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James Baldwin sob censura: a recepção dividida de um escritor negro e gay no Brasil da ditadura

Em 8 de março de 1969, no auge dos anos de chumbo, o leitor do Correio do Povo abriu o suplemento cultural do jornal (o Caderno de Sábado, edição de número 71) e encontrou, ao lado de uma matéria sobre "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, um longo texto dedicado a um escritor norte-americano negro, que também escrevia sobre desejo entre homens, e que ainda não completara os trinta anos de idade quando o artigo original foi escrito. Chamava-se James Baldwin. O texto, assinado pelo crítico norte-americano Joseph Epstein e traduzido por um nome que a pesquisa acadêmica ainda não conseguiu recuperar, se intitulava "James Baldwin: Aqueles que todos conhecem". Era um ano depois do Ato Institucional nº 5. Um jornal de Porto Alegre, sob censura, decidiu que valia a pena apresentar Baldwin ao público brasileiro.

Esse episódio quase esquecido é o objeto de uma pesquisa recente da mestra e doutoranda Mariana Soletti (PUCRS), publicada na revista Revell em 2024, fruto do Grupo de Pesquisa Acervo de Escritores Sulinos. E ele conversa, de um jeito que a própria pesquisa não chega a explorar, com um segundo estudo: o do professor Lauro Amorim (Unesp), sobre a tradução brasileira de "O Quarto de Giovanni", publicada dois anos antes, em 1967, pela Civilização Brasileira. Lidos em conjunto, os dois trabalhos desenham um retrato mais complexo do que qualquer efeméride isolada seria capaz de contar: o de um país que recebeu James Baldwin duas vezes, e de duas formas quase opostas, no mesmo intervalo de tempo em que perdia, dia após dia, o direito de se expressar livremente.

Um escritor "traduzido" de duas maneiras

Comece pela tradução do romance. Segundo a pesquisa de Amorim, ao publicar "Giovanni's Room" em português, a Civilização Brasileira optou por uma apresentação editorial que deslocava o foco de Baldwin como autor negro e homossexual para Baldwin como autor consagrado da literatura norte-americana, tratado sobretudo em termos de sua qualidade estética. Não se tratava de censura direta e comprovada (o próprio Amorim evita essa conclusão categórica), mas de uma escolha editorial que amortecia o que havia de mais "chocante" no livro para um país vivendo sob regime de exceção. Um gesto aparentemente despolitizado que, justamente por isso, era político.

Compare-se isso ao que aconteceu dois anos depois, no Caderno de Sábado. Ali, o texto traduzido de Epstein não escondia o problema racial: reproduzia Baldwin quase sem filtro sobre o ódio que qualquer homem negro carrega, sobre o pai que o alertava para nunca confiar plenamente em um colega branco, sobre a "outremização" que empurra o negro para os limites que o homem branco determina. A pesquisa de Soletti chama esse gesto de "revolucionário": um jornal sulista, em plena ditadura, dando espaço para uma voz que recusava a complacência racial, ainda que o texto suavizasse pontualmente as arestas mais duras do original.

O contraste importa. Ele mostra que não existiu uma "recepção brasileira de James Baldwin" no singular: existiram, pelo menos, duas estratégias simultâneas e concorrentes de fazer um autor negro e gay circular sob censura: uma que o universalizava para protegê-lo, outra que o deixava falar quase sem disfarce, escondida nas páginas de um suplemento cultural que ninguém vendia separado do jornal.

O Brasil que se reconhecia e o que ainda se reconhece

O que torna a leitura de Soletti mais do que uma curiosidade de acervo é o paralelo que ela traça, apoiada nas pesquisas de Karina Avelar de Almeida e de Edson Teles sobre os mecanismos da repressão civil-militar brasileira: a mesma sociedade que lia sobre o medo racial nos Estados Unidos vivia sua própria arquitetura de silenciamento, com censura, perseguição a movimentos estudantis e apagamento sistemático de registros. A pesquisa lembra ainda um episódio levantado pelo historiador Lucas Pedretti (o cantor Tony Tornado impedido, no Festival Internacional da Canção de 1970, de erguer o punho fechado do black power no palco) como prova de que o regime também tinha seu próprio vocabulário de controle racial, mesmo enquanto negava publicamente a existência de racismo no país.

Baldwin, lido a partir da distância seguríssima dos Estados Unidos, funcionava como um espelho que o leitor brasileiro podia segurar sem se queimar diretamente, mas que ainda assim mostrava algo do próprio rosto. Soletti aciona também o conceito de "outremização" de Toni Morrison, de "A Origem dos Outros" (2019): a ideia de que a construção do Outro é sempre um mecanismo de defesa da própria identidade de quem observa. É esse mecanismo, mais do que qualquer legislação específica, que organizava tanto o racismo americano que Baldwin denunciava quanto o racismo brasileiro que o regime militar recusava nomear.

Por que Baldwin, de novo, agora

Não é coincidência que James Baldwin esteja sendo retraduzido no Brasil nesta década, com prefácios de nomes como o escritor irlandês Colm Tóibín e o antropólogo Hélio Menezes assinando os novos volumes de "O Quarto de Giovanni": um movimento editorial que devolve a Baldwin exatamente o que a edição de 1967 havia diluído: sua condição plena de autor negro e gay, sem precisar escolher entre as duas coisas para ser publicável. O pêndulo, depois de mais de meio século, se moveu.

A pergunta que os dois estudos (o de Soletti e o de Amorim) deixam em aberto, e que talvez seja a pergunta mais produtiva a se fazer neste centenário de nascimento redondo que agosto não traz (Baldwin nasceu em 2 de agosto de 1924, e 2026 marca 102 anos, não um número redondo, mas ainda assim um bom motivo), é outra: como a América Latina, para além do Brasil, recebeu, ou ainda não recebeu, Baldwin? A pesquisa disponível em português concentra-se quase inteiramente na experiência brasileira; falta, ainda, um mapeamento equivalente para a circulação de Baldwin em espanhol, no Cone Sul, nos Andes, no Caribe hispânico. Fica registrada a lacuna como convite a outra pesquisa, não como resposta fechada.

O que fica

Voltar ao Caderno de Sábado de março de 1969 não é exercício de nostalgia de arquivo. É lembrar que a literatura estrangeira, mesmo quando entra num país pela porta dos fundos de uma tradução domesticada ou pela brecha de um suplemento cultural corajoso, carrega consigo perguntas que o leitor de então, e o de agora, não consegue simplesmente devolver ao remetente. James Baldwin perguntava, em 1963, se os Estados Unidos ousariam mudar antes que o fogo chegasse. Passados quase sessenta anos, entre uma tradução que o universalizou para protegê-lo e outra que o deixou falar quase por inteiro, o Brasil segue decidindo, edição após edição, quanto de Baldwin está disposto a ouvir.

Referências: SOLETTI, Mariana. A recepção de James Baldwin no "Caderno de Sábado", do jornal Correio do Povo. Revell, v.1, n.37, abr. 2024. AMORIM, Lauro. Quando gestos não políticos são políticos: a tradução brasileira de Giovanni's Room, de James Baldwin, e a questão da homossexualidade. Mutatis Mutandis, v.7, n.1, 2014. MORRISON, Toni. A Origem dos Outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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