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Três edições, três geografias: o que o Prêmio Akuli já disse sobre a literatura brasileira

Criada em 2023, a categoria de histórias de tradição oral do Prêmio Literário Biblioteca Nacional já premiou uma coletânea coletiva, um poeta baiano que escreve em quatro línguas ancestrais e um jovem narrador do Alto Xingu. O resultado de 2026 sai até 30 de outubro, e há uma pergunta em aberto que interessa particularmente a Mato Grosso do Sul.

Livro "Dono das Palavras" de Yamaluí Kuikuro Mehinaku em destaque, rodeado por artesanatos tradicionais indígenas, simbolizando a rica cultura e história do autor e sua ancestralidade.
Livro "Dono das Palavras" de Yamaluí Kuikuro Mehinaku em destaque, rodeado por artesanatos tradicionais indígenas, simbolizando a rica cultura e história do autor e sua ancestralidade.

Há um dado que raramente aparece nas retrospectivas do modernismo brasileiro: Macunaíma tem um narrador antes de Mário de Andrade. Segundo a própria Fundação Biblioteca Nacional, foi Akuli, alcunha de Moseuaípu, quem transmitiu ao etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, no início do século XX, o ciclo de narrativas sobre Makunaímã que Mário leria e transformaria na rapsódia de 1928. As fontes disponíveis divergem sobre a que povo Akuli pertencia: umas o descrevem como Arekuna, outras como Taurepang, grupos reunidos pela etnologia sob a designação pemon, no extremo norte do país. A divergência fica registrada aqui de propósito. Escolher uma versão por conveniência de frase seria repetir, em escala menor, exatamente o gesto que a história desse nome denuncia.

Em 2023, a Biblioteca Nacional deu esse nome a uma categoria. O Prêmio Akuli, dedicado a histórias de tradição oral recolhidas entre povos originários, comunidades quilombolas e ribeirinhas, foi a primeira das quatro categorias criadas na gestão iniciada naquele ano por Marco Lucchesi na presidência da instituição, seguida por Carybé (ilustração) e Adolfo Aizen (quadrinhos), em 2024, e agora por João do Rio (crônica), em 2026, que leva o prêmio a treze categorias.

Três edições depois, a categoria já tem história suficiente para ser lida. E ela diz coisas.

2023 — a estreia coletiva

O primeiro Prêmio Akuli foi para Jenipapos — Diálogos sobre Viver, publicado pela MINA Comunicação e Arte, com organização de Daniel Munduruku, Darlene Yaminalo Taukane, Isabella Rosado Nunes e Mauricio Negro. A ficha técnica da obra é, por si só, um argumento: autoria coletiva reunindo, entre outros, Ailton Krenak, Conceição Evaristo, Eliane Potiguara, Trudruá Dorrico, Edson Kayapó, Cristine Takuá, Yaguarê Yamã, Allan da Rosa e Daniel Munduruku.

A escolha inaugural não foi tímida. Premiar uma coletânea polifônica, em vez de um autor solitário, disse na prática o que o edital dizia no papel: tradição oral é construção coletiva, e o livro é apenas o suporte em que ela se fixa.

Vale registrar quem organiza. Daniel Munduruku, do povo Munduruku, do Pará, publica desde os anos 1990, tem mais de setenta títulos e três Prêmios Jabuti, o mais recente em 2025, por Estações, pela Moderna. Em 2026, tomou posse como o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras em 116 anos de história da instituição. Antes disso, havia concorrido à Academia Brasileira de Letras, a cadeira que, em 2023, foi para Ailton Krenak, o primeiro indígena eleito à ABL.

2024 — o poeta que escreve em quatro línguas

Na segunda edição, o prêmio foi para Os Indígenas, a Mãe Terra e o Bem Viver, de Ademario Ribeiro Payayá, pela Editora Moderna.

Payayá é escritor, poeta, teatrólogo e pedagogo, do povo Payayá, na Bahia. Escreve em português e em línguas ancestrais, guarani, patxohã, kiriri e tupi. Foi um dos curadores da exposição Araetá — A Literatura dos Povos Originários, realizada pelo Sesc São Paulo, que mapeou a produção literária de autores indígenas brasileiros. Seu livro Oré-Îandé se organiza em torno de uma distinção gramatical que a língua portuguesa não faz: a diferença entre o "nós" que inclui o interlocutor e o "nós" que o exclui.

É um detalhe pequeno e vale mais do que muitos ensaios sobre alteridade. A categoria da tradição oral premiou, ali, um autor cuja obra opera dentro da estrutura de línguas que a colonização tentou eliminar — e que continuam produzindo pensamento, não apenas memória.

2025 — o Alto Xingu no Teatro

Na terceira edição, venceu Dono das palavras: a história do meu avô — Aki Oto: Api akinhagü, de Yamaluí Kuikuro Mehinaku, pela Todavia. O livro reúne as narrativas de seu avô, liderança do Alto Xingu.

O segundo lugar foi de Histórias de Muitos Mundos: Narrativas e Crenças Indígenas, de Yaguarê Yamã (Moderna); o terceiro, de A Porta Aberta do Sertão: Histórias da Vó Geralda, de Geralda de Brito Oliveira, Isla Nakano e Renata Ribeiro (Relicário Edições), obra que mostra a categoria funcionando também fora do recorte indígena, como o edital prevê.

Na cerimônia, em dezembro, Yamaluí dedicou o prêmio ao avô e aos dezesseis povos do Xingu, agradeceu à editora e ao Instituto Moreira Salles e fez uma observação que a cobertura em geral tratou como anedota e que talvez seja o dado mais duro da noite: disse que, sem o Bolsa Família, não estaria ali. Política pública e literatura na mesma frase, ditas por quem sabe do que fala.

O quadro das três edições

Ano

Obra

Autoria

Editora

Origem

2023

Jenipapos — Diálogos sobre Viver

Org. Daniel Munduruku, Darlene Yaminalo Taukane, Isabella Rosado Nunes e Mauricio Negro (autoria coletiva)

MINA Comunicação e Arte

Coletiva / nacional

2024

Os Indígenas, a Mãe Terra e o Bem Viver

Ademario Ribeiro Payayá

Moderna

Bahia

2025

Dono das palavras — Aki Oto: Api akinhagü

Yamaluí Kuikuro Mehinaku

Todavia

Alto Xingu (MT)

Lido em conjunto, o quadro desenha um padrão e uma ausência.

O padrão: em três edições, o prêmio saiu de uma coletânea nacional para autorias individuais, e de editoras de nicho para casas de grande circulação, Moderna, com forte penetração escolar, e Todavia, com forte penetração no mercado literário adulto. A categoria não está funcionando como reserva simbólica. Está funcionando como porta de entrada para o sistema editorial de massa.

A ausência é geográfica. Pará, Bahia, Alto Xingu. O ponto mais próximo de Mato Grosso do Sul, em três edições, está do outro lado do estado vizinho.

O que está em jogo em 2026

As inscrições da edição 2026 abriram em 8 de junho e fecharam em 8 de julho, para obras publicadas em primeira edição entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026. São treze categorias, R$ 30 mil para cada vencedor, sem taxa de inscrição, com autores independentes admitidos desde que a obra esteja em Depósito Legal e traga o ISBN impresso. O resultado sai até 30 de outubro, no Diário Oficial da União e no portal da FBN.

A Fundação não divulga lista pública de inscritos, e é por isso que a pergunta que este veículo faz precisa ser formulada como pergunta, não como denúncia: há alguma obra de tradição oral publicada em Mato Grosso do Sul disputando o Akuli 2026?

Não é pergunta retórica. Mato Grosso do Sul abriga os Guarani e Kaiowá, os Terena e os Kadiwéu, entre outros povos, além de comunidades quilombolas e ribeirinhas do Pantanal e da bacia do rio Paraguai, exatamente o escopo do edital. Presumir que não há produção seria o pior erro possível: quase sempre significa que a busca não foi feita, não que a coisa não exista. O MS Poetar vai procurar. Se você publicou, organizou ou conhece uma obra nessas condições, escreva para a redação, a lista dos inscritos ninguém tem, mas a lista dos livros que existem pode ser construída daqui.

Até 30 de outubro, o que há é uma comissão lendo. E a expectativa, dessa vez, tem endereço: saber se o nome que Akuli emprestou a essa categoria vai ser pronunciado, algum ano, ao lado de um livro nascido nesta fronteira.


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