguém esperava uma BIXA ali dentro, ainda mais uma BIXA que fosse colocar em questão o que estava sendo dito.
No primeiro dia de aula já me apresentei da forma seguinte: "Oi, eu sou o professor BIXA de vocês, não precisam ficar pensando coisas". Afirmei-me não por ter necessidade de ficar querendo chamar a atenção como muitos pensam, mas por causa dxs estudantes e dxs professorxs que ainda não têm forças para afirmarem suas identidades dissidentes e porque só sei existir assim, esse é meu jeito.
Não sejamos mais BIXAs, sejamos super BIXAs, pois nossa potência está em ser o que somos e se fizermos isto em conjunto então será só festa, alegria, política.[1]
[1]Texto originalmente publicado no blog Coletivo Casa da Diferença. O autor, anteriormente publicado como Cleiton Zóia Münchow, assina atualmente apenas como Zóia.




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