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Um agente lovecraftiano em terrae brasilis

H. P. Lovecraft foi um pobre de direita. Ler suas cartas ao lado das entrevistas reunidas por Jessé Souza mostra o mesmo mecanismo psíquico operando em dois regimes distintos do capitalismo e expõe uma discrepância que a crítica ainda não nomeou


Casa de tábuas cercada por uma paisagem coberta de neve, ao pé de colinas em um ambiente invernal sereno.
Casa de tábuas cercada por uma paisagem coberta de neve, ao pé de colinas em um ambiente invernal sereno.

A cripta

Há um enredo que H. P. Lovecraft escreveu tantas vezes que ele deixa de ser enredo e vira sintoma. Um homem investiga a própria linhagem. Desce ao subsolo da casa ancestral, abre o arquivo da família, percorre a genealogia. E descobre que herdou a coisa errada.

Em "Os ratos na parede", o herdeiro restaura a propriedade dos antepassados e encontra, sob ela, os vestígios de gerações de canibalismo. Em "Arthur Jermyn", o descendente pesquisa a origem da casa e se incendeia ao descobri-la. Em "A sombra sobre Innsmouth", o narrador foge de uma cidade de híbridos e termina o relato reconhecendo, no espelho e nos papéis de família, que é um deles, e, na última página, aceita.

O homem que repetiu obsessivamente essa fábula era um herdeiro deserdado. A fortuna do avô ruiu quando ele tinha catorze anos. Ele passou o resto da vida pobre, sustentado por trabalhos de revisão pagos a centavos, e nunca deixou de se comportar como um cavalheiro colonial inglês: grafia setecentista, cortesias arcaicas, assinatura de fidalgo em cartas escritas de um quarto alugado.

Este ensaio parte de uma hipótese simples e propõe uma comparação incômoda. A hipótese: Lovecraft foi um pobre de direita, no sentido preciso que o termo adquiriu na sociologia brasileira recente. A comparação: o pobre de direita brasileiro contemporâneo opera o mesmo mecanismo psíquico, e as diferenças entre os dois, longe de invalidar a analogia, são o que ela tem de mais revelador.

Não se trata de mais uma denúncia do racismo de Lovecraft. Essa literatura existe, é abundante e já cumpriu sua função. Trata-se de usar Lovecraft como aquilo que ele é: o caso mais documentado que temos de um indivíduo supremacista construindo, em tempo real e em milhares de páginas de correspondência, a arquitetura mental que sustenta a defesa da hierarquia por parte de quem foi expulso dela.

O pobre de direita de Providence

Os fatos são estes, e convém separá-los da interpretação que virá depois.

Whipple Van Buren Phillips, avô materno de Lovecraft, era empresário em Providence, Rhode Island. Morreu em 1904, com os negócios em colapso. A família deixou a casa em que o menino havia crescido e passou a viver em acomodações modestas. Lovecraft tinha catorze anos.

Ele nunca se recuperou disso, em nenhum sentido. Abandonou o ensino secundário em 1908, sem diploma, após um colapso nervoso. Não chegou à Universidade Brown, que era a expectativa da família e permaneceu como humilhação vitalícia. Nunca teve emprego formal. Viveu de revisões e de escrita-fantasma mal remunerada, e de um patrimônio residual que minguou até acabar. Segundo a biografia de S. T. Joshi, a pobreza aumentou ao longo da vida. Morreu em 1937, aos 46 anos.

O período mais agudo foi o de Nova York, entre 1924 e 1926: casado com Sonia Greene, empresária ucraniana e judia, incapaz de encontrar trabalho, morando no Brooklyn cercado por comunidades imigrantes. É desse período a produção epistolar mais virulenta de toda a sua correspondência, e são desse período contos como "O horror em Red Hook".

Alguém dirá: isso não é um pobre de direita, é um aristocrata decadente. É uma objeção razoável e ela está errada, por uma razão que importa.

O aristocrata decadente é uma categoria social, descreve uma posição herdada em declínio. "Pobre de direita" descreve uma operação psíquica: a de um sujeito empobrecido que organiza a identidade em torno da defesa da hierarquia que o exclui, e que se narra como espoliado de um patrimônio ao qual teria direito. Lovecraft cumpre integralmente a segunda descrição. E a cumpre com a variação que interessa: ele não tinha capital econômico, não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha propriedade. Tinha uma genealogia e uma biblioteca. Isso é exatamente o inventário do sujeito que Jessé Souza foi entrevistar no Sul do Brasil, com uma diferença de câmbio à qual voltaremos.


A doutrina

O que as cartas sustentam, ao longo de três décadas, pode ser resumido sem caricatura em quatro proposições.

Primeira: existe uma massa incapaz, a "manada", definida não pela pobreza, mas pela incapacidade cognitiva coletiva. Segunda: existe uma estirpe capaz de produzir aquilo que faz a vida valer a pena, e a lista do que faz a vida valer a pena é estética e não moral: arquitetura imponente, cidades belas, literatura elegante, música. Terceira: essa capacidade é biológica e resulta de reprodução controlada, de modo que a preservação do belo exige a preservação da estirpe. Quarta: a ilusão do progresso e a "podridão liberal" são os agentes da destruição, e apenas um controle social e político sem sentimentalismo pode conter o processo.

Não é um pensamento original. É uma síntese de leituras identificáveis. Um estudo publicado na Madison Historical Review localiza a visão de mundo lovecraftiana em três obras específicas do período: "A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler (1918-1922), The Passing of the Great Race, de Madison Grant (1916), e The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy, de Lothrop Stoddard (1920)". Stoddard cunhou o termo untermensch, mais tarde adotado pelos nazistas, e defendia leis antimiscigenação e a interdição da procriação dos considerados inferiores. A metáfora que dá título ao livro, a maré de cor que sobe e submerge, reaparece, transposta para o registro cósmico, em toda a obra de Lovecraft.

Até aqui, temos um reacionário de manual. O que complica, e o que salva este ensaio de ser uma denúncia previsível, vem depois.

Nos últimos anos de vida, Lovecraft abandonou a doutrina econômica e manteve intacta a racial. A formulação de Joshi é direta: o início da Grande Depressão o levou gradualmente a reavaliar sua teoria política e econômica, e ele emergiu como um socialista moderado e defensor do New Deal. A mesma inflexão aparece documentada em sua correspondência com a poeta Elizabeth Toldridge, onde ele discute extensamente a situação política e econômica e reconhece que a Depressão exigia uma virada, a que o levou ao socialismo moderado.

Um homem que defende a redistribuição de renda e continua supremacista não é um homem incoerente. É um homem cujo núcleo está em outro lugar.

Se o motor fosse a propriedade perdida, a doutrina econômica e a doutrina racial cairiam juntas. Caiu apenas uma. A que ficou de pé é a que sustentava alguma outra coisa, e essa outra coisa não é patrimônio. É posição. Lovecraft podia abrir mão do capital; não podia abrir mão de ser superior.

O ressentimento não responde a uma perda: ele a inventa

Aqui o ensaio precisa de um conceito, e o conceito tem história.

Nietzsche, na Genealogia da moral (1887), descreveu o ressentimento como força criadora: não uma reação a um dano sofrido, mas uma potência que produz valores e que, para se constituir, precisa de um agente causador, e o inventa, se necessário. O ressentimento não encontra o culpado; fabrica-o, porque sem culpado ele não tem forma.

Max Scheler, em Ressentiment (1912), acrescentou a correção decisiva, e é ela que interessa ao caso brasileiro. O ressentimento não é mais intenso na base da pirâmide social. É mais intenso onde há descompasso entre a pretensão e os meios, onde alguém se considera com direito a mais do que possui. Quem está inequivocamente embaixo, e sabe disso, sofre; não ressente. Ressente quem se sente indevidamente rebaixado.

Aplicado ao material empírico, isso produz uma inversão que o senso comum resiste a aceitar: a herança perdida não é a causa do ressentimento; é o álibi que o ressentimento constrói para si.

A função da narrativa patrimonial é de conversão. Humilhação é intransitiva e inconfessável: fala de você, não aponta para lugar nenhum, não pode ser dita em voz alta sem se agravar. Espoliação é transitiva e dizível: tem autor, tem objeto, tem direção, e pode ser narrada numa mesa de bar sem custo. A fazenda do avô, a empresa do pai, o inventário em que "tomaram", nada disso é memória. É a operação que transforma vergonha em queixa.

E é por isso que o dispositivo é intercambiável. Onde não há fazenda, serve o diploma que devia valer mais, a vaga do concurso, o bairro que "era bom", a profissão que "hoje qualquer um faz". O mecanismo se repete de forma sistêmica no Brasil não porque haja muitas heranças perdidas, mas porque há muita humilhação precisando de forma.

Lovecraft é útil aqui exatamente porque nele a perda é documentável. Ele funciona como caso de controle, e o controle mostra que a perda não explica nada. Duas evidências internas:

A falência é de 1904 e é um evento fixo. O ressentimento não é fixo: intensifica-se vinte anos depois, com pico entre 1924 e 1926. Se a perda fosse a causa, a curva seria decrescente. O que varia junto com a virulência não é o patrimônio ausente, é a exposição cotidiana à humilhação de ser um cavalheiro desempregado no Brooklyn.

E o abandono do liberalismo econômico, já visto: caiu a doutrina ligada à propriedade, permaneceu a ligada à posição.

Lovecraft tinha um álibi verdadeiro. O pobre de direita brasileiro precisa fabricar o dele. É a única diferença entre os dois nesse ponto, e ela é irrelevante para o funcionamento.

Primeira discrepância: o que exatamente se perdeu

Nos dois casos há uma herança na história. Ela cumpre funções opostas, e a diferença é econômica antes de ser psicológica.

Em Lovecraft, a herança é fruição perdida, bem de consumo. O que ele lamenta é o usufruto: a biblioteca, a casa georgiana, o tempo livre, a possibilidade de escrever cartas de vinte páginas sobre astronomia e arquitetura colonial sem precisar de retorno. Ele desprezava o comércio de maneira explícita e coerente: o negociante era vulgar por definição, e o cavalheiro se define precisamente por não precisar acumular. Lovecraft não queria capital. Queria gozo.

No pobre de direita brasileiro, a herança é capital de partida sonegado, bem de produção. O sítio do avô não é chorado pelo que era; é invocado como a largada que não houve. Por isso, na fala dele, o inventário aparece sempre grudado na queixa de ter trabalhado demais: o patrimônio faltante explica por que ele empatou na corrida em vez de vencê-la. O que ele ressente não é ter deixado de desfrutar. É ter sido impedido de investir, e, só depois disso, de desfrutar.

Mesma palavra, funções invertidas. Um ressente o gozo que acabou; o outro, a entrada no jogo que nunca aconteceu.

Isso explica a anomaliaI. Lovecraft podia migrar para o New Deal sem custo psíquico porque seu ressentimento era pré-capitalista: o mercado nunca foi a arena onde ele deveria ter vencido, e um planejamento estatal conduzido por uma aristocracia técnica era perfeitamente compatível com a hierarquia estética que ele defendia. O pobre de direita brasileiro não pode fazer esse movimento. Seu ressentimento é intracapitalista: ele precisa que a meritocracia seja verdadeira em princípio, porque é essa premissa que transforma o fracasso dele em culpa de terceiros em vez de efeito de estrutura. Um ressentimento que pode virar qualquer coisa; outro preso ao vocabulário do empreendedorismo.

E a discrepância mais fina, que decorre daí: o pobre de direita brasileiro narra retrospectivamente uma queixa prospectiva. Ele não lamenta o sítio; lamenta o capital que o sítio teria sido. O passado é convocado como explicação do futuro que não veio. Em Lovecraft, o passado é o objeto final, não há futuro nenhum na fantasia dele, e a cosmologia inteira diz isso: o tempo só produz declínio.

Teste prático para separar os dois, útil em qualquer entrevista: pergunte o que a pessoa teria feito com a herança. Se a resposta descreve uma vida, é fruição. Se descreve um começo, é capital.

Segunda discrepância: a taxa de câmbio

Lovecraft estudava. O pobre de direita brasileiro, em regra, não. Este é o ponto em que a comparação parece ruir, e é onde ela fica mais precisa.

A explicação não está no caráter dos dois sujeitos. Está no mercado simbólico em que cada um opera.

Capital cultural só funciona como capital onde existe mercado que o aceite. Na Providence de 1915, erudição era conversível em reconhecimento social sem passar pelo dinheiro. O cavalheiro falido que dominava astronomia, latim e a genealogia das famílias coloniais continuava sendo cavalheiro. O saber era a única parcela do patrimônio que a falência não confiscava. Por isso a transferência funcionava: na ausência dos palácios, Lovecraft investiu o desejo na ciência, no cosmos, no antiquarianismo, e viveu, dentro da própria cabeça, uma vida de fruição patrícia que a realidade material lhe negava integralmente. É a descrição de Pierre Bourdieu em A distinção (1979) antes da letra: quando o capital econômico se esvai e o cultural permanece, o agente defende a hierarquia simbólica com uma violência que os detentores efetivos de poder não precisam ter, porque a hierarquia simbólica é tudo o que lhe restou.

No meio popular brasileiro essa conversão não existe. Estudo ali não é patrimônio: é instrumento. Vale se render, e se não render vira prejuízo. Daí a frase que se ouve em qualquer conversa, "fiz faculdade e não deu em nada". O diploma não é título de nobreza; é investimento com retorno negativo. Não é que o sujeito não estude por burrice ou preguiça. É que, no mercado simbólico dele, o estudo não paga em status, apenas em salário, e quando o salário não vem, o estudo se converte retroativamente em mais uma humilhação, somando-se às que já existiam.

Duas notas de precisão, e ambas apertam a comparação em vez de afrouxá-la.

Lovecraft não era um homem de formação. Era autodidata, sem diploma secundário, e sua erudição foi construída fora de qualquer instituição, astronomia, química, o século XVIII inglês, tudo por conta própria, com o jornalismo amador funcionando como universidade substituta. Ou seja: ele também é um homem que deveria ter estudado e não estudou, no sentido institucional. A biblioteca privada é a academia de um homem só, erguida porque a academia real não aconteceu. Os dois fracassam na trilha formal. O que difere é o destino do fracasso: um o converte em erudição privada, o outro na certeza de que erudição nunca valeu nada.

E a oscilação característica do sujeito brasileiro, que merece registro porque é onde o mecanismo se denuncia: ele alterna entre "eu deveria ter estudado" e "eu não deveria ter precisado estudar, porque deveria ter recebido alguma coisa". As duas frases são incompatíveis e são ditas pela mesma pessoa na mesma tarde. O que as reconcilia é que nenhuma delas é uma avaliação, as duas são álibis, e álibis não precisam ser coerentes entre si, apenas disponíveis.

Acrescente-se o dado que fecha o argumento: o patrimônio invocado, quando existiu, pecuniariamente nunca valeu nada. Dez hectares. Um carro de 1973. Mesmo recebidos intactos, não teriam mudado trajetória alguma, não davam para investir nem para desfrutar. O que prova que o objeto nunca foi o ponto. Ele não precisava da herança. Precisava de um motivo.

Terceira discrepância: o objeto substituto

Ambos transferem o desejo para um objeto de reposição. Os objetos são incomparáveis, e a incomparabilidade é informativa.

Lovecraft transfere para o cosmos. Na ausência dos palácios, o palácio vira o universo: a astronomia, a arqueologia, a arquitetura colonial de Charleston e Quebec, as viagens antiquárias que ele fazia de ônibus, comendo mal, para ver fachadas do século XVIII. Um objeto de fruição pura, invisível, sem testemunha, um homem sozinho olhando estrelas.

O pobre de direita brasileiro transfere para outro conjunto: a igreja, a devoção à pátria, a admiração pelos Estados Unidos, a figura política que articula tudo isso. Mas o desejo terminal, quando se olha para o que ele efetivamente persegue, é a caminhonete, o resort, o limite do cartão de crédito.

Note-se que essa não é uma lista de prazeres. É uma lista de provas. A caminhonete não se deseja pelo conforto: deseja-se porque é visível da rua e informa que houve retorno. O cartão não é gasto, é linha de crédito, isto é, reconhecimento institucional de que o sistema o considera investível. O objeto de Lovecraft dispensa espectador porque a ferida dele era de gozo. O objeto brasileiro exige espectador porque a ferida é de reconhecimento.

E a religião entra exatamente por aí, não por acaso e não por ignorância. A teologia da prosperidade é a única forma religiosa que fala a gramática do investimento: dízimo como aporte, bênção como rendimento, um cosmos transacional que garante retorno a quem aplica corretamente. Lovecraft, ateu militante e materialista convicto, construiu o cosmos precisamente oposto, indiferente, sem providência, sem recompensa possível, sem qualquer instância que registre o mérito de ninguém.

Cada um transferiu o desejo para uma cosmologia. E cada cosmologia tem a forma exata da ferida que ela consola. Quem quer contemplação constrói um universo que não paga. Quem quer retorno constrói um universo que paga. Esta é, talvez, a formulação mais econômica do que este ensaio tem a dizer.

A convergência: o inimigo é sempre o vizinho de baixo

Sobre as discrepâncias, uma identidade estrutural.

O inimigo de Lovecraft não é o industrial que enriqueceu enquanto os Phillips quebravam. É o siciliano, o polonês, o judeu do Lower East Side. O inimigo do pobre de direita do Sul não é o latifundiário nem o banco. É o nordestino, o cotista, o beneficiário do programa social, o servidor estável.

Nos dois casos, a distinção defendida é a mais próxima e a menos consequente. Freud chamou isso de narcisismo das pequenas diferenças; a função política é evidente, e é a de nunca ameaçar quem de fato manda.

O achado empírico de Jessé Souza em O pobre de direita: a vingança dos bastardos (Civilização Brasileira, 2024) é justamente esse deslocamento. Estudando dois grupos: o branco pobre e o negro evangélico, o sociólogo descreve, num dos capítulos centrais, a substituição do racismo "racial" pelo racismo "regional" no branco pobre do Sul e de São Paulo. A tese geral do livro é que o racismo, e não o ganho econômico nem a pauta dos costumes, está na raiz da virada moralista que catapultou a extrema direita no Brasil, e que o comportamento desse eleitorado não é alienação, mas resposta à manipulação de "feridas morais" produzidas pela exclusão social. O prefácio se chama, sem sutileza, "Nunca foi a economia, tolinho!".

O ódio ao nordestino é, portanto, racismo que encontrou uma forma dizível. E a estética que ele defende é a mesma que Lovecraft defendia: uma vida bela que pressupõe pureza.

Uma precisão necessária, porém, e ela não é ornamental. O ideal em operação no Sul do Brasil não é o mito ariano alemão. Tem genealogia própria e nacional, a ideologia do branqueamento, com seus teóricos brasileiros, de Nina Rodrigues a Oliveira Vianna, passando pela eugenia dos anos 1920 e 1930, e depois pela versão amável de Gilberto Freyre, que descreveu a miscigenação e simultaneamente ajudou a legitimar a hierarquia interna a ela. Mesma família ideológica que o nordicismo de Grant e Stoddard, linhagem distinta. Nomear a linhagem correta é analiticamente mais devastador do que importar a alemã, porque elimina a resposta fácil de que se exagerou.

A variante letrada em terrae brasilis

Há um segundo agente lovecraftiano no Brasil, e ele não é pobre no sentido material. É o intelectual que instala o belo e o elegante no inacessível, que aborda qualquer tema com um vernáculo, uma sintaxe e um repertório de referências deliberadamente fora do alcance comum, e que produz, como efeito e não como acidente, um leitor ignorante.

Essa figura é elegíaca, não empreendedora. Ela chora uma hierarquia cultural desfeita, não uma oportunidade sonegada. Sua temporalidade é a de Lovecraft, não a do sujeito da caminhonete.

Jessé Souza tratou dessa figura em outro livro, anterior: A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite (LeYa, 2015), em que argumenta que a intelectualidade nacional forneceu respaldo teórico às narrativas autolegitimadoras da elite. O livro investiga as origens das ideias que sustentaram a tese de que os brasileiros são malemolentes, sensuais, cordiais e decidem pelo sentimento em detrimento da razão, com respaldo de autores do peso de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta, e sustenta que a maioria dos intelectuais presta serviço à manutenção da iniquidade ao desenvolver reflexões "colonizadas até os ossos", operando por meio de um "racismo cultural".

Aqui é preciso uma distinção, sem a qual o argumento degenera em anti-intelectualismo, e a distinção é simples. Existe dificuldade que é propriedade do objeto: há coisas difíceis, e simplificá-las é mentir. E existe dificuldade que é sinalização: a obscuridade cuja função é filtrar a audiência e devolver ao autor a confirmação de que ele pertence a um grupo restrito. A primeira é honesta ainda que exclua; a segunda exclui como finalidade. O critério de separação é operacional: verifique se a dificuldade desaparece quando o assunto é fácil. Se o autor é igualmente hermético falando de Hegel e comentando um lançamento de livro, a dificuldade não é do objeto.

E aqui a ironia lovecraftiana se completa. A prosa de Lovecraft não é conceitualmente difícil. É ornamental, adjetivada, arcaizante: elitismo decorativo, não conceitual. O aristocrata do gosto publicava na Weird Tales, revista de polpa barata, ao lado de histórias de aventura, e era recusado por ela com frequência.

Disso resulta o traço mais estranho da configuração brasileira contemporânea: a direita nacional abriga, aliadas, duas temporalidades opostas. O erudito que lamenta o mundo perdido e o empreendedor frustrado que lamenta o mundo que não chegou. Eles não querem a mesma coisa, não gostam um do outro e mal se toleram. Têm em comum apenas o descompasso de Scheler e a necessidade de um culpado, e isso, ao que tudo indica, basta.


Objeções

Quatro, e nenhuma é decorativa.

Psicobiografia de morto não se sustenta. Correto: não se diagnostica ninguém, muito menos alguém que morreu em 1937. Mas o método aqui não é o diagnóstico do sujeito, e sim a leitura da estrutura da fantasia, o procedimento de Klaus Theweleit em Fantasias masculinas (1977-1978). A tese de Theweleit é que o imaginário fascista codifica a massa como líquido: maré, enchente, lodo, o informe que engolfa; e constrói em oposição um eu couraçado e contornado. Não é preciso forçar nada para reconhecer o dispositivo em Lovecraft, os shoggoths, o protoplasmático, o que borbulha e prolifera, a descrição obsessiva de multidões estrangeiras como massa sem contorno individual. E não é preciso forçar nada para reconhecê-lo no título do livro de Stoddard que ele leu: a maré que sobe.

O racismo era de época; a explicação psicológica é supérflua. A objeção falharia se a variável fosse constante. Não é: a intensidade do racismo lovecraftiano varia ao longo da vida, e varia em correlação com a posição material, com pico nos anos de Nova York. É a variação que transforma ambiente em mecanismo. Um homem que reproduz o preconceito do seu tempo não escreve o que Lovecraft escreveu no Brooklyn em 1925.

Transpor Providence para o Brasil é ilegítimo. Concessão parcial e necessária: as formações raciais são distintas, as estruturas de classe são distintas, e a história é distinta. O que transpõe é a forma simbólica, não o conteúdo. E convém dizer com todas as letras que a diferença de fundo não é entre Estados Unidos e Brasi, o Brasil tem seus Lovecrafts, na família tradicional decadente do Nordeste açucareiro, no mundo dos sobrados, no bacharel arruinado que compensa em erudição. A diferença real é entre dois regimes: o ressentimento do rentista em extinção, que é o de Lovecraft e percorre o Ocidente entre 1880 e 1930, e o ressentimento da ascensão prometida e não cumprida, que é o de agora. Mesma estrutura afetiva, dois momentos do capitalismo.

Jessé Souza é autor contestado. É, e a contestação é pertinente. O livro de 2024 não apresenta base estatística: é interpretação a partir de entrevistas qualitativas. E a crítica acadêmica já apontou, em relação ao conjunto da obra, que o esforço de distanciamento do "economicismo" o leva a uma ênfase desproporcional em sentido contrário, sublinhando em excesso os aspectos valorativos e morais da dominação social. Este ensaio usa Souza como lente conceitual, não como demonstração empírica. O peso probatório recai sobre o material lovecraftiano, que é documentado à exaustão.

A ficção contra as cartas

Falta o dado mais estranho de todos, e ele desmonta a doutrina por dentro.

As cartas afirmam a hierarquia. A ficção encena, dezenas de vezes, o seu desmoronamento.

A premissa cósmica de Lovecraft é que a humanidade não ocupa posição privilegiada nenhuma, que a hierarquia é ilusão de escala e que a linhagem não significa absolutamente nada diante do vazio. Não existe supremacia possível num universo assim. O horror cósmico é a forma literária da suspeita de que a tese supremacista é falsa.

E o subtítulo que Jessé Souza escolheu para descrever o eleitorado brasileiro, a vingança dos bastardos, descreve, sem que ele soubesse, o enredo completo da obra de Lovecraft. Bastardo é o herdeiro ilegítimo, o excluído da linhagem, aquele que não recebe. Lovecraft passou a vida escrevendo histórias de inventário: alguém abre o testamento e encontra uma monstruosidade.

O narrador de "A sombra sobre Innsmouth" descobre que é o híbrido de que fugia. E não se mata, como o herdeiro de "Arthur Jermyn". Na última página, ele decide voltar. É o único momento em toda a obra em que a fantasia se rompe e alguém aceita não ser o que deveria ter sido.

Foi o mais próximo que Lovecraft chegou de dizer a verdade sobre si mesmo, e ele precisou de um monstro para fazê-lo.

A manada não tem lado

Uma última observação, e ela não é confortável para ninguém.

"Incapaz cognitivo enquanto comunidade" é a definição lovecraftiana de manada. É também, com outras palavras, o que Jessé Souza acusa a intelectualidade progressista brasileira de pensar a respeito do pobre de direita, a tese da alienação, do eleitor manipulado que vota contra si por ignorância, contra a qual o livro inteiro está escrito.

A estrutura mental descrita neste ensaio não tem partido. Ela consiste em localizar, numa população, a incapacidade de compreender, e em derivar daí a legitimidade de decidir por ela. Lovecraft chamava isso de manada e defendia a estirpe. Alguém pode chamar de outra coisa e defender outra coisa. A operação é a mesma, e ela está disponível em qualquer prateleira.

O que torna Lovecraft um objeto útil não é o fato de ele ter sido racista. É o fato de ele ter escrito, em milhares de páginas e por trinta anos, exatamente o que se passa na cabeça de um homem que precisa acreditar que é superior porque não tem mais nada. Nenhum entrevistado de pesquisa qualitativa vai ser tão franco. É por isso que ele serve, e é por isso que o Brasil de hoje, que produziu esse tipo em escala industrial, deveria lê-lo com menos condescendência e mais atenção.

Referências

Fontes primárias e biográficas

  • LOVECRAFT, H. P. Ficção completa. São Paulo: Companhia das Letras / Penguin.

  • LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural na literatura. São Paulo: Hedra.

  • LOVECRAFT, H. P. Collected Essays. Org. S. T. Joshi. Nova York: Hippocampus Press.

  • LOVECRAFT, H. P. Letters to Elizabeth Toldridge and Anne Tillery Renshaw. Nova York: Hippocampus Press.

  • JOSHI, S. T. I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft. Nova York: Hippocampus Press, 2010. 2 v.

Fontes do pensamento racialista lido por Lovecraft

  • SPENGLER, Oswald. A decadência do Ocidente. 1918-1922.

  • GRANT, Madison. The Passing of the Great Race. Nova York: Charles Scribner's Sons, 1916.

  • STODDARD, Lothrop. The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy. Nova York: Charles Scribner's Sons, 1920.

Teoria do ressentimento e da distinção

  • NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. 1887.

  • SCHELER, Max. Ressentiment. 1912.

  • BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 1979.

  • THEWELEIT, Klaus. Fantasias masculinas. 1977-1978.

Sociologia brasileira e norte-americana

  • SOUZA, Jessé. O pobre de direita: a vingança dos bastardos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.

  • SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.

  • SOUZA, Jessé. A elite do atraso. São Paulo: LeYa, 2017.

  • SOUZA, Jessé. A ralé brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

  • HOCHSCHILD, Arlie Russell. Strangers in Their Own Land. Nova York: The New Press, 2016.

  • FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 1933.

  • FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 1936.

Estudo acadêmico sobre as fontes de Lovecraft

  • "The Anglo-Saxons — Stoddard and Lovecraft". Madison Historical Review, James Madison University.

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