Sylvia Cesco: A literatura como o vigor da vida
- 15 de jul.
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Publicado no blog Entre Textos exatamente no dia em que Sylvia Odinei Cesco da Silva completou 80 anos, este texto de Alan Silus é ao mesmo tempo homenagem e leitura crítica de uma das personalidades mais expressivas da cultura sul-mato-grossense contemporânea. Nascida em Campo Grande em 4 de junho de 1945, Sylvia é apresentada por Silus como uma voz que brota da terra vermelha do cerrado, com a força e a ternura das mulheres que narram o mundo enquanto o transformam, frase que dá o tom de todo o texto.
Formação e atuação social
Formada em Letras Neolatinas e em Pedagogia pela antiga FADAFI (hoje UCDB), Sylvia construiu ainda uma sólida formação complementar: pós-graduação em Educação e Supervisão Escolar pelo MEC-INEP/USP, especialização em Língua Portuguesa pela Universidade de Taubaté e em Roteiro para Rádio, TV e Vídeo pela ERTEL. Sua carreira atravessa décadas como professora e também como gestora em instituições públicas e privadas, com foco especial em crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, área na qual, escreve Silus, ela aliou conhecimento técnico e sensibilidade humana. Por oito anos representou a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor em Mato Grosso do Sul, propondo a substituição da internação de crianças e adolescentes por casas-lares, contribuição que ajudou a moldar o Estatuto da Criança e do Adolescente e a implantação dos Conselhos Tutelares no estado.
A obra literária, livro a livro
Silus organiza o corpo do texto como uma travessia cronológica pela obra de Sylvia, sempre intercalando apresentação de contexto com leitura interpretativa.
Em Guavira Virou (2011), ele descreve uma escrita atravessada pelo imprevisível, marcada por uma pulsação lírica e por uma conjunção de leveza poética e erotismo. A partir de um poema que atribui título ao livro, Silus, apoiando-se também em sua própria pesquisa de doutorado, interpreta a fruta nativa do cerrado, tradicionalmente colhida por mulheres indígenas e vendida em feiras populares, como símbolo de crescimento e potência feminina. Ele nota como a autora eleva a guavira à condição de verbo, conjugando-o na primeira pessoa e construindo uma voz poética que se revela sujeito criador da própria palavra — um processo de amadurecimento associado ao florescimento da identidade artística.
Em Mulher do Mato (2013), Silus lê a figura feminina não como arquétipo, mas como sujeito histórico enraizado na terra, nas memórias e nos enfrentamentos cotidiano, uma celebração das matriarcas, rendeiras e lavradoras que sustentam, silenciosamente, a cultura popular. No poema-título, ele identifica uma personagem mítica e ancestral que sintetiza o humano, o vegetal e o animal; a abertura do poema é lida como denúncia de um gesto de resistência, uma crítica implícita às estruturas que tentam domesticar a liberdade feminina. Silus destaca também a fusão entre corpo e território sugerida pelo vocabulário ligado à guavira e ao cerrado, e a imagem de cercas e limites que a mulher descrita consegue sempre escapar, não por negação, mas por natureza, tornando-se ela própria uma força da paisagem. O poema se fecha, segundo ele, com uma inversão temporal que afirma a permanência do impulso vital e da liberdade mesmo diante da passagem dos anos: um manifesto lírico de liberdade e integridade onde corpo, tempo, território e identidade se fundem.
Com Histórias de Dona Menina (2014) é apresentado como experimentação do terreno híbrido entre infância e memória, reconstruindo, por meio de histórias que mesclam humor, afeto e crítica, imagens da infância, do cotidiano simples e da sabedoria popular.
Em Ave Marias Cheias de Raça (2015), Sylvia volta-se ao universo feminino homenageando mulheres brasileiras negras, indígenas e mestiças, resgatando histórias apagadas e afirmando uma genealogia de resistência. Silus escolhe para comentar um conto sobre um namoro à moda antiga, ambientado num cotidiano provinciano em que o tempo parece circular mais do que avançar, sustentado por pequenos hábitos que ganham peso simbólico — o cavalo amarrado no portão, o cumprimento repetido do pai, o ritual quase cerimonial das visitas de quarta e sábado. Ele lê no protagonista masculino um respeito solene pelas regras tácitas do namoro antigo, e na personagem feminina uma delicadeza ensaiada, moldada pelas expectativas familiares — mas também uma sutil tentativa de nomear o mundo para além dos códigos repetidos do namoro formal, um pequeno gesto de busca por expressão própria que tensiona, discretamente, tradição e desejo.
Sinha Rendeira (2016) funde narrativa e ritmo, evocando tanto a poesia oral quanto o imaginário popular, em tributo às mulheres que tecem rendas e histórias, bordando memórias no tecido da vida. Do poema que Silus escolhe comentar, ele destaca o uso recorrente de uma mesma consoante ao longo de quase todo o texto, recurso que funciona como fio condutor sonoro, evocando uma cadência quase percussiva, como se as palavras fossem batidas suaves de tambor. Para ele, essa aliteração não apenas marca o som, mas reforça o tema central do poema: a delicadeza e a intensidade do toque, da aproximação emocional e física, numa tensão entre o tédio e a paixão, a espera e o encontro, que termina num verso-síntese sobre entrega e perda de si no outro.
Em 2020, ao lado de Paulo Robson de Souza e Janet Zimmermann, Sylvia publica três poetas e uma via: aldravia, dedicado a essa forma poética contemporânea nascida em Mariana (MG) no início dos anos 2000: seis versos livres, uma única palavra por linha, sem métrica, rima ou pontuação, inspirada na palavra “aldrava”, peça usada para bater à porta. Silus dedica um trecho generoso do texto a comentar, uma a uma, aldravias específicas da autora: identifica em uma delas a fusão entre léxico musical e natural sugerindo um amadurecimento harmônico entre som e luz; em outra, uma imagem sinestésica que une o mar, a concha e o ouvido, remetendo tanto à infância quanto à imaginação; em uma terceira, a lua cheia como fecho cósmico e silencioso, aproximando pontuação textual e imensidão celeste; e, por fim, uma cena minimalista de duas aranhas tecendo fios, que ele lê como sugestão de vínculo interpessoal delicado e laborioso, evocando fragilidade, precisão e risco. Em todas essas peças, conclui Silus, a força da aldravia está no não-dito, na potência evocativa do intervalo entre as palavras, fazendo do leitor coautor da imagem e do sentido.
Ainda em 2020, Sylvia organiza A Glória desta Morena, homenagem coletiva à professora e intelectual Maria da Glória Sá Rosa, dividida em três partes: textos de 32 autores convidados, muitos deles ex-alunos e admiradores de “Glorinha”, contribuições de instituições a ela ligadas (como a UFMS, a Fundação Estadual de Cultura, a Aliança Francesa, a UCDB e a própria Academia Sul-Mato-Grossense de Letras) e contos e crônicas inéditos da própria homenageada. O lançamento, em agosto de 2020, ocorreu num evento drive-in no Autocine da UFMS, adaptação às restrições da pandemia que se tornou o primeiro evento literário nesse formato no estado, fruto de mais de dois anos de dedicação de Sylvia à organização da obra. Silus destaca dela o conto “A moça de nome antigo”, que descreve como prosa lírica, introspectiva e sensorial: um texto que mergulha no universo interior de um personagem masculino tomado por lembranças e fantasmas afetivos, cujas sensações, sobretudo perfumes e imagens, evocam com delicadeza e amargura a presença ausente da mulher amada. Para Silus, a autora manipula com destreza tempo, memória e desejo, criando um fluxo narrativo que mistura real e imaginado, valorizando o detalhe e o afeto como formas de resistência da subjetividade.
Em 2022, já no “novo normal” pós-pandemia, Sylvia lança Um Palmo e Meio de Proseio, mostrando sua verve de cronista em textos breves sobre a vida, os afetos e os absurdos cotidianos, com linguagem leve e coloquial. Dessas crônicas, Silus resgata uma que narra a origem do lendário Grupo Acaba, ligando etimologicamente o nome do Bairro Amambaí, de raiz tupi-guarani, associada à chuva leve e ao orvalho, ao nascimento da música sul-mato-grossense, e reunindo nomes centrais dessa história, como os irmãos Chico e Moacir Lacerda, Vandir Barreto, Luiz Porfírio e Vera Gasparotto. Silus lê nesse texto um gesto de memória e metamemória: Sylvia reconstrói a trajetória de um coletivo musical importante entrelaçando lembranças de pessoas com quem manteve convivência direta, preservando assim relevância e legado.
Além dos livros
Silus lembra ainda que Sylvia é presença constante em antologias como Mato Grosso do Sul – 40 anos e 101 Reinvenções para Manoel de Barros. Sua atuação cultural extrapola a escrita: é autora e diretora de peças teatrais inspiradas em poetas regionais, nacionais e internacionais, letrista de músicas interpretadas por corais e músicos de Campo Grande, e atuou como roteirista-auxiliar do filme Nasce uma Estrela, sobre a atriz Glauce Rocha. Em dezembro de 2023, foi eleita por maioria absoluta para a cadeira nº 37 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, sucedendo Francisco Leal de Queiroz, o que Silus lê como reconhecimento institucional de uma vida dedicada à palavra, reforçando a presença feminina num espaço historicamente masculino. Atualmente, Sylvia escreve para os jornais Correio do Estado e O Estado de MS, colabora com o Blog de Alex Fraga, e mantém em sua própria casa o “Recanto do Canto e da Poesia”, espaço aberto a saraus, oficinas literárias, lançamentos de livros e encontros artísticos, materialização concreta, escreve Silus, de sua crença na cultura como força agregadora, pedagógica e vital.
Encerramento
Silus fecha o texto afirmando que a trajetória de Sylvia Cesco é testemunho vivo de que a literatura não é apenas arte, mas pulsação vital, ética cotidiana e forma de existência. Ao longo de quase oito décadas, ela transformou a palavra em ferramenta de educação, em ato político, em gesto afetivo e em celebração da cultura sul-mato-grossense. Ao celebrar seus 80 anos, o autor a define não apenas como autora de grande relevância para Mato Grosso do Sul, mas como intelectual sensível, mulher de ação e pensamento, que fez da escrita um modo de cuidar da vida, sua e dos outros: resistência e ternura, denúncia e acolhimento, canto e memória. Sylvia, conclui Silus, não escreve para os salões fechados do eruditismo, mas para os quintais, as calçadas e os encontros, e é por isso que sua palavra segue firme e fecunda.



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