Um agente lovecraftiano em terrae brasilis
- Vinícius Guarani

- 26 de jul.
- 18 min de leitura
H. P. Lovecraft foi um pobre de direita. Ler suas cartas ao lado das entrevistas reunidas por Jessé Souza mostra o mesmo mecanismo psíquico operando em dois regimes distintos do capitalismo e expõe uma discrepância que a crítica ainda não nomeou

A cripta
Há um enredo que H. P. Lovecraft escreveu tantas vezes que ele deixa de ser enredo e vira sintoma. Um homem investiga a própria linhagem. Desce ao subsolo da casa ancestral, abre o arquivo da família, percorre a genealogia. E descobre que herdou a coisa errada.
Em "Os ratos na parede", o herdeiro restaura a propriedade dos antepassados e encontra, sob ela, os vestígios de gerações de canibalismo. Em "Arthur Jermyn", o descendente pesquisa a origem da casa e se incendeia ao descobri-la. Em "A sombra sobre Innsmouth", o narrador foge de uma cidade de híbridos e termina o relato reconhecendo, no espelho e nos papéis de família, que é um deles, e, na última página, aceita.
O homem que repetiu obsessivamente essa fábula era um herdeiro deserdado. A fortuna do avô ruiu quando ele tinha catorze anos. Ele passou o resto da vida pobre, sustentado por trabalhos de revisão pagos a centavos, e nunca deixou de se comportar como um cavalheiro colonial inglês: grafia setecentista, cortesias arcaicas, assinatura de fidalgo em cartas escritas de um quarto alugado.
Este ensaio parte de uma hipótese simples e propõe uma comparação incômoda. A hipótese: Lovecraft foi um pobre de direita, no sentido preciso que o termo adquiriu na sociologia brasileira recente. A comparação: o pobre de direita brasileiro contemporâneo opera o mesmo mecanismo psíquico, e as diferenças entre os dois, longe de invalidar a analogia, são o que ela tem de mais revelador.
Não se trata de mais uma denúncia do racismo de Lovecraft. Essa literatura existe, é abundante e já cumpriu sua função. Trata-se de usar Lovecraft como aquilo que ele é: o caso mais documentado que temos de um indivíduo supremacista construindo, em tempo real e em milhares de páginas de correspondência, a arquitetura mental que sustenta a defesa da hierarquia por parte de quem foi expulso dela.
O pobre de direita de Providence
Os fatos são estes, e convém separá-los da interpretação que virá depois.
Whipple Van Buren Phillips, avô materno de Lovecraft, era empresário em Providence, Rhode Island. Morreu em 1904, com os negócios em colapso. A família deixou a casa em que o menino havia crescido e passou a viver em acomodações modestas. Lovecraft tinha catorze anos.
Ele nunca se recuperou disso, em nenhum sentido. Abandonou o ensino secundário em 1908, sem diploma, após um colapso nervoso. Não chegou à Universidade Brown, que era a expectativa da família e permaneceu como humilhação vitalícia. Nunca teve emprego formal. Viveu de revisões e de escrita-fantasma mal remunerada, e de um patrimônio residual que minguou até acabar. Segundo a biografia de S. T. Joshi, a pobreza aumentou ao longo da vida. Morreu em 1937, aos 46 anos.
O período mais agudo foi o de Nova York, entre 1924 e 1926: casado com Sonia Greene, empresária ucraniana e judia, incapaz de encontrar trabalho, morando no Brooklyn cercado por comunidades imigrantes. É desse período a produção epistolar mais virulenta de toda a sua correspondência, e são desse período contos como "O horror em Red Hook".
Alguém dirá: isso não é um pobre de direita, é um aristocrata decadente. É uma objeção razoável e ela está errada, por uma razão que importa.
O aristocrata decadente é uma categoria social, descreve uma posição herdada em declínio. "Pobre de direita" descreve uma operação psíquica: a de um sujeito empobrecido que organiza a identidade em torno da defesa da hierarquia que o exclui, e que se narra como espoliado de um patrimônio ao qual teria direito. Lovecraft cumpre integralmente a segunda descrição. E a cumpre com a variação que interessa: ele não tinha capital econômico, não tinha diploma, não tinha emprego, não tinha propriedade. Tinha uma genealogia e uma biblioteca. Isso é exatamente o inventário do sujeito que Jessé Souza foi entrevistar no Sul do Brasil, com uma diferença de câmbio à qual voltaremos.
A doutrina
O que as cartas sustentam, ao longo de três décadas, pode ser resumido sem caricatura em quatro proposições.
Primeira: existe uma massa incapaz, a "manada", definida não pela pobreza, mas pela incapacidade cognitiva coletiva. Segunda: existe uma estirpe capaz de produzir aquilo que faz a vida valer a pena, e a lista do que faz a vida valer a pena é estética e não moral: arquitetura imponente, cidades belas, literatura elegante, música. Terceira: essa capacidade é biológica e resulta de reprodução controlada, de modo que a preservação do belo exige a preservação da estirpe. Quarta: a ilusão do progresso e a "podridão liberal" são os agentes da destruição, e apenas um controle social e político sem sentimentalismo pode conter o processo.
Não é um pensamento original. É uma síntese de leituras identificáveis. Um estudo publicado na Madison Historical Review localiza a visão de mundo lovecraftiana em três obras específicas do período: "A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler (1918-1922), The Passing of the Great Race, de Madison Grant (1916), e The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy, de Lothrop Stoddard (1920)". Stoddard cunhou o termo untermensch, mais tarde adotado pelos nazistas, e defendia leis antimiscigenação e a interdição da procriação dos considerados inferiores. A metáfora que dá título ao livro, a maré de cor que sobe e submerge, reaparece, transposta para o registro cósmico, em toda a obra de Lovecraft.
Até aqui, temos um reacionário de manual. O que complica, e o que salva este ensaio de ser uma denúncia previsível, vem depois.
Nos últimos anos de vida, Lovecraft abandonou a doutrina econômica e manteve intacta a racial. A formulação de Joshi é direta: o início da Grande Depressão o levou gradualmente a reavaliar sua teoria política e econômica, e ele emergiu como um socialista moderado e defensor do New Deal. A mesma inflexão aparece documentada em sua correspondência com a poeta Elizabeth Toldridge, onde ele discute extensamente a situação política e econômica e reconhece que a Depressão exigia uma virada, a que o levou ao socialismo moderado.
Um homem que defende a redistribuição de renda e continua supremacista não é um homem incoerente. É um homem cujo núcleo está em outro lugar.
Se o motor fosse a propriedade perdida, a doutrina econômica e a doutrina racial cairiam juntas. Caiu apenas uma. A que ficou de pé é a que sustentava alguma outra coisa, e essa outra coisa não é patrimônio. É posição. Lovecraft podia abrir mão do capital; não podia abrir mão de ser superior.
O ressentimento não responde a uma perda: ele a inventa
Aqui o ensaio precisa de um conceito, e o conceito tem história.
Nietzsche, na Genealogia da moral (1887), descreveu o ressentimento como força criadora: não uma reação a um dano sofrido, mas uma potência que produz valores e que, para se constituir, precisa de um agente causador, e o inventa, se necessário. O ressentimento não encontra o culpado; fabrica-o, porque sem culpado ele não tem forma.
Max Scheler, em Ressentiment (1912), acrescentou a correção decisiva, e é ela que interessa ao caso brasileiro. O ressentimento não é mais intenso na base da pirâmide social. É mais intenso onde há descompasso entre a pretensão e os meios, onde alguém se considera com direito a mais do que possui. Quem está inequivocamente embaixo, e sabe disso, sofre; não ressente. Ressente quem se sente indevidamente rebaixado.
Aplicado ao material empírico, isso produz uma inversão que o senso comum resiste a aceitar: a herança perdida não é a causa do ressentimento; é o álibi que o ressentimento constrói para si.
A função da narrativa patrimonial é de conversão. Humilhação é intransitiva e inconfessável: fala de você, não aponta para lugar nenhum, não pode ser dita em voz alta sem se agravar. Espoliação é transitiva e dizível: tem autor, tem objeto, tem direção, e pode ser narrada numa mesa de bar sem custo. A fazenda do avô, a empresa do pai, o inventário em que "tomaram", nada disso é memória. É a operação que transforma vergonha em queixa.
E é por isso que o dispositivo é intercambiável. Onde não há fazenda, serve o diploma que devia valer mais, a vaga do concurso, o bairro que "era bom", a profissão que "hoje qualquer um faz". O mecanismo se repete de forma sistêmica no Brasil não porque haja muitas heranças perdidas, mas porque há muita humilhação precisando de forma.
Lovecraft é útil aqui exatamente porque nele a perda é documentável. Ele funciona como caso de controle, e o controle mostra que a perda não explica nada. Duas evidências internas:
A falência é de 1904 e é um evento fixo. O ressentimento não é fixo: intensifica-se vinte anos depois, com pico entre 1924 e 1926. Se a perda fosse a causa, a curva seria decrescente. O que varia junto com a virulência não é o patrimônio ausente, é a exposição cotidiana à humilhação de ser um cavalheiro desempregado no Brooklyn.
E o abandono do liberalismo econômico, já visto: caiu a doutrina ligada à propriedade, permaneceu a ligada à posição.
Lovecraft tinha um álibi verdadeiro. O pobre de direita brasileiro precisa fabricar o dele. É a única diferença entre os dois nesse ponto, e ela é irrelevante para o funcionamento.
Primeira discrepância: o que exatamente se perdeu
Nos dois casos há uma herança na história. Ela cumpre funções opostas, e a diferença é econômica antes de ser psicológica.
Em Lovecraft, a herança é fruição perdida, bem de consumo. O que ele lamenta é o usufruto: a biblioteca, a casa georgiana, o tempo livre, a possibilidade de escrever cartas de vinte páginas sobre astronomia e arquitetura colonial sem precisar de retorno. Ele desprezava o comércio de maneira explícita e coerente: o negociante era vulgar por definição, e o cavalheiro se define precisamente por não precisar acumular. Lovecraft não queria capital. Queria gozo.
No pobre de direita brasileiro, a herança é capital de partida sonegado, bem de produção. O sítio do avô não é chorado pelo que era; é invocado como a largada que não houve. Por isso, na fala dele, o inventário aparece sempre grudado na queixa de ter trabalhado demais: o patrimônio faltante explica por que ele empatou na corrida em vez de vencê-la. O que ele ressente não é ter deixado de desfrutar. É ter sido impedido de investir, e, só depois disso, de desfrutar.
Mesma palavra, funções invertidas. Um ressente o gozo que acabou; o outro, a entrada no jogo que nunca aconteceu.
Isso explica a anomaliaI. Lovecraft podia migrar para o New Deal sem custo psíquico porque seu ressentimento era pré-capitalista: o mercado nunca foi a arena onde ele deveria ter vencido, e um planejamento estatal conduzido por uma aristocracia técnica era perfeitamente compatível com a hierarquia estética que ele defendia. O pobre de direita brasileiro não pode fazer esse movimento. Seu ressentimento é intracapitalista: ele precisa que a meritocracia seja verdadeira em princípio, porque é essa premissa que transforma o fracasso dele em culpa de terceiros em vez de efeito de estrutura. Um ressentimento que pode virar qualquer coisa; outro preso ao vocabulário do empreendedorismo.
E a discrepância mais fina, que decorre daí: o pobre de direita brasileiro narra retrospectivamente uma queixa prospectiva. Ele não lamenta o sítio; lamenta o capital que o sítio teria sido. O passado é convocado como explicação do futuro que não veio. Em Lovecraft, o passado é o objeto final, não há futuro nenhum na fantasia dele, e a cosmologia inteira diz isso: o tempo só produz declínio.
Teste prático para separar os dois, útil em qualquer entrevista: pergunte o que a pessoa teria feito com a herança. Se a resposta descreve uma vida, é fruição. Se descreve um começo, é capital.
Segunda discrepância: a taxa de câmbio
Lovecraft estudava. O pobre de direita brasileiro, em regra, não. Este é o ponto em que a comparação parece ruir, e é onde ela fica mais precisa.
A explicação não está no caráter dos dois sujeitos. Está no mercado simbólico em que cada um opera.
Capital cultural só funciona como capital onde existe mercado que o aceite. Na Providence de 1915, erudição era conversível em reconhecimento social sem passar pelo dinheiro. O cavalheiro falido que dominava astronomia, latim e a genealogia das famílias coloniais continuava sendo cavalheiro. O saber era a única parcela do patrimônio que a falência não confiscava. Por isso a transferência funcionava: na ausência dos palácios, Lovecraft investiu o desejo na ciência, no cosmos, no antiquarianismo, e viveu, dentro da própria cabeça, uma vida de fruição patrícia que a realidade material lhe negava integralmente. É a descrição de Pierre Bourdieu em A distinção (1979) antes da letra: quando o capital econômico se esvai e o cultural permanece, o agente defende a hierarquia simbólica com uma violência que os detentores efetivos de poder não precisam ter, porque a hierarquia simbólica é tudo o que lhe restou.
No meio popular brasileiro essa conversão não existe. Estudo ali não é patrimônio: é instrumento. Vale se render, e se não render vira prejuízo. Daí a frase que se ouve em qualquer conversa, "fiz faculdade e não deu em nada". O diploma não é título de nobreza; é investimento com retorno negativo. Não é que o sujeito não estude por burrice ou preguiça. É que, no mercado simbólico dele, o estudo não paga em status, apenas em salário, e quando o salário não vem, o estudo se converte retroativamente em mais uma humilhação, somando-se às que já existiam.
Duas notas de precisão, e ambas apertam a comparação em vez de afrouxá-la.
Lovecraft não era um homem de formação. Era autodidata, sem diploma secundário, e sua erudição foi construída fora de qualquer instituição, astronomia, química, o século XVIII inglês, tudo por conta própria, com o jornalismo amador funcionando como universidade substituta. Ou seja: ele também é um homem que deveria ter estudado e não estudou, no sentido institucional. A biblioteca privada é a academia de um homem só, erguida porque a academia real não aconteceu. Os dois fracassam na trilha formal. O que difere é o destino do fracasso: um o converte em erudição privada, o outro na certeza de que erudição nunca valeu nada.
E a oscilação característica do sujeito brasileiro, que merece registro porque é onde o mecanismo se denuncia: ele alterna entre "eu deveria ter estudado" e "eu não deveria ter precisado estudar, porque deveria ter recebido alguma coisa". As duas frases são incompatíveis e são ditas pela mesma pessoa na mesma tarde. O que as reconcilia é que nenhuma delas é uma avaliação, as duas são álibis, e álibis não precisam ser coerentes entre si, apenas disponíveis.
Acrescente-se o dado que fecha o argumento: o patrimônio invocado, quando existiu, pecuniariamente nunca valeu nada. Dez hectares. Um carro de 1973. Mesmo recebidos intactos, não teriam mudado trajetória alguma, não davam para investir nem para desfrutar. O que prova que o objeto nunca foi o ponto. Ele não precisava da herança. Precisava de um motivo.
Terceira discrepância: o objeto substituto
Ambos transferem o desejo para um objeto de reposição. Os objetos são incomparáveis, e a incomparabilidade é informativa.
Lovecraft transfere para o cosmos. Na ausência dos palácios, o palácio vira o universo: a astronomia, a arqueologia, a arquitetura colonial de Charleston e Quebec, as viagens antiquárias que ele fazia de ônibus, comendo mal, para ver fachadas do século XVIII. Um objeto de fruição pura, invisível, sem testemunha, um homem sozinho olhando estrelas.
O pobre de direita brasileiro transfere para outro conjunto: a igreja, a devoção à pátria, a admiração pelos Estados Unidos, a figura política que articula tudo isso. Mas o desejo terminal, quando se olha para o que ele efetivamente persegue, é a caminhonete, o resort, o limite do cartão de crédito.
Note-se que essa não é uma lista de prazeres. É uma lista de provas. A caminhonete não se deseja pelo conforto: deseja-se porque é visível da rua e informa que houve retorno. O cartão não é gasto, é linha de crédito, isto é, reconhecimento institucional de que o sistema o considera investível. O objeto de Lovecraft dispensa espectador porque a ferida dele era de gozo. O objeto brasileiro exige espectador porque a ferida é de reconhecimento.
E a religião entra exatamente por aí, não por acaso e não por ignorância. A teologia da prosperidade é a única forma religiosa que fala a gramática do investimento: dízimo como aporte, bênção como rendimento, um cosmos transacional que garante retorno a quem aplica corretamente. Lovecraft, ateu militante e materialista convicto, construiu o cosmos precisamente oposto, indiferente, sem providência, sem recompensa possível, sem qualquer instância que registre o mérito de ninguém.
Cada um transferiu o desejo para uma cosmologia. E cada cosmologia tem a forma exata da ferida que ela consola. Quem quer contemplação constrói um universo que não paga. Quem quer retorno constrói um universo que paga. Esta é, talvez, a formulação mais econômica do que este ensaio tem a dizer.
A convergência: o inimigo é sempre o vizinho de baixo
Sobre as discrepâncias, uma identidade estrutural.
O inimigo de Lovecraft não é o industrial que enriqueceu enquanto os Phillips quebravam. É o siciliano, o polonês, o judeu do Lower East Side. O inimigo do pobre de direita do Sul não é o latifundiário nem o banco. É o nordestino, o cotista, o beneficiário do programa social, o servidor estável.
Nos dois casos, a distinção defendida é a mais próxima e a menos consequente. Freud chamou isso de narcisismo das pequenas diferenças; a função política é evidente, e é a de nunca ameaçar quem de fato manda.
O achado empírico de Jessé Souza em O pobre de direita: a vingança dos bastardos (Civilização Brasileira, 2024) é justamente esse deslocamento. Estudando dois grupos: o branco pobre e o negro evangélico, o sociólogo descreve, num dos capítulos centrais, a substituição do racismo "racial" pelo racismo "regional" no branco pobre do Sul e de São Paulo. A tese geral do livro é que o racismo, e não o ganho econômico nem a pauta dos costumes, está na raiz da virada moralista que catapultou a extrema direita no Brasil, e que o comportamento desse eleitorado não é alienação, mas resposta à manipulação de "feridas morais" produzidas pela exclusão social. O prefácio se chama, sem sutileza, "Nunca foi a economia, tolinho!".
O ódio ao nordestino é, portanto, racismo que encontrou uma forma dizível. E a estética que ele defende é a mesma que Lovecraft defendia: uma vida bela que pressupõe pureza.
Uma precisão necessária, porém, e ela não é ornamental. O ideal em operação no Sul do Brasil não é o mito ariano alemão. Tem genealogia própria e nacional, a ideologia do branqueamento, com seus teóricos brasileiros, de Nina Rodrigues a Oliveira Vianna, passando pela eugenia dos anos 1920 e 1930, e depois pela versão amável de Gilberto Freyre, que descreveu a miscigenação e simultaneamente ajudou a legitimar a hierarquia interna a ela. Mesma família ideológica que o nordicismo de Grant e Stoddard, linhagem distinta. Nomear a linhagem correta é analiticamente mais devastador do que importar a alemã, porque elimina a resposta fácil de que se exagerou.
A variante letrada em terrae brasilis
Há um segundo agente lovecraftiano no Brasil, e ele não é pobre no sentido material. É o intelectual que instala o belo e o elegante no inacessível, que aborda qualquer tema com um vernáculo, uma sintaxe e um repertório de referências deliberadamente fora do alcance comum, e que produz, como efeito e não como acidente, um leitor ignorante.
Essa figura é elegíaca, não empreendedora. Ela chora uma hierarquia cultural desfeita, não uma oportunidade sonegada. Sua temporalidade é a de Lovecraft, não a do sujeito da caminhonete.
Jessé Souza tratou dessa figura em outro livro, anterior: A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite (LeYa, 2015), em que argumenta que a intelectualidade nacional forneceu respaldo teórico às narrativas autolegitimadoras da elite. O livro investiga as origens das ideias que sustentaram a tese de que os brasileiros são malemolentes, sensuais, cordiais e decidem pelo sentimento em detrimento da razão, com respaldo de autores do peso de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta, e sustenta que a maioria dos intelectuais presta serviço à manutenção da iniquidade ao desenvolver reflexões "colonizadas até os ossos", operando por meio de um "racismo cultural".
Aqui é preciso uma distinção, sem a qual o argumento degenera em anti-intelectualismo, e a distinção é simples. Existe dificuldade que é propriedade do objeto: há coisas difíceis, e simplificá-las é mentir. E existe dificuldade que é sinalização: a obscuridade cuja função é filtrar a audiência e devolver ao autor a confirmação de que ele pertence a um grupo restrito. A primeira é honesta ainda que exclua; a segunda exclui como finalidade. O critério de separação é operacional: verifique se a dificuldade desaparece quando o assunto é fácil. Se o autor é igualmente hermético falando de Hegel e comentando um lançamento de livro, a dificuldade não é do objeto.
E aqui a ironia lovecraftiana se completa. A prosa de Lovecraft não é conceitualmente difícil. É ornamental, adjetivada, arcaizante: elitismo decorativo, não conceitual. O aristocrata do gosto publicava na Weird Tales, revista de polpa barata, ao lado de histórias de aventura, e era recusado por ela com frequência.
Disso resulta o traço mais estranho da configuração brasileira contemporânea: a direita nacional abriga, aliadas, duas temporalidades opostas. O erudito que lamenta o mundo perdido e o empreendedor frustrado que lamenta o mundo que não chegou. Eles não querem a mesma coisa, não gostam um do outro e mal se toleram. Têm em comum apenas o descompasso de Scheler e a necessidade de um culpado, e isso, ao que tudo indica, basta.
Objeções
Quatro, e nenhuma é decorativa.
Psicobiografia de morto não se sustenta. Correto: não se diagnostica ninguém, muito menos alguém que morreu em 1937. Mas o método aqui não é o diagnóstico do sujeito, e sim a leitura da estrutura da fantasia, o procedimento de Klaus Theweleit em Fantasias masculinas (1977-1978). A tese de Theweleit é que o imaginário fascista codifica a massa como líquido: maré, enchente, lodo, o informe que engolfa; e constrói em oposição um eu couraçado e contornado. Não é preciso forçar nada para reconhecer o dispositivo em Lovecraft, os shoggoths, o protoplasmático, o que borbulha e prolifera, a descrição obsessiva de multidões estrangeiras como massa sem contorno individual. E não é preciso forçar nada para reconhecê-lo no título do livro de Stoddard que ele leu: a maré que sobe.
O racismo era de época; a explicação psicológica é supérflua. A objeção falharia se a variável fosse constante. Não é: a intensidade do racismo lovecraftiano varia ao longo da vida, e varia em correlação com a posição material, com pico nos anos de Nova York. É a variação que transforma ambiente em mecanismo. Um homem que reproduz o preconceito do seu tempo não escreve o que Lovecraft escreveu no Brooklyn em 1925.
Transpor Providence para o Brasil é ilegítimo. Concessão parcial e necessária: as formações raciais são distintas, as estruturas de classe são distintas, e a história é distinta. O que transpõe é a forma simbólica, não o conteúdo. E convém dizer com todas as letras que a diferença de fundo não é entre Estados Unidos e Brasi, o Brasil tem seus Lovecrafts, na família tradicional decadente do Nordeste açucareiro, no mundo dos sobrados, no bacharel arruinado que compensa em erudição. A diferença real é entre dois regimes: o ressentimento do rentista em extinção, que é o de Lovecraft e percorre o Ocidente entre 1880 e 1930, e o ressentimento da ascensão prometida e não cumprida, que é o de agora. Mesma estrutura afetiva, dois momentos do capitalismo.
Jessé Souza é autor contestado. É, e a contestação é pertinente. O livro de 2024 não apresenta base estatística: é interpretação a partir de entrevistas qualitativas. E a crítica acadêmica já apontou, em relação ao conjunto da obra, que o esforço de distanciamento do "economicismo" o leva a uma ênfase desproporcional em sentido contrário, sublinhando em excesso os aspectos valorativos e morais da dominação social. Este ensaio usa Souza como lente conceitual, não como demonstração empírica. O peso probatório recai sobre o material lovecraftiano, que é documentado à exaustão.
A ficção contra as cartas
Falta o dado mais estranho de todos, e ele desmonta a doutrina por dentro.
As cartas afirmam a hierarquia. A ficção encena, dezenas de vezes, o seu desmoronamento.
A premissa cósmica de Lovecraft é que a humanidade não ocupa posição privilegiada nenhuma, que a hierarquia é ilusão de escala e que a linhagem não significa absolutamente nada diante do vazio. Não existe supremacia possível num universo assim. O horror cósmico é a forma literária da suspeita de que a tese supremacista é falsa.
E o subtítulo que Jessé Souza escolheu para descrever o eleitorado brasileiro, a vingança dos bastardos, descreve, sem que ele soubesse, o enredo completo da obra de Lovecraft. Bastardo é o herdeiro ilegítimo, o excluído da linhagem, aquele que não recebe. Lovecraft passou a vida escrevendo histórias de inventário: alguém abre o testamento e encontra uma monstruosidade.
O narrador de "A sombra sobre Innsmouth" descobre que é o híbrido de que fugia. E não se mata, como o herdeiro de "Arthur Jermyn". Na última página, ele decide voltar. É o único momento em toda a obra em que a fantasia se rompe e alguém aceita não ser o que deveria ter sido.
Foi o mais próximo que Lovecraft chegou de dizer a verdade sobre si mesmo, e ele precisou de um monstro para fazê-lo.
A manada não tem lado
Uma última observação, e ela não é confortável para ninguém.
"Incapaz cognitivo enquanto comunidade" é a definição lovecraftiana de manada. É também, com outras palavras, o que Jessé Souza acusa a intelectualidade progressista brasileira de pensar a respeito do pobre de direita, a tese da alienação, do eleitor manipulado que vota contra si por ignorância, contra a qual o livro inteiro está escrito.
A estrutura mental descrita neste ensaio não tem partido. Ela consiste em localizar, numa população, a incapacidade de compreender, e em derivar daí a legitimidade de decidir por ela. Lovecraft chamava isso de manada e defendia a estirpe. Alguém pode chamar de outra coisa e defender outra coisa. A operação é a mesma, e ela está disponível em qualquer prateleira.
O que torna Lovecraft um objeto útil não é o fato de ele ter sido racista. É o fato de ele ter escrito, em milhares de páginas e por trinta anos, exatamente o que se passa na cabeça de um homem que precisa acreditar que é superior porque não tem mais nada. Nenhum entrevistado de pesquisa qualitativa vai ser tão franco. É por isso que ele serve, e é por isso que o Brasil de hoje, que produziu esse tipo em escala industrial, deveria lê-lo com menos condescendência e mais atenção.
Referências
Fontes primárias e biográficas
LOVECRAFT, H. P. Ficção completa. São Paulo: Companhia das Letras / Penguin.
LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural na literatura. São Paulo: Hedra.
LOVECRAFT, H. P. Collected Essays. Org. S. T. Joshi. Nova York: Hippocampus Press.
LOVECRAFT, H. P. Letters to Elizabeth Toldridge and Anne Tillery Renshaw. Nova York: Hippocampus Press.
JOSHI, S. T. I Am Providence: The Life and Times of H. P. Lovecraft. Nova York: Hippocampus Press, 2010. 2 v.
Fontes do pensamento racialista lido por Lovecraft
SPENGLER, Oswald. A decadência do Ocidente. 1918-1922.
GRANT, Madison. The Passing of the Great Race. Nova York: Charles Scribner's Sons, 1916.
STODDARD, Lothrop. The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy. Nova York: Charles Scribner's Sons, 1920.
Teoria do ressentimento e da distinção
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. 1887.
SCHELER, Max. Ressentiment. 1912.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 1979.
THEWELEIT, Klaus. Fantasias masculinas. 1977-1978.
Sociologia brasileira e norte-americana
SOUZA, Jessé. O pobre de direita: a vingança dos bastardos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.
SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso. São Paulo: LeYa, 2017.
SOUZA, Jessé. A ralé brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
HOCHSCHILD, Arlie Russell. Strangers in Their Own Land. Nova York: The New Press, 2016.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 1933.
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 1936.
Estudo acadêmico sobre as fontes de Lovecraft
"The Anglo-Saxons — Stoddard and Lovecraft". Madison Historical Review, James Madison University.



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