Uma escritora, dois hemisférios, nenhuma dúvida sobre qual prefere
Raquel Naveira escreve sobre o Brasil o tempo todo, mas seu norte magnético nunca sai da Europa. A busca por uma estrela-guia e a escolha por uma que nunca aparece no céu onde ela vive.

Comecemos pelo dado mais simples e mais esquecido: a Ursa Maior é uma constelação do hemisfério celestial norte. No Brasil, dependendo da latitude e da estação, ela mal aparece no horizonte, ou não aparece. Raquel Naveira escolhe, para guiar tantas páginas de confissão, exercício e erudição, uma estrela que estruturalmente não pertence ao céu sob o qual ela escreve. Não é acidente. É diagnóstico.
Ursa Maior se apresenta como prosa poética, uma sequência de apóstrofes, no sentido retórico clássico, a interpelação de um interlocutor ausente, dirigida à constelação. A autora mesma explica a escolha do gênero logo na abertura, filiando-se abertamente aos poetas românticos brasileiros que aprendeu a admirar antes de saber ler: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Fagundes Varela. É uma filiação confessa, sem ironia, sem distância. E é esse gesto de adesão sem atrito que vai definir o livro inteiro: Naveira não devora a tradição que a formou. Ela a reverencia, a cataloga, a data entre parênteses, e a reproduz.
O sujeito que fala sempre em posse, o objeto que aparece sempre em ruína
Um exercício simples de leitura sintática desmonta a arquitetura ideológica do livro. Sempre que o “eu” do texto se liga à ascendência europeia, ele ocupa a posição de sujeito ativo, com verbos de posse e ação plena: “meu coração é português”, “minha ancestralidade é portuguesa”, “fiz jus ao meu sangue português quando me arremeti contra o desconhecido”. É o sujeito que possui, que se afirma, que age no presente.
Quando o texto precisa mencionar os povos originários, o que faz raríssimas vezes em mais de sessenta páginas, a gramática muda de regime. Os índios goytacazes e tupinambás são apresentados como “dizimados por expedições militares de portugueses”: particípio passivo, oração subordinada, sem verbo próprio, sem nome de sentimento, sem tempo de narrativa. Uma frase-necrotério que resolve o extermínio em nove palavras e segue adiante, no caso, para falar do avô e da usina de açúcar da família.
Essa assimetria não é estilo. É a sintaxe fazendo, em miniatura, o mesmo trabalho que a história colonial fez em escala continental: um povo conjuga verbo; o outro recebe o verbo de outro, subordinado, apagado na função gramatical antes mesmo de ser apagado na história.
“Nação guarani”: o reconhecimento que dura uma frase
Há um momento, e apenas um, em que o livro nomeia com precisão política a terra da própria autora: ela se refere a ela como “nação guarani”. É um lampejo de honestidade histórica, reconhece soberania territorial anterior à colonização portuguesa, o que já é mais do que muitos textos concedem.
Mas repare no que a frase faz com esse reconhecimento: ele aparece exatamente no instante em que o sujeito narra sua partida. “Fiz jus ao meu sangue português quando me arremeti contra o desconhecido e saí da minha terra, nação guarani.” O verbo que rege a nação indígena é sair; o verbo que rege o sangue português é fazer jus, mérito, destino cumprido, valor que permanece no presente da enunciação. A nação guarani recebe seu único nome no livro no exato momento em que é abandonada. Não retorna. Não é mencionada de novo. Reconhecimento que nasce e morre na mesma oração é, no fundo, um gesto de cortesia gramatical, não de permanência.
A guerreira e a presa: duas máscaras que nunca se encontram
O momento mais revelador do livro, do ponto de vista de uma leitura decolonial, não é uma frase isolada: é uma contradição estrutural que a autora nunca resolve, porque parece nunca ter percebido que precisava resolvê-la.
De um lado, o sujeito textual se apresenta reiteradamente como vítima de uma força estrangeira e brutal: identifica-se com Leda violada pelo cisne, narra-se dominada por um centauro que “bate com os cascos”, diz-se flechada por um Anjo que a deixa “sangrando sem parar”. É a persona da presa, e o sofrimento ali narrado é real, é sentido, tem toda a legitimidade emocional de quem fala em primeira pessoa de uma dor de gênero.
De outro lado, poucos parágrafos depois, o mesmo sujeito empunha arco e flecha, promete “abater o inimigo”, garante que “triunfará na caça” e se declara, com orgulho, guerreira, uma guerreira, aliás, explicitamente inspirada na “força” e no “poder” com que a Ursa protege os filhotes “com ferocidade”.
O livro nunca coloca essas duas personas lado a lado para perguntar: a lógica que me fere quando sou subjugada é a mesma lógica que celebro quando empunho a flecha? A queixa de gênero circula livre e legitimamente pelo texto; a queixa colonial nunca ocupa a mesma primeira pessoa. E quando os agentes reais da colonização aparecem, os que povoaram os Açores e, na sequência histórica, o Brasil, o texto os enumera todos juntos, sem hierarquia moral: “saltaram marinheiros, corsários, escravos, fidalgos, condenados e todo tipo de aventureiros.” Escravizados e escravizadores na mesma vírgula, no mesmo fôlego enumerativo. É a violência histórica dissolvida em lista de povoamento.
A data entre parênteses como selo de autoridade
Há ainda um dispositivo menor, mas revelador, de hierarquização do saber: quase todo nome europeu ou canônico do livro vem seguido de datas de nascimento e morte “(1899-1986)”, “(1904-1989)”, “(1757-1827)”, um ritual de legitimação que empresta ao dito a autoridade do arquivo, do registro institucional, muitas vezes chancelado por prêmios europeus como o Nobel, citado três vezes. Nenhum saber de tradição oral indígena ou afro-brasileira recebe o mesmo selo. A avó açoriana que contava histórias de folclore é mencionada com carinho, mas sem nome de obra, sem data, absorvida como atmosfera, nunca como fonte citável. O livro tem, embutido na própria formatação da frase, um critério de quem merece nota de rodapé erudita e quem é apenas pano de fundo.
Onde está Oswald de Andrade quando ele passa pela página
O detalhe mais irônico de Ursa Maior é que ele contém, literalmente, uma menção a Oswald de Andrade, integrante da caravana modernista a Minas Gerais que a autora narra com prazer de pesquisadora. Oswald, autor do Manifesto Antropofágico, que propôs devorar a cultura estrangeira para produzi-la de novo, transformada, em chave brasileira. O nome está ali, na página, a poucos centímetros da própria prosa de Naveira, e o livro segue adiante sem tocar no que esse nome significa. Não há devoração. Há reverência, ordem cronológica, ficha bio-bibliográfica. O modernismo brasileiro que ela celebra propôs exatamente a saída para a ansiedade que estrutura o livro inteiro, e a autora passa ao lado da porta sem abri-la.
Uma pergunta, sem crueldade
Não se trata de expulsar a autora do próprio território, ninguém deve passagem só de ida a lugar nenhum por causa do que escreve. Mas cabe perguntar, com a mesma frieza analítica que se aplicaria a qualquer outro texto: o que significa escrever do Brasil apontando persistentemente para o Norte? Ursa Maior ilumina, mas ilumina de longe, e ilumina uma tradição que já foi iluminada demais. O interessante, e o que o livro não faz, seria perguntar o que fica no escuro quando todas as estrelas escolhidas para guiar a escrita nascem do outro hemisfério.
Nota: o livro Ursa Maior, de Raquel Naveira, foi fornecido pela própria autora, que o enviou ao MS Poetar para fins de resenha.




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